quinta-feira 22 de fevereiro de 2024

BEATOS/BEATAS/MESSIAS EM ALAGOAS NA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XIX À PRIMEIRA METADE DO SÉCULO XX (3)

10 de julho de 2020 8:46 por Redação

Os Beatos e a liderança carismática

Ao analisar comparativamente os movimentos em torno dos beatos, nos casos de Canudos, de Juazeiro e do Contestado, dentre outros, o estudioso Leonildo Silveira Campos chegou à conclusão de que eles

(…) têm características que os ligam à prática de um catolicismo popular por um lado e a conflitos com a hierarquia católica de outro. Eles ilustram bem os conflitos existentes entre religiões organizadas e os movimentos mais livres, rapidamente tachados pelos analistas como movimentos ‘rebeldes’, ‘heréticos’, ‘surtos de fanatismo’, ‘subversivos’ ou ‘revolucionários’ ( 2012, p. 23).

Pode-se afirmar, de certa forma, que é ao redor de lideranças carismáticas, definidas por Weber (1999, p. 162) como pessoas dotadas de um “dom de graça”, que se reúnem os discípulos. Essa reunião muitas vezes se faz através de uma pregação escatológica, de conversão, profecias de tempos melhores, bem como da busca de uma recompensa pelo tipo de comportamento que tiveram, seja “…assim na terra, como no céu”. 

 

O poder carismático, para Weber (1999), tem como característica fundamental a  pessoalidade de um indivíduo, e nisso ele se aproxima do poder tradicional. Mas, este poder é a antítese do tradicional: enquanto o tradicional se legitima no passado, na tradição, o poder carismático nega a tradição. (WEBER, 1999). Por sua vez, os carismáticos “…são portadores de dons físicos e espirituais específicos, considerados sobrenaturais” (WEBER, 1999, p. 323).  Este líder seria um chefe que se distinguiria do homem comum pelas suas qualidades pessoais extraordinárias, quase sobrenaturais. 

Assim, no que diz respeito a esta pesquisa, é de primordial importância o conceito weberiano de carisma. Qual outro conceito – senão o poder carismático do Franciscano, do Velho Pedro ou dos outros beatos mencionados – poderia explicar o fato de centenas de pessoas deixarem tudo e segui-los numa aventura de encontro com o divino? E, ainda mais, o fato de eles construírem, em torno de si, uma forma social, moral e religiosa desligada da sociedade vigente em seu entorno?

 

(Fonte: http://rafael-zoihn.blogspot.com/2010/11/revolta-de-canudos-1893-1897-movimento.html)

Um dos fundamentos de legitimação da dominação e ascendência exercida por certos líderes é o carisma, que teria por embasamento a confiança depositada em alguém, diferente dos demais, “..por demonstrar qualidades prodigiosas, seja por heroísmo ou por outras habilidades exemplares que fazem dele um chefe, um líder” (WEBER, 1999, p. 61).

Procurando entender o posicionamento de Weber, percebe-se que ele aponta que a submissão ao carisma profético está relacionada com a existência de certas características próprias de uma vocação pessoal, missionária, revelada e, portanto, diferente, tanto do poder sacerdotal (que depende do cargo) quanto da atividade do mago (que tem caráter de troca, onerosidade).

           Dessa maneira, a teoria weberiana ensina que a atividade profética sempre traz consigo o anúncio de uma verdade religiosa, salvífica, por ser ela uma revelação pessoal, sendo esta a sua principal característica (WEBER, 1999).

Por carisma, Weber (1999, p. 162) entende

(…) uma qualidade considerada extraordinária que se atribui a uma pessoa […], alguém dotado de forças sobrenaturais […] não acessível aos demais, ou enviada por Deus, ou como revestida de um valor exemplar.)

Weber (1999) menciona outras características do carisma importantes para a pesquisa, como o caráter irracional e a instabilidade. Pelo fato de o carisma estar ligado à pessoa do portador, com sua morte ou desaparecimento surgem dois problemas: de um lado, a questão da sucessão na função de líder, chefe da comunidade religiosa; e, do outro, a estabilidade da mensagem. Quer dizer, acontece a institucionalização, gerando uma crise que pode ser superada com o que Weber (1999) chama de “rotinização do carisma”, que é a transformação do carisma em prática cotidiana.

Conforme Weber (1999), o líder carismático não conseguiria adquirir sua autoridade sem uma legitimação carismática, pois os defensores de novas profecias sempre precisarão de legitimações deste tipo.    

 

REFERÊNCIAS:  

CAMPOS, Leonildo Silveira. Reações católicas e protestantes ao movimento sociorreligioso de inspiração messiânico-milenarista de Canudos. In: LEMOS, Fernanda (Org.). Movimentos messiânico-milenaristas. João Pessoa: Ed. Universitária da UFPB, 2012, p. 13-77.

WEBER, Max. Economia e sociedade. Brasília: Editora da UnB, 1999.

 

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