terça-feira 28 de maio de 2024

AINDA SERIA POSSÍVEL IMAGINAR MOONLIGHT SONATA NAS PRAIAS DE MACEIÓ?

10 de julho de 2020 8:17 por Redação

“O oceano é verde de esperança, / Todo um sorriso de criança.
… Beethoven canta sublime, / À beira do mar,
/ A melodia que redime / A Sonata ao Luar”.
(OCTAVIO BRANDÃO)

No dia 1°  de outubro de 1960, um alagoano que retornara à sua terra natal após longo exílio, escreveu a poesia: A praia de Jatiúca. Os versos acima dizem um pouco do que a visão da praia lhe despertou. A poesia encontra-se no livro Octavio Brandão: dispersos e inéditos, de autoria de J.R. Guedes de Oliveira.

Quero dizer ao poeta/cientista que aquele oceano verde de esperança continua com um verde-azul encantador. Mas, sinto ter que lhe informar que agora nos deparamos com praias abandonadas à própria sorte.

Ele continuou a poetar: As ondas cantam nos corais / E pedregais, / Desfazendo-se em lágrimas de espumas. Querido Poeta, lamento lhe informar que as ondas, ao “cantarem nos corais”, trazem não apenas “lágrimas de espumas”. Junto às algas de arribadas, vêm pedaços de plásticos de diversas cores e origens, fraldas descartáveis, garrafas pet, embalagens descartáveis de biscoitos / sorvetes / amendoim, roupas, brinquedos quebrados, fezes de mamíferos não-marinhos e muitos outros resíduos que não são produzidos no mar.

É revoltante o que fazem com este pedaço da cidade. Numa busca na internet, em um site de turismo, deparei-me com o depoimento de uma visitante sobre a Pajuçara: “Uma praia linda à distância somente. Fiquei decepcionada quando me aproximei, várias línguas negras de esgoto. O mau cheiro impera. Não recomendo. As praias de fora de Maceió são as melhores!” E em um famoso site de notícias: “O verde esmeralda e o azul anil que tornam exuberante o mar de Maceió escondem o despejo de esgoto nas galerias de águas pluviais que chegam às praias da capital de Alagoas… “

Em uma caminhada pela praia da Pajuçara, e em outras da área urbana de Maceió, surgem sentimentos de muita desesperança no ser humano e nos gestores da coisa pública. E praias “de fora de Maceió” também não estão livres. Constatei, em restinga da praia de São Miguel dos Milagres, MUITO LIXO.

E sabe mais? Estas praias são decantadas como cartões postais do Estado de Alagoas. O litoral do Estado é todo explorado em diversas atividades, principalmente de turismo. E há praias não muito distantes daqui, em que os pescadores artesanais e a população em geral se deparam com muros e cercas que privatizam o acesso a um espaço que deveria ser público.

Sinto muita tristeza ao lhe informar, meu Camarada, que sua visão onírica seria alterada agora, e Beethoven iria executar sua Sonata ao Luar em outras praias ao se deparar com o lixo que riachos transformados em esgotos, “galerias pluviais” e o mar agitado jogam na areia sob o olhar “complacente” dos que deveriam manter limpo e saudável este presente que a natureza tanto caprichou.

Maria de Fátima P. de Sá é docente aposentada da UFAL; doutora em Ecologia (UFSCar); caminhante nas areias da Pajuçara e do Jaraguá.

Todas as postagens são de inteira responsabilidade do blogueiro.

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6 Comentários

  • Quem conheceu esta cidade onde a partir do Gogó da Ema hoje Sete Coqueiros era comunidade de pescadores tem um sentimento de profunda tristeza.
    Minha cidade tão bela descarectizada pelo desprezo do Poder Público.
    IDH de primeiro mundo. Quem diria!

    • Precisamos formar um grupo para pensarmos formas de ação, cobranças, conscientização.

  • Parabéns, Fátima. Excelente! Maceió precisa ser cuidada, dos recursos naturais aos recursos humanos. Abraço fraterno.

    • Vamos agir? Esta cidade tem condições de ser um modelo e de optar por um modelo de desenvolvimento que respeite a natureza e o povo.

  • Exelente artigo Fatima. Você descreve muito bem às tristezas que se encontra as praias alagoanas. É terrível constatar essa realidade.

    • Acho que podemos fazer muito e não apenas ficarmos olhando e lamentando. O que vejo agora, é a ampliação de um problema que existe desde que a cidade começou a ser explorada pelo turismo; o que é paradoxal.

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