Festa da Padroeira em Anadia: lugar de identidade e memória (1)

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Por Gilvan Gomes

Introdução

A cidade de Anadia está situada na região leste do Estado de Alagoas, distando 94 km de sua capital, Maceió. Com uma população estimada em 17.847 hab e com uma incidência de pobreza de 60,70% . Com um Índice de Desenvolvimento Humano (IDHM), em 2010, de 0,568 . O nome original do município era Campos do Arrozal de Inhanhuns e, em 1801, quando foi elevado à categoria de vila, passou a ser chamada de Vila Nova de São João de Anadia, em homenagem ao Visconde de Anadia, ministro português que autorizou a criação da vila. A freguesia foi instalada em 1802. Segundo um historiador anadiense:

 

 

(Fonte: www.google.com.br)

 

 

 

Porém, não se sabe ao certo quais foram os principais desbravadores. Há a hipótese do primeiro povoado ter sido precedido por famílias que migraram para a região, atraídas pelas planícies e pela boa produtividade do solo. Essa produtividade, aliás, pode ter atraído outros desbravadores que seguiram o curso do rio São Miguel, numa rota de exploradores. Conta a história que, durante o século XVII, uma imagem da Virgem da Piedade foi encontrada perto do povoado e, segundo a crença popular, fez com que o padroeiro do arraial, São João, fosse substituído por Nossa Senhora da Piedade.

Campos do Arrozal de Inhanhuns, de sua criação dedicada ao milagroso S. João Nepomuceno; perdeu o seu Padroado nos princípios do século passado pelo achado da Imagem de Nossa Senhora da Piedade sobre uma pedra na Serra Morena, deixada por falecimento de um dos fugitivos do Quilombo dos Palmares, que aí vieram estabelecer-se e criarem-se em famílias. (JOBIM, 1881, p. 48 )

A cidade de Anadia e sua breve história sociorreligiosa está inserida no universo de um catolicismo rústico, trazido pelos portugueses:

No Liberal n.° 20, de 1872, fiz publicar a lenda anadiense e a tradição histórica de N. S. da Piedade, que os velhos têm por verdadeira.

“ Uma mulher, nascida no meado do último século e falecida há 16 anos, em suas recordações infantis nos contava que alcançou, nesta vila, então nascente povoado, uma casinha coberta de palha, onde o Cura de S. Miguel vinha celebrar missa por contrato com os habitantes: e lembrava-se a boa da velinha(Será: a boa velhinha?) que sua mãe empoava-lhe de véspera os cabelos para na madrugada seguinte irem encontrar a procissão de N. S. da Piedade, cuja imagem fugia da casinha e ia ser achada junto a uma pedra na Serra da Morena (fronteira à vila), onde morrera um dos descendentes dos fugitivos dos Palmares que para ali conduzira a dita imagem.

Os grandes festejos que se faziam, dizia a velha, com tiros, caixas e zabumbas, e ao mesmo tempo o desgosto, causado pelo desaparecimento da misteriosa imagem, deram lugar a uma formal promessa de edificar-se uma igreja, mudando-se de Padroado, que era de S. João para N. S. da Piedade e, nessa igreja, adorar-se e glorificar-se a pequena imagem.

José da Fonseca Barbosa e seu irmão Antônio Barbosa, homens mais ricos desse tempo, comprometeram-se a ser os primeiros condutores em seus carros das pedras e madeiras necessárias para a edificação da Capela de N. S. da Piedade se cessar-se (Será: se cessasse?) o maravilhoso desaparecimento.

Se é supersticiosa esta nossa narração não sabemos – o que há de certo é que, na Serra da Morena, três milhas distantes desta vila, ainda existe a descendência dos antigos habitadores [sic]dos Palmares, tipos originais de sua raça: aí fora a sua primeira situação, depois de destruído o Quilombo da Serra da Barriga. De 1765 datam os primeiros serviços de edificação da nossa Matriz, e desejos da criação da freguesia em ato continuado: em 18 de novembro de 1801 foi mandada erigir em vila com a denominação de S. João de Anadia, em honra ao visconde de Anadia, ministro português, que referendou o Alvará da criação da vila e a propôs. Em 20 de dezembro do mesmo ano foi posto em execução, e inaugurada a vila aos 21 fez-se a divisão do termo separando-se de S. Miguel e Atalaia. Em 1803 fundiram-se os 2 sinos, que foram doados a [sic]Matriz e a devoção de S. João Nepomuceno, primeira invocação desapareceu.

