quinta-feira 23 de maio de 2024

Monsenhor Alfredo Dâmaso: o padrinho, o santo – bem à frente do seu tempo (2)

10 de julho de 2020 8:46 por Redação

Monsenhor Alfredo: andanças e lutas de um pastor

Chegou à cidade de Bom Conselho no ano de 1918, sendo recebido muito bem pelos fieis da paróquia. Tempos depois foi transferido para Águas Belas com a finalidade de resolver os problemas existentes entre políticos e os índios daquela cidade.

Por considerar os índios “os donos da terra”, Padre Alfredo chegou a se desentender com os políticos porque queria demarcar o patrimônio em favor dos nativos. Isto lhe custou muitos aborrecimentos levando-o, inclusive, ao Rio de Janeiro, onde em entrevista com Getúlio Vargas expôs o caso e consegui do então presidente da Republica o compromisso de proteger os índios Funiôs. De volta a Águas Belas, conseguiu despejar das terras dos índios os ocupantes que se opunham a pagar foro. Após a resolução do problema, volta para Bom Conselho, mais ou menos no ano de 1930. Dias depois se envolvendo em política, ao ponto de disputar a Prefeitura em campanha tendo adversário o seu grande inimigo Cel. José Abílio. Era tão pública sua inimizade que sempre ao se referir ao coronel chamava-o de “O amarelo”. Esta inimizade rendeu muitos episódios entre os dois. Esta eleição foi considerada muito dura. Inclusive o governador do Estado, Carlos de Lima Cavalcanti, não acreditava na vitória de Jose Abílio.
Muitos fatos ocorreram durante a campanha e a eleição, chegando a serem anuladas duas secções pelo Tribunal Eleitoral e quase um ano depois foram autorizadas as eleições complementares. Foram designados dois juízes especiais, um para cada distrito, a fim de presidir as mesmas.

(Mons. Alfredo os índios Fulniô – Águas Belas – PE – arquivo: www.google.com)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O grupo do coronel utilizou entre seus mecanismos a criação de uma ala feminina, chamada e treinada por gente de Jose Abílio. As moças tomaram as ruas do Taquari e da Prata, onde acompanhavam cada eleitor de braços dados até asa proximidades das urnas. O matuto ficava envaidecido com a presença das moças bonitas e entregava-se ao esquema como se fosse uma brincadeira. Padre Alfredo tomou suas precauções. Foi até ao juiz, denunciou que os eleitores estavam voltando sobre coação. O Juiz manda chamar José Abílio, com a finalidade de apurar a denúncia, ao que José Abílio responde com a seguinte frase: – apresentem um eleitor que votou coagido, que eu tomarei as providências!…

Como não apareceram provas, as eleições seguiram e o padre foi derrotado, cumprindo a profecia do coronel: “O povo vai ficar com o padre na igreja e com o coronel na prefeitura”.

– Assim padre Alfredo desistiu de ter um mandato público. No entanto, cresceu sua hostilidade pelo coronel, chegando a pedir ao mesmo que do coronel sempre foi bem recebida na igreja pelo pároco.

– Diante do tratamento recebido no Taquari, o padre amaldiçoou o povoado e criou a Vila de princesa Isabel, hoje conhecida por Rainha Isabel. Com o desenvolvimento de Princesa Isabel, o distrito de Taquari, que era o maior distrito de Bom Conselho, foi decaindo ao ponto de ser totalmente destruído.

Como pároco de Bom Conselho, todos os fiéis de sua época tem uma lembrança bonita do padre. Para uns ele fez o casamento, para outros batizou todos os filhos, e para outros deu primeira comunhão.
Sempre disposto mesmo quando já estava bem idoso e doente, nunca se negou a fazer um atendimento a quem quer que fosse. Não tinha horário nem expediente, viajou durante muitos anos montado a cavalo ou em lombo de burro. No final da vida usava um jeep. Viveu na mais singela humildade. Apesar der ter vindo de família abastada e ser também capitão reformado do exército, jamais demonstrou luxo ou qualquer desperdício.

