sábado 3 de dezembro de 2022

A representação negra nas artes: Parte II

10 de julho de 2020 8:05 por Redação

O termo “Négritude” foi cunhado por Aimé Césaire (1913-2008), poeta, político e intelectual afro-caribenho, em seu poema “Cahier d’un retour au pays natal”, em 1930. Seu intuito era, em primeiro lugar, reivindicar a identidade negra, perante a cultura dominante europeia. Dessa forma, abrindo um espaço de autoafirmação, que, posteriormente, seria aprofundado por Léopold Sédar Senghor (1906-2001), poeta, político, intelectual e ex-presidente senegalês.

Segundo Senghor, “a négritude é o conjunto de valores culturais da África negra”. Para Césaire, “esta palavra designa em primeiro lugar a repulsa. Repulsa ante a assimilação cultural; repulsa por uma determinada imagem do negro tranquilo, incapaz de construir uma civilização”. O efeito da “Négritude” foi explosivo, reuniu diversos intelectuais negros de diferentes partes do mundo, ao passo que também conseguiu fazer com que outros intelectuais se unissem a eles, como Jean Paul Sartre (1905-1980), o qual definiria o movimento como “a negação da negação do homem negro”.

Um dos aspectos mais ousados do movimento foi a subversão semiótica do termo “nègre”, o qual era utilizado para pejorativamente intitular negros em francês, mas que deu origem ao termo “Négritude” para empodera-los. A revolução no sentido da palavra é equivalente à revolução intelectual provocada pelo movimento, que também contava com Léon-Gontran Damas (1912-1978), político e poeta da Guiana Francesa, como um de seus três fundadores.

A insurreição intelectual causada pelo movimento influenciou uma serie de autores: Birago Diop (1906-1989), do Senegal, o qual explorava o místico da vida africana em seus poemas, David Diop (1927-1960), escritor de poesia revolucionária e de protesto, Jacques Rabemananjara (1913-2005), cujo os poemas glorificam a história e cultura de Madagascar, os camaroneses Mongo Beti (1932-2001) e Ferdinand Oyono (1929-2010), que escreviam romances anticoloniais, e Tchicaya U Tam’si (1931-1988), cuja poesia extremamente pessoal não negligencia o sofrimento do povo negro.

Com o surgimento da onda de protestos e o fortalecimento da luta antirracista após o assassinato de George Floyd, sinto que foi extremamente necessário redigir um texto que abordasse a temática da representação negra através da história, de modo, que a promovesse e combatesse a sua ocultação.

No cenário em que vivemos, é necessário agregar e contribuir com a luta antirracista, seja indo aos protestos, ou reconstruindo a memória da identidade negra e toda sua produção intelectual. Assim, não somente divulgando autores negros, mas também servindo como alicerce para uma afirmação, que contraria o que é historicamente associado e negado ao povo negro.

Mesmo dentro de áreas com tendências mais progressistas, como a arte, temos que lidar com o racismo que se estende nelas, de forma implícita ou explicita. Até mesmo grandes nomes da literatura brasileira, neste caso, Monteiro Lobato (1882-1948) já expos seu racismo em suas obras e até mesmo numa carta inédita endereçada para Sergio Buarque, onde fica exposto seu “cinismo escritural antinegro”, que não perdoou nem o maior escritor brasileiro de todos os tempos — Machado de Assis (1839-1908) —  

Creio que também seja válido citar alguns nomes que estiveram ou estão em ascensão na luta antirracista, contribuindo de alguma forma ou de outra: Jean Michel Basquiat (1960-1988), artista negro neoexpressionista americano, que introduziu o grafitti ao cenário das galerias de arte e se tornou um “hit”, Silvio Luiz De Almeida, jurista e filósofo, que agrega ao debate sobre o racismo com suas ideias, Jones Manoel, professor de história e militante do PCB (Partido Comunista Brasileiro), que escreve sobre temáticas negras e a nossa solidão no mundo intelectual, e Solano Trindade (1908-1974), poeta brasileiro, folclorista, teatrólogo, cineasta e  militante do PCB e do Movimento Negro, cujo trabalho tem uma estética negra.

Nomes dentro da filosofia e sociologia, como, por exemplo, Du Bois (1868-1963), sociólogo pan-africanista e escritor americano, cujo trabalho serviu como base para a criação do empoderamento intelectual negro, e Frantz Fanon (1925-1961), filósofo, psiquiatra e ensaísta marxista da Martinica, cujo trabalho contribui para o fortalecimento da teoria pós-colonial, merecem ser citados aqui também. 

Também há dois outros nomes que, futuramente, aparecerão por aqui, mas que eu gostaria de já citar: Natanael Vieira, poeta, professor e escritor maranhense negro, que se tornou doutor honoris causa em literatura pela FEBACLA (Federação Brasileira de Acadêmicos das Ciências, Artes e Letras) aos 21 anos, e Miguel Nogueira, mais conhecido como Midrusa, artista maceioense de 25 anos, cujo empoderamento negro está mitologicamente presente em suas obras.

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6 Comentários

  • Texto muito bem escrito, e eu fiquei muito feliz de ter me citado. Muita honra e parabéns!

  • Parabéns professor pelo trabalho como sempre insentivando a todos com seu trabalho

    • Parabéns Madson pelo trabalho 🙏🙏 sucesso e sabedoria sempre!

  • Meus parabéns ao colunista Madson Costa pelo trabalho, muito interessante

  • Parabéns, pelo trabalho. Muito aprendizado nesse texto.

  • Belo texto.

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