sábado 20 de abril de 2024

OPARÁ, o Velho Chico e eu

5 de outubro de 2020 3:55 por Fátima de Sá

Rio-Mar

Os moradores que habitavam estas terras antes de 1500, o chamavam de OPARÁ = Rio-Mar. Mas, num dia 4 de outubro, quando os “colonizadores” alcançaram este Rio-Mar, deram-lhe o nome de rio São Francisco por ser este o dia em que se comemora o santo católico, São Francisco de Assis.

Minha história começa

Minha relação com o Opará começa na minha infância por ter nascido no sertão pernambucano, numa cidade – Tacaratu – que ficava a algumas léguas (assim se mediam as distâncias por lá naquele tempo) desse rio. Ele escoava lindamente onde foi iniciada Petrolândia que, agora, por causa das alterações sofridas com a construção de uma hidroelétrica, tornou-se mais próxima de Tacaratu. Numa linha reta, a distância entre as duas cidades é de 15km, ou seja, 2,5 léguas.

Petrolândia

Em grande parte da minha infância, eu pude ver o rio São Francisco todos os dias. Minhas lembranças daqueles anos são da velha Petrolândia.

O cais mandado construir por D. Pedro II quando lá esteve em 1877; a Estação de trem de onde partiam lentamente os vagões que iam até Piranhas (uma cidade que ficava à margem do rio, lá longe em outro estado), e a ferrovia que também foi construída por ordem do imperador na mesma ocasião. [Não por acaso, mudaram o nome da cidade em homenagem ao tal].

E a igreja de São Francisco de Assis? Lá recebi minha primeira comunhão quando eu já tinha 10 anos de idade. Uma imagem que nunca saiu da minha memória: homens descendo a rua em direção ao mercado publico, com enormes surubins ou dourados capturados na cachoeira de Itaparica. Os peixes eram tão grandes e pesados que um homem levava apenas um exemplar em suas costas. Eles iam para o mercado municipal para comercializá-los, e as famílias iam comprar sua porção para a peixada fresquinha.

O Velho Chico escoando em frente a Piranhas – AL. Foto: Fátima de Sá
E o rio vira lago

Todas as testemunhas materiais destas minhas lembranças foram inundadas, afogadas nas águas do Velho Chico por decisão daqueles que viram ali a forma de conseguir energia elétrica das forças das águas com a construção da hidroelétrica. Agora, só enxergo um grande lago que aumenta o calor devido à evaporação do grande espelho d´água, de um azul brilhante, mas sem a força da correnteza. E, na minha opinião, a nova cidade não tem o encanto da velha por onde caminhei, inclusive indo ao Grupo Escolar Delmiro Gouveia, durante três anos da década de 60.

O rio no município de Petrolândia. Foto: Fátima de Sá

 

Riachos cantados

Por outro lado, morando em Floresta (desde o ano do início da ditadura militar), deparei-me com o sertão seco. As águas salobras, vindas do cristalino, era o que usávamos para várias atividades. A água de beber vinha do rio São Francisco que estava distante. Não era água encanada. Daí a dificuldade de acesso ao precioso líquido.

Mas, por ali passava um riacho que, durante parte do ano, era seco. No entanto, na época das chuvas fortes, inundava as ruas da cidade. Era o rio Pajeú.

E, para chegarmos até a fazenda onde meu pai foi trabalhar e morava a minha mãe com os filhos menores, atravessávamos o riacho do Navio, que podia estar seco ou, muitas vezes, até impedia a passagem dos caminhões. Aí entendi porque a cidade era conhecida como Floresta do Navio. Também, tinha um significado especial ouvir a música de Zé Dantas e Luiz Gonzaga: Riacho do Navio corre pro Pajeú, o rio Pajeú vai despejar no São Francisco, e o rio São Francisco vai bater no meio do mar.

O rio muda

E as águas do rio mudam, não só de volume, mas de cor durante o ano. Naquela época, comecei a enxergar o rio em duas versões. No tempo do rio “seco”, as crianças e jovens tomávamos banho em suas águas – claras e caudalosas que se deslocavam na calha principal – enquanto as mulheres lavavam roupa em pedras na beira do rio. Roupas que eram colocadas a “quarar” em lajedos.

O entardecer na barranca do rio era uma terapia para a adolescente que costumava ver o pôr-do-sol vendo o rio passar caudaloso, mas sereno.

Entretanto, chegava o tempo de as águas do rio aumentarem de volume e mudarem para uma cor barrenta. E se espalhavam nas laterais formando lagoas nos trechos mais baixos, árvores ficavam cobertas de água e os filtros de pedra, usados em casa, juntavam muito barro até que a água pudesse ser utilizada para bebermos.

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O canyon
Canyon do rio São Francisco, entre Alagoas e Bahia. Foto: Fátima de Sá

Na conclusão do curso ginasial, em 1968, a nossa turma ganhou um passeio a Paulo Afonso. Em cima de uma caminhonete, fomos conhecer a usina hidroelétrica, além da primeira idealizada por Delmiro Gouveia, e a ponte metálica sobre o canyon – onde o rio se espremia entre paredões de pedra. Até hoje, me encanto ao ver o espetáculo que é o canyon. Sobre ele, o Prof. Ab´Sáber descreveu: […] o rio São Francisco talhou rochas graníticas em plena área dos sertões secos, na tríplice fronteira da Bahia, Alagoas e Sergipe.

