Conheça a arte empoderada de Midrusa

18

18 de agosto de 2020 por Madson Costa

 

Midrusa (Arquivo Pessoal)

Miguel Henrique, mais conhecido como “Midrusa”, é um jovem artista visual maceioense, de 25 anos, e estudante do curso de Design na Ufal (Universidade Federal de Alagoas). Passou sua vida morando entre o Bom Parto, Brejal e a Chã da Jaqueira, onde reside atualmente há 15 anos. Apesar de não haver alguém em sua família que trabalhe com arte, logo cedo, ele começou a se afeiçoar por ela. Se inspirava nos desenhos animados que via na televisão, desenhava bonecas com cabeças gigantes. Quando estudava no Sesi Cambona, entre a primeira e a terceira série, participou de uma exposição de arte promovida pela escola, embora não tenha comparecido a ela.

“Felizmente, minha família sempre me incentivou a seguir desenhando. Eu amava as matérias de artes, tanto que quando estudava no Sesi Cambona, desenhava bastante o Sesinha”, diz Midrusa.

Apesar de gostar de desenhar desde quando era criança, Miguel não imaginava seguir carreira como ilustrador ou artista visual. Na realidade, ele pretendia trabalhar com moda, que era uma de suas paixões. Dentro desse contexto, a arte, para Miguel, surge como um dos principais meios de representação, uma forma de subverter o papel de servidão do corpo negro nos campos artísticos, de modo que se possa utilizá-la para criar um local empoderado, onde possamos contar nossas histórias ocultadas pelo tempo e a repressão.

“Comecei a retratar pessoas pretas por um tempo, majoritariamente homens, como um meio de lutar contra o auto ódio, contra minhas inseguranças. Enfim, me ver como alguém que merece estar aqui nesse plano. Fiz poucos autorretratos, mas eu consigo me enxergar em outros corpos negros”, complementa Midrusa.

Em seus trabalhos, a violência, comumente associada como parte fundamental do que é a produção artística negra, dá espaço para o empoderamento mitológico de suas peças. Miguel narra a realidade poeticamente, a partir de suas obras cujos temas simbolizam a maternidade, infância, entre outros, ao passo que traça um paralelo com as forças da natureza como forma de dizer que fazemos parte desse mundo. Essa analogia aos elementos da natureza vem de suas inspirações em religiões de matriz africana, que, de acordo com ele mesmo, faz-lhe sentir-se representado enquanto pessoa preta.

Em suas obras, a cultura negra matriarcal carrega o papel de protagonismo subversivo contra a violência de uma sociedade patriarcal organicamente violenta para reafirmar que nossa cultura também é matriarcal e preta. Midrusa cria um universo mitológico em suas obras, recontando a história da criação do mundo sob aspectos diferentes, representando a natureza, a cura, o amor e a prosperidade.

“Gosto muito de histórias sobre a criação do mundo, as diferentes cosmologias e mitologias. Infelizmente, são mais propagadas histórias embranquecidas sobre isso. Histórias, essas que contribuem para o racismo e subjugação de nossos corpos. Represento os corpos que não são vistos pela maioria para dizer que somos poderosos. Desde bebês até a velhice, nossa existência é poderosa e não devemos aceitar menos que isso”, afirma Midrusa.

Uma das obras de Midrusa

Seus trabalhos contam com um alto grau de perfeccionismo em seus traços, construindo um universo simbólico intrinsicamente conectado ao seu imaginário e suas experiências enquanto indivíduo. Sua capacidade de criação e seu talento são vistos nos acabamentos de seus desenhos, na paleta de cores utilizada para construção da conexão entre suas obras.

Além disso, Midrusa também faz desenhos realistas, os quais demonstram a complexidade artística de suas criações. Ele usa uma variedade de técnicas, que fazem com que seja difícil descrever sua produção, que não pode ser resumida apenas ao seu universo mitológico, apesar de ser majoritário nas produções recentes. Nas suas obras mais antigas, a lua, flores e tons de rosa assumem o foco central, enquanto que no intermeio, o corpo humano e animais em tons mais escuros ocupam esse espaço.

De modo geral, ele utiliza a figura humana e sua expressividade como inspiração, também utiliza técnicas de traços simples e contínuos. Cada uma de suas obras proporciona uma experiência diferente, como se fossem aventuras totalmente distintas, cujo o sentimento despertado em nós varia de acordo com qual ela seja.

Midrusa trabalha com ilustrações e também fez um dos cartazes da “Mostra Quilombo de Cinema Negro”, no qual ele propõe a retomada de sua ancestralidade, construindo uma identidade e processos de resistência através da criação de raízes para se manter nessa nova terra. Midrusa chama atenção por suas obras, as quais evidenciam sua capacidade de ser um dos futuros grandes nomes da cultura alagoana. Todas as suas obras podem ser vistas no seu Instagram, @omidrusa.

18 Comentários

  1. Foi um prazer e uma honra ter sido entrevistado por você, Madson. Você é extremamente talentoso e queria muito agradecer pelas palavras, pelo respeito e pelo conforto durante e depois das nossas conversas.

  2. ana luiza ribeiro em

    Artista incrível, delicado e forte. O cuidado e preciosismo dos traços que constroem as narrativas são únicas e quem não conhece tá perdendo dms!

      • Matheus Ivan da Silva Chagas em

        A arte do Midrusa é uma potência para pensarmos a descolonização da arte aqui em Alagoas, sobretudo em Maceió. Existe um potencial curativo impressionante na maneira como ele retrata os corpos negros como seres divinos ao mesmo tempo que humanos. Muito feliz de ver as obras dele sendo difundidas por aqui. ❤️

Deixe uma resposta