02 de Fevereiro de 2020, o Xangô Rezado Baixo, ou o sentimento de tragédia vivenciado enquanto uma farsa.

0
Por Redação

Por Edson Bezerra[1]

Em seu 18 de Brumário, Karl Marx, ao analisar a problemática da luta de classe na França no século XIX e os seus impasses, escreveria que: “na primeira vez a história acontece como tragédia e na segunda” (ela a história), “aconteceria enquanto uma farsa”.

Pois bem, e, foi enquanto uma “farsa” que a violência contra a memória histórica dos negros seria rememorada no domingo, dia 02 de fevereiro, quando o evento Xangô Rezado Alto, a despeito de toda memória e registro de seus marcos e de suas violências históricas, sob o amparo e a articulação da Fundação Municipal de Ação Cultural de Maceió – FMAC, realizou a sua performance e ritual sobre a rememoração da tragédia da quebra dos terreiros de 1912, no suntuoso e paradisíaco território e paisagem da Pajuçara-Ponta Verde.

Em uma cidade fragmentada em duas metades, uma exuberante e rica – os espaços da Pajuçara-Ponta Verde e Jatiúca – e uma outra miserável, situada nos bairros periféricos, no geral, lugares esquecidos pelos poderes públicos e sujeitos a todo o tipo de violência, territórios nos quais se encontra situada a esmagadora maioria das casas de culto dos religiosos de matriz afro-alagoana, os contrastes entre estes dois territórios e suas paisagens assemelham-se ao que nos diz Fanon[2], quando, ao identificar as diferenças entre os espaços centrais aonde moram os colonizadores e os espaços dos pobres, esmiúça que:

A zona habitada pelos colonizados não é complementar da zona habitada pelos colonos. Estas duas zonas se opõem, mas não em função de uma unidade superior. Regidas por uma lógica puramente aristotélica, obedecem ao princípio da exclusão recíproca: não há conciliação possível, um dos termos é demais A cidade do colono é uma cidade sólida, toda de pedra e ferro. É uma cidade iluminada, asfaltada, onde os caixotes de lixo regurgitam de sobras desconhecidas, jamais vistas, nem mesmo sondadas.

Posto que:

O mundo colonizado é um mundo cindido em dois. A linha divisória, a fronteira, é indicada pelos quartéis e delegados de polícia.

 

Com este entendimento, vale perguntar por aqui, quais as nuances e quais as diferenças entre a tragédia de 1912 e a farsa de 2020, 108 anos depois?

Pois bem, em 1912 a conjuntura dos eventos que culminariam na trágica violência contra os praticantes de candomblé aconteceu em virtude do atrelamento dos terreiros, os quais, sob os auspícios e a proteção do poder do então representante maior de uma facção das elites alagoanas, o governador Euclides Malta, se sentiram na ilusão de poderem se sentar à mesa com uma elite, a alagoana, sempre, tradicionalmente, violenta, autoritária e de baixo-nível cultural. Pois bem, deu no que deu: pancadaria e humilhação da negrada e, até a presente data, os seus adereços sagrados estão cerimonialmente depositados enquanto despojos nas mãos do vencedor – o Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, enquanto um rico ornamento para turista ver, mas, “sem poder tocar”!!!!

Já a exibição e performance dos terreiros no território e paisagem paradisíaca na Pajuçara como se deu no dia 02 de Fevereiro, tem o sabor de uma farsa, e o sentido da farsa não se encontra apenas na performance ali em si mesma, mas alhures, e ela melhor se revela no contorno das históricas e conflituosas relações entre a cultura afro-alagoana e as nossas elites.

Sim, as razões não se encontram exatamente ali naquela performance, mas alhures, sendo o buraco mais embaixo, mais, muito mais embaixo, como eu já coloquei para o companheiro Jeamersom Santos, posto que, sendo em nossa sociedade (burguesa) a herança dos bens e da propriedade algo transmissível pela força da Lei e do Direito, os herdeiros da violência do Quebra de ontem, de 1912, estão hoje todos concentrados ali, naquele espaço gigantesco, na verdade, um conjugado coletivo de “Casas Grandes” irmanadas no interesse de seus direitos.

Todavia, no domingo, naquele espaço sempre panopticamente vigiado, os terreiros e os seus sagrados adereços, a despeito da violência de terem abandonado toda a perspectiva de memória histórica, estiveram a desfilar ali, altivos e vestidos de seus orixás, e em meio as suas danças e cantos, puderam desfilar “livremente” sob os olhares complacentes da repressão administrada dos poderes, e, para o deleite e alegria dos turistas, enquanto uma coisa pra turista ver!!