O Baixo São Francisco

No final dos anos 70, certamente seguindo a sina cigana do meu pai, vim trabalhar em Maceió. Assim, pude reencontrar o Velho Chico passando por Penedo. Diferente porque mais largo, mas lá estava o meu querido rio. Percorri uma parte do seu percurso desde o sertão até vê-lo desaguar no mar. Agora, estava no Baixo São Francisco. Depois, avistei-o a partir de outras cidades alagoanas e sergipanas.

Nasci mais perto dele do que imaginava

Em 1981, em uma aula sobre Domínios Morfoclimáticos e Fitogeográficos da América do Sul, tive a alegria de ser aluna do Professor Aziz Nacib Ab´Sáber, e lhe falei onde eu havia nascido – uma cidadezinha escondida no sertão de Pernambuco. Pensando que ele não a conhecia, fui duplamente surpreendida, pois ele não só a visitara como repassou outra informação.

Assim, com um jeito seu de ficar com os olhos meio fechados, como a se transportar para o lugar, falou: lá, em muitos lugares é fácil furar uma cacimba e a água jorrar. Isso eu sempre ouvi os mais velhos falarem e conhecíamos muitas cacimbas ou “ocos” que até levavam o nome do dono da terra. Isto, me ensinou o professor, deve-se ao fato de alguns riachos passarem de forma subterrânea e irem aflorar mais adiante, tornando-se afluentes do São Francisco.

As várzeas

No início dos anos 1990, visitei Igreja Nova, Piaçabuçu e Neópolis. Tecnocratas haviam feito intervenções que alteraram a produção de arroz e a pesca na região. A Várzea da Marituba, como o próprio nome indicava, era uma área alagável situada entre os municípios de Penedo, Piaçabuçu e Feliz Deserto. Os tecnocratas queriam fazer ali o mesmo que nas outras várzeas.

Havia um RIMA (Relatório de Impacto Ambiental) favorável. E o Prof. José Geraldo Marques, com quem muito aprendi, reuniu uma equipe para fazermos o “Contra-Rima dos Deserdados”. Analisei a parte referente à pesca na região. E constatei algo que o saudoso Sirkis[ii] havia dito à época: É relativamente raro o RIMA não rimar com quem paga.

Outros moradores e amantes do rio

Graças a este trabalho com o Prof. José Geraldo, participei da Oficina do São Francisco, promovido pela OXPHAM, em 1991. Lá, discutimos várias questões que envolviam a vida do povo ribeirinho, e  pude conhecer pessoas que atuavam em outras partes do Rio-Mar. Um deles, Adriano Martins, compôs o grupo  que fez uma peregrinação de 1 ano (4/10/1992 a 4/10/1993) desde a nascente até a foz do São Francisco. Ele continua a atuar na defesa do Velho Chico, mesmo que não resida mais em sua barranca. E, recorrendo a um velho jargão, afirmo: você até pode se afastar geograficamente do Velho Chico, mas ele nunca se afastará de suas lembranças.

Toinho Pescador

Do mesmo modo, no início dos anos 90, conheci Seu Toinho – Toinho Pescador – que nasceu, viveu e mora em Penedo. Ele é a expressão forte, no Baixo São Francisco, da luta em defesa da pesca artesanal e das águas do rio. Com ele aprendi e continuo aprendendo sobre o rio e os povos que vivem em suas barrancas ou próximo a elas, e dependem deste que é, como disse Seu Toinho, em um poema: São Francisco – o nosso Pai.

Alto São Francisco

Por fim, em 1996, para concluir o doutorado em Ecologia, fui levada ao Alto São Francisco, nas terras de Minas Gerais. Foi em Três Marias que fui buscar os peixinhos que estudei. E não foi somente o Velho Chico que reencontrei, deslumbrei-me com as veredas. Eu as via ao longe de dentro do carro que me levava de São Carlos (SP) a Três Marias. Longas fileiras de buritis indicavam que por ali passava água que ia para o rio São Francisco. E  podia vê-las de pertinho porque uma das populações de peixes que estudei habitava uma daquelas veredas.

Vereda – ali onde se vê a fileira de buritis, escoa um veio d´água.  O solo do Cerrado funciona como uma esponja absorvendo as águas de chuva que vão se infiltrando no solo e abastecem as nascentes e córregos da região durante o ano, garantindo o contínuo fornecimento de água para o rio São Francisco. Foto: Fátima de Sá

 

Certamente, após a primeira viagem, fui à biblioteca da UFSCar e li, quase devorando, Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa. E a leitura teve outro significado. No meu caderno de anotações, a primeira foi: O sertão é do tamanho do mundo. Agora, por aqui, o senhor já viu: Rio é só o São Francisco, o Rio do Chico. O resto pequeno é vereda. E algum ribeirão.

 

[i] CAPPIO, Frei Luiz Flávio, MARTINS, Adriano, KIRCHNER, Renato (Orgs). Rio São Francisco: uma caminhada entre vida e morte. Petrópolis (RJ): Vozes, 1995. 110p.

[ii] SIRKIS, Alfredo. Rima ou não rima. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 1º Caderno, p. 9, 3 jun. 1991.

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