Mas, afinal, o que é um “filme médio”?

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Por Vanderlei Tenorio

Os filmes médios podem ser definidos como aqueles com um bom potencial comercial e um público-alvo específico, mas sem o apelo abrangente de um blockbuster. Alguns gêneros, como a comédia romântica, animações e filmes de terror, costumam produzir bons candidatos a ocupar esta categoria de filme. Em 2008, em entrevista concedida a Revista Filme B, o especialista em Cinema Carlos Marin disse o seguinte sobre o termo: “Por suas próprias características, os filmes médios têm um target diferente dos blockbusters”. Bora exemplificar melhor o termo: ‘‘Deadpool’’ (2016), por exemplo, atinge principalmente adultos e adolescentes, a série de filmes ‘‘Shrek’’ (2001-2010) é voltado para crianças e seus pais; mas existe um público enorme que gostaria de ver uma boa comédia romântica, como ‘‘De repente 30’’ (2004).

Acontece que esse tipo de público vai cada vez menos ao cinema, pois apesar de inúmeras produções anuais. Hoje, esses filmes são negligenciados, a percepção do público é de que não vale a pena pagar para vê-los no cinema. Tanto que a maior parte dos filmes de comédia romântica são lançados diretamente no now e nas dezenas plataformas de streaming.

No streaming, por outro lado, a história é bem diferente. Os filmes médios encontram em plataformas como Netflix e Amazon o canal perfeito não só para existir, mas também para alcançar o sucesso que dificilmente abraçariam em tela grande. Podemos citar como exemplo: ‘‘A Barraca do Beijo’’ (2018), ‘‘Para Todos os Garotos que Amei’’ (2018) e ‘‘Nosso Último Verão’’ (2019). Nisso, o filme médio, por sua vez, vão se tornando cada vez mais a alternativa das plataformas de streaming, que precisam de quantidade sem abdicar de qualidade.

O filme médio, no mercado brasileiro, pode ser considerado aquele que tem um público entre 500 mil e um milhão de espectadores. São justamente aqueles que estão cada vez mais em evidência com comédias populares, como ‘‘De Pernas pro Ar’’ (2010) e ‘‘Minha Mãe é uma Peça’’ (2013), que passaram a utilizar uma estética que transitava entre os programas da Globo e os blockbusters hollywoodianos, para atrair as grandes massas. A oferta de muitos títulos por ano para o pequeno número de salas gera uma alta rotatividade, e os filmes de porte médio acabam não atingindo o público que poderiam o que encerra prematuramente suas carreiras.

É importante diferenciar um filme de orçamento médio de um filme que obtém resultado médio. No caso das produções americanas, por exemplo, podemos citar dois filmes estrelados por Meryl Streep, ‘‘O diabo veste Prada’’ (2006), de David Frankel, teve um orçamento médio, de US$ 35 milhões, e obteve excelentes resultados (mais de US$ 120 milhões de bilheteria nos EUA, 1,4 milhão de espectadores no Brasil). Por outro lado, ‘‘Leões e cordeiros’’ (2007), de Robert Redford, também custou US$ 35 milhões, mas não obteve resultados tão bons nos Estados Unidos (US$ 14 milhões de receita). Na verdade, para que o ‘resultado médio’ seja satisfatório, tudo depende da expectativa e do investimento realizado.

Segundo a especialista Mariza Leão, o filme médio se distingue do chamado filme-evento, mas ainda tem potencial de dialogar com um determinado nicho do público. O problema é que esse nicho está cada vez menor, e seus resultados de bilheteria os colocam numa posição anteriormente ocupada pelos filmes pequenos. Ou seja, há um achatamento de performances econômicas. Nem todos, porém, concordam com essas definições. Para Bruno Wainer, da Downtown Filmes, o filme médio simplesmente não existe – ele é apenas o “filme grande” que não deu certo: “Ninguém pensa num projeto para um filme médio, com orçamento médio, estratégias médias”. Leonardo Monteiro de Barros, da Conspiração Filmes, endossa essa teoria afirmando que “não há o filme médio em si, ele se torna médio dependendo de sua performance: ou é fechado, pequeno, e supera as expectativas; ou é originalmente destinado a ser comercial, mas fica abaixo do esperado. Não conheço nenhum produtor ou diretor que diga: vou fazer um filme médio”. Polêmicas à parte, o fato é que o padrão de lançamento dos blockbusters elevou às alturas o patamar dos investimentos em marketing e a expectativa em torno de cada filme – o que, imediatamente, já coloca todos os outros títulos em situação de desvantagem. Outro fator determinante é a corrida acirrada entre os inúmeros streamings.

De acordo com Patrícia Kamitsuji, uma das consequências desse padrão seria a criação de um público sazonal. As produções médias atendem a uma parcela de público que consome mais cinema, os chamados frequent moviegoers (frequentadores assíduos), que querem assistir a filmes diversos e não somente blockbusters. Muitas produções nacionais, por exemplo, têm como alvo justamente esse público. Caso vocês não estejam familiarizados com o termo ‘‘ blockbuster’’. Blockbuster é uma palavra de origem inglesa que indica um filme produzido de forma exímia, sendo popular para muitas pessoas e que pode obter elevado sucesso financeiro, por exemplo: ‘‘De Volta Para o Futuro’’, ‘‘ET: O Extraterrestre’’, ‘‘Harry Potter e as Relíquias da Morte parte I e II’’, ‘‘ O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei’’, ‘‘ Titanic’’ e ‘‘ Vingadores: Guerra Infinita’’.

Referencial teórico da matéria:
GOMES, Alice; BUTCHER, Pedro. A crescente polarização do mercado de cinema entre os blockbusters e os filmes de nicho tem tornado cada vez mais raros os chamados “filmes médios” – e sua escassez preocupa, principalmente, os donos de cinema. Revista Filme B, São Paulo, v. 01, n. 2, p. 23, set. 2008. Disponível em: http://www.filmeb.com.br/sites/default/files/revista/revista/setembro2008.pdf. Acesso em: 26. fev. 2021.

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