Meus caros, ao falar da cultura negra e particularmente dos cultos religiosos afro-alagoanos, não estamos diante de uma cultura qualquer, posto que, ela, a cultura afro-alagoana e suas religiosidades, constituem o coração, o berço e a matriz da cultura alagoana, e, quanto a isto não há novidade, pois, só para se ter uma ideia de sua força, o último filme de Werner Salles e Raphael Barbosa, o longa-metragem Cavalo, tem como a sua ideia estruturante e matriz, a cosmogonia dos orixás das águas, e, toda a esmagadora cultura alagoana, com raras e honrosas exceções, é devedora da força de seu enraizamento de um cultural que nos remete para a herança rebelde dos negros de Palmares.

Zumbi dos Palmares, pintura de José Zumba

Temos então que existe uma dívida, sobretudo, impagável da cultura e da sociedade alagoana para com a sagrada herança africana que habita entre nós e em nossos corações e que se espalha nas entranhas dos nossos paladares, e que, maravilhando os nossos olhos e penetrando em nossos ouvidos, nos atinge a alma no que existe de mais profundo,  e, existe então um lugar de memória que deveria ser preservado a partir das geografias, territórios e marcos originários onde aconteceu a violência da quebradeira dos terreiros; esta paisagem e território, com certeza, não é e nem será jamais ali, posto que, naquelas geografias glamorosas e território privilegiado das elites, os pobres, negros e periféricos estão sempre sobre vigilância e controle, sendo ali, desde sempre, um território no qual jamais residiria um Chico Foguinho, um Pai Aurélio, a negra Fortunata, o João Funfun, Sabino, moradores que foram do bairro da Levada e, não era jamais ali que residiria um Manoel Inglês (morador da Ladeira do Brito) e nem Manoel Coutinho (morador da antiga rua do Reguinho), e nem João Catirina (morador da Rua do Apolo), e nem Maria Bico Doce (Alto do Jacutinga) e nem tampouco Manoel da Loló (Vale do Reginaldo), nem Mestre Félix (Jaraguá), nem Manoel Guleiju (Mutange) e Maria da Cruz (Flexal de Cima) e nem  a Tia Marcelina moradora dos limites do Centro, pois, no geral, ou estes terreiros, – todos eles vítimas da violência do Quebra de 1912, – estavam localizados nas beiras de lagoas, ou situados no centro da cidade, espaço geográfico e território onde as casas e os monumentos e marcos históricos seriam em sua maioria construídos pelos próprios negros,  assim como foram a Igreja do Rosário, a Igreja dos Martírios, a igreja das Graças e a Igreja do Livramento, e, se por caso alguém no último dia 02 de fevereiro de 2020, apenas por alguns minutos, se apartasse do êxtase e fascínio e por dentre aqueles edifícios suntuosos e nominados com estrangeirismos – Patmos, Jacques Lacan, Jacques Lafont, Saint Thomaz, Belize, Van Gogh, Matisse – procurasse por um nome que remetesse a negritudes, seria algo como que procurar agulha em palheiro.

Êxtase. Foto de Siloé Amorim

Todavia, os negros e seus cantos no último dia 02 de fevereiro estavam todos ali, sentindo um pouco do glamour do desfilar na avenida Silvio Viana, espaço reservado de passagem e dos simulacros das relações humanas face-a-face, esquecendo assim, da consolidação e da construção de um lugar de memória – a Praça dos Martírios – quando ali, no dia 02 de fevereiro de 2012, diante de centenas de religiosos de matriz afro-alagoana, o então Governador do Estado, Teotônio Vilela Filho, no papel de represente maior do Estado,  pediria perdão aos negros alagoanos pelas históricas violências sobre as suas religiosidades.

O governador de Alagoas Teotônio Vilela Filho e o Reitor da Uneal, Jairo Campos.

Lembro-me – e isto foi há bem pouco – quando ali na Pajuçara, em dezembro de 2011, portanto um ano antes da realização do Xangô Rezado Alto na Praça dos Martírios, quase que aconteceria um revival do Quebra de 1912, quando a prefeitura da cidade de Maceió, pelo então prefeito Cícero Almeida, chegou a restringir as manifestações de oferendas a Iemanjá a um pequeno espaço da praia de Pajuçara. E por que isto não chegou a acontecer?

