FRATERNIDADE E DIALOGO: COMPROMISSO DE AMOR

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Por Gilvan Gomes

Todos os anos, durante a Quaresma, a Igreja reforça a reflexão e prática da Campanha da Fraternidade que surgiu em 1961, quando três padres, responsáveis pela Cáritas no Brasil, idealizaram uma campanha com o objetivo de levantar fundos para assistir aos pobres. Deram a esta ideia o nome de Campanha da Fraternidade (CF), que foi realizada pela primeira vez na Quaresma de 1962, na cidade de Natal, no Rio Grande do Norte.

A ideia foi tão bem aceita que, no ano seguinte, dezesseis dioceses do Nordeste realizaram a Campanha da Fraternidade. E em 1964, foi lançada a Campanha da Fraternidade em nível nacional pela CNBB com o tema: “Igreja em Renovação”. A referida campanha nasce no contexto do Concílio Vaticano II, que iniciou um tempo de renovação na pastoral da Igreja. Por isso a Campanha da Fraternidade, que acontece sempre no período quaresmal, é um grande convite a nos convertermos para a prática da justiça social, da solidariedade, da partilha e do amor ao próximo. Para cada ano, a Igreja no Brasil escolhe um tema para ser refletido na Campanha da Fraternidade e transformado em ação concreta de solidariedade. Gestos capazes de transformar realidades de dor e sofrimento em possibilidade de esperança. Por isso, a Campanha da Fraternidade é o diálogo da Igreja com a sociedade, pois todos os cristãos devem ser sal da terra e luz do mundo.

Mas, a partir do ano 2000, atendendo aos apelos da Igreja para a promoção do diálogo com as igrejas cristãs, a CNBB quis dar uma dimensão ecumênica à Campanha da Fraternidade, por ocasião da celebração do Grande Jubileu da Encarnação, confiando ao CONIC a organização da CF de 2000, a primeira CF ecumênica, com o envolvimento de várias Igrejas no planejamento e na execução de tão importante movimento, que vem acontecendo a cada cinco anos.

O Ecumenismo deve ser entendido como nos diz NAVARRO (1995):

O ecumenismo é uma atitude da mente e do coração que nos impele a olhar nossos irmãos cristãos separados com respeito, compreensão e esperança. Com respeito, porque os reconhecemos como irmãos em Cristo e os consideramos antes amigos do que oponentes; com compreensão, porque buscamos as verdades divinas que compartilhamos, embora reconheçamos honestamente as diferenças na fé que há entre nós; com esperança, que nos fará crescer juntos num conhecimento e num amor mais perfeitos de Deus e de Cristo (p. 13).

Neste ano de 2021, a partir da quarta-feira de cinzas, inicio do tempo quaresmal, a Igreja inicia a quinta CF ecumênica cujo tema é: “Fraternidade e diálogo: compromisso de amor”, tendo como lema: “Cristo é a nossa paz: do que era dividido fez-se uma unidade” (Ef 2,14). Com seu objetivo geral:

Convida as comunidades de fé e as de boa vontade a pensarem, avaliarem e identificarem caminhos para superar as polarizações e violências através do diálogo amoroso, testemunhando a unidade na diversidade (Texto-base, p. 10).

(Cartaz da CF 2021)

(Cartaz da CF 2021)

A CF só começa no dia 17 e já causa alvoroço em grupos católicos fundamentalistas, “baratas de sacristia” que apregoam a “sã doutrina”, fazendo oposição ao Papa Francisco e a todo o Magistério católico que vem se pronunciando desde o documento conciliar “Unitatis Redintegratio” (sobre o Ecumenismo), as Conferências Episcopais da América Latina: Medellín, Puebla, Santo Domingo, Aparecida e da grande maioria da CNBB.

Como fruto do delírio coletivo acirrado por meio do bizarro contexto político em que o Brasil se encontra – além da empoeirada divisão entre conservadores e progressistas que perdura desde o final do Concílio Vaticano II (1962-1965) – já era de se esperar que haveria críticas à proposta da Campanha da Fraternidade de 2021. Afinal, ela convida à verdadeira conversão – algo que nem todo cristão, mais de nome do que de obras, é capaz de vislumbrar.

Ao pretender educar para a vida em fraternidade, a partir da justiça e do amor – que é uma exigência central do Evangelho – a proposta da Campanha da Fraternidade 2021 chocou. E qual o motivo para tanto transtorno? Simples, ela convida “comunidades de fé e pessoas de boa vontade para pensar, avaliar e identificar caminhos para a superação das polarizações e das violências que marcam o mundo atual”, conforme aponta seu texto base.

Quando fala na superação de polarizações, a proposta da CF-2021 é justamente o que causa alarde no cristão disfuncional (aquele que adora fazer escândalo e chamar quem fala de problema social ou de pobreza dentro do âmbito teológico de comunista) e isso o motiva a ataques contra o ecumenismo.
Tal comportamento leva a uma onda de outras ações, que vão da produção de fake News e de conteúdos que tentam desmerecer membros do CONIC ao descontrole argumentativo e à crítica a importantes movimentos que promovem a unidade, além de ataques desenfreados à CNBB.

Ou seja: enquanto quem espera por mudanças faz campanha visando à fraternidade, os contrários iniciaram uma contra campanha. E ela é desserviço, que revela o desejo intencional de se dividir ainda mais o povo – do que unir.
Exemplo disso é o vídeo “Saiba quem está por trás da Campanha da Fraternidade!”, divulgado pelo Centro Dom Bosco do Rio de Janeiro: uma arma de propagação de ódio e de calúnias infundadas, que do carisma salesiano nada tem. É material digno de repúdio, pois conclama à desunidade cismática.

Finalizando é preciso afirmar que não podemos confundir propostas de fraternidade com contextos políticos! Estamos em 2021! E apesar de serem realidades que fazem fronteira, vivemos uma incrível eclesiologia de construção e de partilha. Aliás, é importante separarmos bem as coisas: a fraternidade proposta pela Campanha da Fraternidade é a do Evangelho, a partir das palavras de Cristo, e não a da boca pra fora, dos revolucionários medievais conclamando às Cruzadas via internet.

 

Gilvan Gomes das Neces é Doutor e mestre em Ciências da Religião pela unicap. E-mail: Gilvan.neves@uol.com.br

CONIC (Conselho Nacional das Igrejas Cristãs) composto pela Igreja Católica Apostólica Romana, pela Aliança das Igrejas Batistas do Brasil, Igreja episcopal Anglicana do Brasil, Igreja Luterana, Igreja Presbiteriana Unida, Igreja Síria ortodoxa e a Igreja Betesda.

REFERÊNCIAS:
CONIC/CNBB. Campanha da Fraternidade Ecumênica 2021. Texto-Base. Brasília: Ed. CNBB, 2020.
NAVARRO, Juan Bosch. Para compreender o ecumenismo. São Paulo: Loyola, 1995.

 

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