quinta-feira 23 de maio de 2024

O bom pastor, ou, uma memória de infância

1 de setembro de 2020 10:29 por Edson Bezerra

O retiro do Bom Pastor é um convento situado na rua Virgínio de Campos, no bairro do Farol, para o qual eu, quando pequeno, vez por outra era para ali levado pela minha mãe e, no mais das vezes, da Praça dos Martírios para ali, íamos quase sempre que, a pé, e, depois de subirmos pela Ladeira dos Martírios e na caminhada nos alongarmos até a Praça do Centenário, deli seguíamos pela Av. Fernandes Lima, até dobramos pela rua (…), na qual haviam bangalôs elegantes, nos quais, por detrás dos muros baixos, os meus olhos de menino pobre, pelos jardins e salas, eu avistava telescópios, bicicletas, velocípedes e outros objetos de desejos por coisas que eu não tinha.

Mas, era uma grande a alegria visitar o convento do Bom Pastor, e, por dentre as dezenas de internas, haviam as freiras, e, dentre muitas, haviam duas que me ficariam na memória: a Madre Maria Xavier e a Madre Celina.

Se com as duas a minha mãe se inteirava das coisas do sagrado, era no particular com a Madre Xavier que se dava a maior parte dos seus colóquios e orações, e, eu não sabia se para a intimidade de seus colóquios, contribuía a sua condição de cadeirante.

“A madre Xavier” – uma cadeirante, – assim ficara, dizia-me minha mãe, em virtude da maldade de uma noviça, a qual, por pura maldade a fê-la cair de propósito fraturando a coluna, e isto, pontuava minha mãe, seria um segredo que morreria com ela, e que por isto e também pelas penitências e rezas, a minha mãe, um órfã outrora adotada que fora por minha Avô Salviana, escolhera a Madre, como um segunda mãe, com o adendo de, ser além daquela maternidade adotada, ser ela, uma santa!

Uma santa!! Dizia-me a minha mãe, e santa ou não, lembro-me dela com uma saudade atrelada de doçura, e, se por vezes eu permanecia ali durante dezenas de minutos, horas, por outras, quando minha mãe estava nos entremeios de entrar nas intimidades de confissões, dizia-me delicadamente: meu filho, vá dar uma volta.

Ordenada a sentença, eu descia para um sitio que havia, e era um sítio com muitas árvores frutíferas, e haviam as mangueiras, os cajueiros, jaqueiras, pitangueiras e outras tantas frondosas espalhadas sob as quais se derramavam por dentre as quietudes e os cantos dos pássaros, o cocoricar das galinhas e os bandos de patos por entre uma vastidão de sombras, e, no meio do sítio, havia uma gruta com a imagem de Nossa Senhora, e diante da santa, uma construção de pedras cheia de água e repleta de peixinhos amarelos.

Lembro-me que, ao chegar na gruta eu fechava os olhos e me punha a rezar, e, sabe-se lá quanto tempo eu ficava e o que pedia, e ali, naquele tempo, era um tempo em que eu buscava ser santo, e ali eu pensava nos mistérios de São Francisco de Assis e na história do lobo mau pelo santo amansado, e me punha a pensar nos sofrimentos de Cristo na cruz pelos malvados, e, depois de muito pensar em Deus e na pureza dos santos e dos mistérios dos céus, eu mergulhando minhas mão n’água na tentativa de brincar com os peixinhos, e, vez por outra olhava para a santa, e, depois dali, e cansado de, por dentre as árvores ter corrido atrás das galinhas e patos, esquecido do tempo, de longe escutava uma voz: Edson, a tua mãe tá chamando, e triste, lá ia eu me despedir da Madre, e no caminho de volta para casa, já ia ficando triste e com saudade daquele mundo.

Mas, para ali eu sempre voltava e logo logo já estava eu de novo a visitar a Madre Celina e a Madre Xavier, e, entre os colóquios, invariavelmente haviam os lanches regados a doces e queijos, e também, os pacotes de broas e de doces que as freiras faziam para vender, e, haviam ainda os santinhos, carinhosamente talhados em suas bordas, e eles eram lindos de se ver, pois, haviam o menino Jesus, a imagem de Nossa Senhora, ou ainda, do Sagrado de Jesus e de outros santos, arrodeados de anjos e repletos de auras.

Vez por outra, apareciam algumas noviças, e tanto elas quanto as freiras quando me elogiavam, eu ficava de cabeça baixa como se nada daquilo fosse comigo.

Depois, muitos anos depois, as visitas de minha mãe foram rareando, posto que, a Madre Celina fora transferida para o Recife e em seguida morreria a Madre Xavier, e a partir de então, as imagens e as memórias daquele lugar foram como que, rareando até quase desaparecer, mas que, em mim, quase que a contrapelo, elas permaneceriam sempre enquanto fragmentos teimosos nos resíduos de memórias.

E durante os anos que rói o tempo, durante décadas, ao passar por aqueles arredores, naquele local, que, durante muito tempo sempre ter sido aquele uma geografias composta de pedras, bichos e verdes, com o avançar do tempo, eu, meio que distraído, ao passar por ali, notava-o cada vez mais diminuto, pois, ano aqui, ano mais além, eu fui percebendo a sua fragmentação e esquadrinhamento, e aos poucos e aos pedações, ele foi sendo fragmentado em um, dois, três e outros tantas partes, e eu ficava então a me lembrar a quantas estava o vasto pomar daquele sítio e também, da imagem da santa. Afinal, como estaria tudo aquele mundo?