Realizou grandes festas religiosas, sendo responsável pela tradição das comemorações religiosas da semana santa e da quaresma, comemorada desde a Quarta-feira de cinzas até a festa da Páscoa. De todas as festas religiosas, a maior e mais bonita sempre foi a quaresma e a semana santa, com vias – sacras, Procissão do encontro, procissão de ramos, procissão de enfermos, Lava-pés dos apóstolos, hora da agonia, procissão do Senhor morto, onde as moça da sociedade representavam as figuras bíblicas envolvidas na paixão de cristo, como: os pecados, as virgens loucas e virgens e virgens prudentes, Ben-Hur, o cego de Jericó, Santa Verônica, os apóstolos, as almas, são Tomé, todas vestidas caracterizadas como personagens, pronto para a dramatização da Paixão. Outras festas eram realizadas na paróquia como: Festa da sagrada Família, Festa de São Sebastião, Festa de N. Senhora do Bom Conselho, Festa de Santo Antônio, Festa de Nossa Senhora das Vitórias, Festa de São Francisco, além da celebração dos meses de maio e de outubro. De todas as festas apenas as de são Francisco e de Nossa do Bom Conselho eram realizadas pelos franciscanos, auxiliados pelo padre Alfredo. Havia as festas dos distritos, também realizadas sob o seu comando e sua incansável fé e liderança. Construí a ermida de Santa Terezinha, a casa do padre, na serra, para servir de local de repouso e retiro: a residência paroquial, um sobrado, chamado por ele de quixó, demolido por ocasião da construção da nova casa paroquial. Por ver muitas mulheres morrerem de parto, construiu a Pré-maternidade Mãe sertaneja, na rua Mons. Marques, uma mini maternidade, que tinha uma sala de parto equipada dos instrumentos mais usados, com pequenos apartamentos e alguns leitos para as mães pobres. Acolheu muitas mulheres para um atendimento médico ou mesmo pelos parteiros da cidade, Joaldi Soares e Dulce Guerra, pessoas que ajudaram milhares de crianças nascerem. Não esquecer dos idosos: construiu e manteve por muito tempo o Abrigo são Vicente de Paula onde recolheu diverso idoso abandonados pela família.

Após algum tempo, resolveu construir um hospital. Batalhou o terreno e começou as obras. Quando a construção já tinha mais ou menos um metro de altura, padre Alfredo adoeceu, enquanto celebrava uma missa na igreja de são Sebastião e desmaiou. Todos os fiéis ficaram surpresos e a partir deste dia ficou público o estado de saúde do pároco.

Muitos exames foram feitos, inclusive uma cirurgia, no entanto, tempos depois, precisamente no dia 29 de junho de 1964, padre Alfredo faleceu no Recife.

Vários episódios são relatados por relatados por pessoas que conviveram com ele. Os mais conhecidos são os seguintes:

Por ocasião da construção do hospital, um senhor que tinha sua casa vizinho ao terreno do hospital resolveu construir o muro da casa mais ou menos um metro adiante do terreno do hospital. Por varias vezes o padre pediu que não se construísse o muro até aquele ponto. Uma das vezes chegou a marcar com a bengala onde queria que desmanchasse. No entanto, o proprietário do muro não atendeu ao pedido do padre e no dia da sua morte, uma grande chuva caiu em Bom Conselho e o muro curiosamente caiu exatamente no local marcado pelo padre.

Outro fato curioso e de que nós tivemos noticia: Na hora em que padre Alfredo faleceu no Recife, os sinos da igreja da Aldeia, em Águas Belas, repicaram sem que tivesse alguém na igreja.

Não sabemos até que ponto pode-se considerar folclore ou não, mas todas as pessoas que viviam e que vivem até hoje podem contar estes fatos.

Na manhã do seu sepultamento a população encarregou-se de limpar a estrada que dava acesso á ermida e na hora do seu sepultamento reuniu-se uma multidão em Bom Conselho jamais vista e jamais repetida. Deixou uma carta testamento determinando suas vontades para o povo de bom conselho e distribuindo seus pertences aos parentes e amigos.

Passados 51 anos após sua morte, pessoas visitam seu túmulo, pagam promessas e alcançam graças, invocando a Santa Teresinha por meio de padre Alfredo, grandes graças e favores.

Em sua homenagem foi construído, uma praça e colocado o seu busto. Por ser de gesso, o tempo destruiu e em breve espera-se que seja colocado um novo, desta vez de um material digno do grande sacerdote que foi para Bom Conselho.