A Imagem de N. Senhora foi substituída por outra de vulto maior. A pequenina e antiga colocada ficou ao lado do Evangelho, esquecida….

Entretanto foi ela quem despertou o povo na edificação de sua Matriz anunciando-se no diserto [sic]para ser eterna mãe dos anadienses.

Ingratidão.

Em 1846 sacrilegamente a furtaram da Matriz e achada (não queremos dizer aonde) restituída foi por D. Maria Rosa Rodrigues Leite”.

O catolicismo foi, no passado colonial brasileiro, uma religião obrigatória: os que aqui nasciam o aceitavam por pressuposto de cidadania, exceto os indígenas, aos quais se exterminava ou se convertia. Os que aqui não nasciam tinham que adotá-lo, mesmo que não o compreendessem: os negros escravizados eram batizados no porto de procedência ou de desembarque (NEGRÃO, 2008, p. 262).

Neste catolicismo rústico predominavam as festas religiosas, com suas rezas e celebrações, muitas vezes sem a presença do clero, que era escasso no Brasil do século XIX, e a sua maioria ficava nos centros urbanos, litorâneos, onde se vivia uma certa ortodoxia. Assim, o resto da colônia, os pequenos vilarejos e os bairros rurais, onde vivia dispersa uma população de baixa densidade, não contava com a presença de párocos locais.

O padre passava por eles apenas de quando em quando, às vezes apenas uma vez ao ano, para a “desobriga”: batizar os nascidos, casar os ajuntados, ouvir as confissões, rezar a missa. Essa configuração do empreendimento ao mesmo tempo. (NEGRÃO, 2008, p.263)

Também se pode dizer que “a missa da festa, que se manifesta quando o povo sente o poder da comunidade […] se relaciona à imagem […] música, movimento, cor e beleza” (HOORNAERT, 1969, p. 585).

Daí se pode afirmar que a festa religiosa em Anadia é anterior à própria criação da freguesia, da paróquia, que é datada pelo Livro de Tombo, no. 02, do Arquivo Paroquial: “Em 1801 foi creada a freguezia de Nossa Senhora da Piedade na Villa de São João de Anadia […] Criação do Bispo Dom José Joaquim da Cunha de Azevedo, […] affirmam que foi creada a freguezia [sic]em 02 de fevereiro de 1802”. Dia esse que datou a festa da Padroeira. A primeira providência foi prover a freguesia com um capelão: “ Padre Francisco Ignácio de Araújo, Coadjutor da freguesia de S. Miguel, foi o primeiro nomeado para reger interinamente o Curato, e como tal prestou juramento e tomou posse” (JOBIM, 1881, p. 51).

Hoje, a festa da padroeira é o maior acontecimento da referida cidade, chegando a reunir quase 20.000 pessoas na procissão do dia 2 de fevereiro. “A Festa da Padroeira, no dia 2 de fevereiro, é um dos pontos altos do município, que recebe milhares de fiéis na já tradicional procissão” (https://pt.wikipedia.org/wiki/Anadia_Alagoas, consultado em 14 de junho de 2016).

Foi a festa que eu conheci e, como diz o poeta anadiense: “Festa de N. Sra.da Piedade/ A rua cheinha de gente / E de barracas de palha… E os meus olhos de menino / Iam guardando maravilhados / Aqueles quadros que jamais se apagarão Da minha lembrança” (FAY, 2010, p. 28).

Fonte 1: IBGE, Censo demográfico, 2010.
Fonte 2: IBGE, Censo demográfico, 2000 e Pesquisa de Orçamentos Familiares – POF, 2002/2003.
Fonte 3: Atlas Brasil, 2013 Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.

REFERÊNCIAS:
ARCHIVO parochial da Paróquia de Anadia. Livro de Tombo, no. 2, 1802. p. 1.
FAY, Emanoel. Trilogia alagoana. Maceió: Aalamagis, 2010.
JOBIM, Nicodemos. História de Anadia. Maceió: Instituto Arqueológico e Geográfico Alagoano, 1881. v. 1.
NEGRÃO, Lísias Nogueira. Pluralismo e multiplicidades religiosas no Brasil contemporâneo. In: Sociedade e Estado, Brasília, v. 23, n. 2, p. 261-279, maio/ago. 2008.

 

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