E os anos foram se tornando décadas e durante décadas eu passaria por ali, e a cada vez algo como que, pulsava dentre de mim a perguntar: como estará aquilo lá? Haveria ainda o verde e a imagem da santa? E sempre que assim pensava, era a imagem de um todo o que me vinha, e, se por vezes me acudia a antiga salinha dos colóquios entre as freiras e a minha mãe, por outras, eram as frondosas árvores do pomar com as suas galinhas e patos, e, sobretudo, a doce imagem da santa que me acudia, e também do meu rezar. E me punha então a perguntar: como estará tudo aquilo por dentro?

Durante anos e anos eu passaria por ali, mas, apesar do incômodo, eu postergava o me adentrar ali, até que um dia – na semana passada – eu resolvi visita-lo, e ao entrar, eu me procurei nos lugares de outrora. Primeiro, a sala de estar, um recanto aconchegante que ficava logo no lado esquerdo de quem entra , lugar dos colóquios e orações de minha mãe e as madres, e me deparei com um espaço lacrado, e, logo em seguida, me pus a olhar na direção do portal por onde, outrora eu me adentrava no sítio. Mas, no lugar da porta, um tapume.

Irmã, – perguntei – cadê o sítio e a gruta da Santa?

– A santa tá lá fora meu filho, logo na entrada, e o sitio foi vendido, já faz tempo, muito tempo!

Vendido! E fiquei meio que sem acreditar. E então me a pus a andar na direção a umas janelas de vidro, na esperança de, ao menos, olhar dali as ruinas e a solidão das fruteiras e as ruinas da gruta, mas, nada, da janela lacrada não de podia transpor a vista pois estava tudo tapado. Senti um aperto na garganta e me pus então a andar em círculos, como se assim eu pudesse me reportar ao passado. Mas, era tudo solidão.

Desconsolado e triste, me adentrei na capela, e, ao lado de velhas freiras e das ladainhas dos terços, me pus a rezar um pai nosso e a me recordar do passado, dos santinhos, das broas e das sorridentes meninas do antigo internato, nada me saia da cabeça, e também me acudiram as lembranças das correrias por dentre as folhas secas querendo pegar as galinhas, e, de quando, já cansado, chupar mangas e cajus e me deitar sobre as folhas secas a contemplar o céu, para além dos galhos, e, quando dei por mim, algo estava molhado e triste, e ainda outra vez, na busca de concretude, me aproximei de uma freira já bastante idosa e cadeirante e bem velhinha, e perguntei:

– Há quanto tempo a senhora está aqui?

– Há muitos anos meu filho, muitos anos.

Olha irmã, quando eu era pequeno vinha por aqui com a minha mãe, e, haviam duas freiras: a Madre Celina e a Madre Xavier.

– Ah, eu conheci meu filho, eu era bem novinha e elas já estavam por aqui. A senhora se lembra bem delas? Indaguei?

– Muito pouco meu filho, muito pouco, pois, com a idade as coisas vão sumindo, sumindo…

E eu fiquei ali a ouvi-la, e, com o passar dos minutos, eu fui me revendo em sonhos e me pus a recordar e a perguntar a mim mesmo: aonde estão todos vocês agora, e aonde esta agora aquele antigo desejo louco se ser santo?

E estava ficando de noite, quando ao se aproximar da hora do Angelus, eu, mais uma vez fui me rever com minha mãe e os meus. Com meu Pai em seu aparecer já velho, a me lembrar de meu irmão, das minha tias, e ali, mergulhado por dentre hinos e cantos evocados, eu me pus a me lembrar lá das bandas do Auto da Saudade, da preta Salviana nas beiradas da Praça dos Martírios, e eu me pus então como que a pensar, se aquilo tudo era saudade mesmo, ou se poderia ser um sonho de voltar a ser um pouco de mim mesmo, e, por entre as águas que aos poucos me chegavam, ao me pus como que, de esguelha, a sair, deixando-me sentir por dentre odores e ruinas, confuso e sem saber se eram elas que estavam ali ao redor e por dentre as paredes, ou se era algo dentro de mim a ruir sob o manto inelutável da saudade, quando deli me chegavam cantos:

O meu coração, é só de Jesus,
E a minha alegria, é a santa cruz.

E eu me pus a caminhar pelas ruas com uma saudade a girar em círculos:

No céu, no céu
Com minha mãe estarei,
No céu, no céu (…)

E assim, envolto em reminiscências, me envolvi no indagar aos ventos na procura encontrar por dentre as ruas, o fugitivo rosto de minha mãe, e então, por entre as águas que aos poucos me chegavam, ao me pus como que, de esguelha a perambular, deixando-me enlaçar por dentre odores e ruinas, na sinestesia de não saber se eram os meus que estavam ali ao redor por dentre ou detrás daquelas paredes, ou se era algo dentro de mim a ruir sob o manto inelutável de uma imensa saudade, de quando era puro e santo, e não acreditava na maldade do mundo.

 

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