Considerações finais

Quase nenhuma fonte escrita existe sobre a vida do Monsenhor Alfredo Dâmaso, daí a grande dificuldade em se escrever sobre o mesmo. Precisamos nos debruçar sobre os depoimentos, fontes de jornais, arquivos paroquiais. Mas, o mesmo deixou-nos um belo documento que chamamos carta-testamento que resumiria um pouco a vida, a luta e o desejo desse grande presbítero que viveu muitos anos à frente do seu tempo. Passarei a transcrevê-la:

Em nome do pai, do filho e do Espírito Santo. Amém.
Sentindo-me gravemente enfermo, além da pior das enfermidades a velhice, quero deixar alguns esclarecidos e algumas determinações sobre coisas de minha pobre vida.

Estou nas mãos de Deus- Meu pai- e d´Ele aceito alegremente tudo o que ele houve disposto sobre a minha vida.

A ele peço perdão pelos meus enormes pecados e deficiências. “a ele ofereço a minha morte. Quero que ela seja um ato de amor à santíssima Trindade assim como um ato de total submissão e adoração á sua vontade Soberana. Também de amor a Santa igreja. Tenho muito medo da justiça de Deus, mas tenho uma confiança ilimitada na sua misericórdia Infinita. Sou pobre. O pouco que possuía já foi distribuído. Pouquíssimo resta. Para maior clareza desejo e determino o seguinte:

1º) Na cidade de Bom Conselho, nos fundos da casa paroquial, construí um sobradinho que determinei “O Quixó” para minha residência. Quero e faço doação deste humilde prédio á SOCIEDADE DE SÃO VICENTE PAULO – “Casa de São Vicente” que tem personalidade jurídica, para o fim de auxiliar com seus rendimentos ao “Abrigo D.Moura” ou a Casa da caridade de velhos indigentes, que temos conservado e amparado até hoje com as esmolas dos bons paroquianos. Terei o uso fruto enquanto viver e quero que seja inalienável perpetuamente. Conflito no critério justiça do nosso bispo diocesano. No alto da Ermida de Santa Teresinha, num pequeno sitio, junto á capela que tem já seu patrimônio em terra e casas de aluguel, fiz também um sobradinho para residência do Vigário ou do Capelão do mesmo modo quero que seja incorporado ao Patrimônio da Ermida, com as mesmas condições acima determinada:

2º) Biblioteca: quase desaparecida! Não convém dizer. Restam poucos livros todos eles quero que façam parte da biblioteca do meu irmão mais novo, por um educado – Jorge Pinto Damaso. Quanto porém aos livros eclesiásticos ficarão sob seus cuidados e destinado ao primeiro sacerdote da família que venha a ordenar-se futuramente.

3º) Minha casa: É paupérrima. Nunca me incomodou a falta de conforto. O meu irmão Jorge disponha de tudo como quiser –lembrando –se de deixar cadeiras e camas á casa paroquial. Lembrando –se também do Paulo e da velha Júlia.

ATENÇÃO

No caso de morte aqui no Recife – é preferível – o sepultamento aqui mesmo para evitar atrapalhação e despesa no seio da família – no chão (cova bem funda). Enterro paupérrimo. Não convém transportar para Bom Conselho. Para quê? Melhor aqui mesmo.

No caso de Bom Conselho, se morto lá – seria sepultamento no pátio da Ermida (antes da entrada do enrolado) numa rede, presente de Alfredo Canuto – rede de linho – do amazonas. E dentro do caixão da caridade, se os índios reclamarem – seria na capelinha da Aldeia. Ass: Pe. “Alfredo Pinto Dâmaso”.[2]

Referências:

[1] Doutor e mestre em Ciências da Religião pela Unicap. E-mail: gilvan.neves@uol.com.br.

[2] Carta-Testamento do Monsenhor Alfredo Pinto Dâmaso.

CELAM. Evangelização no presente e no futuro da América Latina. Conclusões de Puebla. São Paulo: Ed. Paulinas, 1979.

DÂMASO, Alfredo P. Carta Testamento, escrita em 30 de maio de 1964.

FERRO, Celina Correia. De Papacaça à Bom Conselho.Vol. 01, 1992.

TRIBUNA INDEPENDENTE, Maceió-AL, Ed. No. 2070, 2º. Caderno, pg. 3, 14 de junho de 2014.

Todas as postagens são de inteira responsabilidade do blogueiro.

 

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