Pois bem, naquele dia, 08 de dezembro de 2010, o autor deste texto havia acordado há pouco, quando um militante cultural, o Ernani Viana Neto, telefonou-me avisando que a manifestação daquele ano havia sido proibida pela prefeitura, ao que de imediato não acreditei. No entanto, desconfiado, liguei para Geraldo de Majella[3], que mesmo não acreditando, procurou averiguar os fatos, quando, ao constatar ser verdade aqueles rumores, se comunicou de imediato com a então Secretária de Direitos Humanos, Katia Born, a qual ligaria para o então Secretário de Segurança Pública, alertando-o para as consequências políticas para o Governo do Estado se a tal proibição da Prefeitura fosse levada a cabo e houvesse uma outra quebradeira.

Pois bem, para os que não sabem, – e não são poucos – foi justamente esta intervenção que evitaria uma segunda humilhação dos negros tal como ocorreu em 1912, e foi quando eu e o Professor Geraldo de Majella, apoiados por lideranças afro-religiosas, entramos com um processo contra a Prefeitura no Ministério Público contra aquele ato discricionário.

Pois bem, não haveria e nem poderia haver nenhum tipo de tragédia no último dia 02 de fevereiro do presente ano, um domingo, posto que, os negros que estiveram ali naquele dia, ali estavam enquanto um presença datada, consentida, vigiada e administrada sob o manto protetor das elites alagoanas representadas pela Fundação Municipal de Ação Cultural de Maceió, na certeza a elas, elites, que ali a “barbárie” dos negros seria mantida sob o “controle dos marcos civilizatórios”, e, houve até quem, ou por se confundir com as datas, ou sob o impacto da exuberância dos adereços do desfile, se saísse a perguntar a um e a outro:

“É festa de Iemanjá seu moço?”

E, então, diante do exposto, podemos inferir ter sido toda uma  memória histórica que seria ali destroçada e folclorizada, ali naquele dia 02 de 02 de 2020, posto que, não se poderá jamais servir a dois senhores, e, que se ressalte, toda aquela performance tal como em 1912, se desenvolveria sob o silêncio ou o alheamento da esmagadora maioria dos intelectuais alagoanos, sobretudo daqueles, os quais, debruçando-se sobre as heranças das culturas afro-alagoanas, ao longo do tempo, vêm preenchendo os seus currículos lattes  de eruditos ensaios a partir das heranças ancestrais afro-alagoanas.

Eu, em minhas provocações e palestras, tenho dito que, os negros alagoanos e as suas lideranças mais expressivas, no geral, têm se revelado muito aquém da administração de toda a herança afro-alagoana na qual estamos imersos e somos devedores, haja vista que – só para identificarmos um exemplo – até a presente data, os administradores do patrimônio cultural da Serra da Barriga têm sido a Fundação Palmares, de resto, uma instituição, a qual, não obstante ser legitimamente administrada por respeitáveis intelectuais negros, são completamente alheios às particularidades alagoanas e aos impasses e aos interstícios nos quais a cultura afro-alagoana está situada.

Sobre a Tia Marcelina, a mãe de santo morta no Quebra, dizem que ao ser espancada a golpes de sabre e coturno, ao tempo em que chamava por Xangô, seu Orixá, ela dizia: bate, bate, vocês matam o corpo mas não a sabedoria.

Quanto a mim, enquanto o idealizador deste projeto lá por 2006, ao vê-lo atualmente tão desvirtuado, destroçado, e tão entregue à ideologia e às cínicas articulações de poder, eu, para além de qualquer tipo de pieguismo, só me resta suplicar, como alguém já o fez: Pai, perdoa-lhes, ele não sabem o que fazem!!

Ou, será que sabem?

[1] Para quem não sabe, eu fui o idealizador do projeto Xangô Rezado Alto, o qual seria realizado a primeira vez em 2006 e replicado em 2012 também enquanto uma iniciativa nossa na articulação da Universidade Estadual de Alagoas – UNEAL e as outas instâncias a partir de um proposta compartilhada entre as instituições envolvidas no evento.

[2] Para quem não sabe, Frantz Omar Fanon (1925–1961) foi um psiquiatrafilósofo e ensaísta marxista francês da Martinica de ascendência francesa e africana e que seria um dos mais representativos teóricos dos processos de libertação e descolonização dos países africanos sob o jugo dos países ocidentais.

[3] Que na época era diretor do Iteral (Instituto de Terras e Reforma Agrária de Alagoas).

Todas as postagens são de inteira responsabilidade do blogueiro.

Banner

Deixe uma resposta