SÃO JOSÉ: DA RELIGIÃO DO POVO A PATRIS CORDE

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Por Gilvan Gomes

São José (séc. I), cuja festa é dia 19 de março e a Ele é dedicado o mês de março. Esposo da Virgem Maria, vivia em Nazaré como carpinteiro, além de ser patrono dos profissionais da madeira, o referido santo protege os viajantes e asilados. As árvores genealógicas de Mt 1 e Lc 3 mostram que Jesus é descendente e “filho de Davi” através de São José, esposo de Maria Virgem. É chamado “Patriarca São José”, seu título bíblico é o Justo.

Sabemos que a nossa herança católica deve-se principalmente pela ação de leigos portugueses. A religião da colônia foi plantada na colônia com a cruz e a espada. Foram construídas capelas, levantados cruzeiros, organizadas irmandades, santas casas de misericórdia, fundados santuários de romaria.

(Foto 01- Fonte: www.google.com)

(Foto 02: Fonte: www.google.com)São José é santo popular. Muitos homens o seu nome. É padroeiro de 171 paróquias no Brasil, além de ser nome de 60 municípios e patrono de dois estados: Amapá e Ceará.

Na religião do povo, ele é ainda mencionado como o “advogado da boa morte”: Na Botica Preciosa e Thesouro Precioso da Lapa (1754), de autor brasileiro. Em algumas Igrejas, sua morte é celebrada no “trânsito de São José”, na presença de Jesus e Maria.

No século XVIII, existiram no Brasil, várias irmandades de São José.

É costume tradicional na Igreja, dedicar todas as quartas feiras. Em Salvador (BA), a Typ. São Francisco publicou o folheto “As sete quarta-feiras consecutivas consagradas ao Patriarca São José” (s.d.) (VAN DER POEL, 2013, p.986).

Na cidade de Água Preta (PE) e Flores (PE) e em muitos outros lugares nordestinos, sua festa é celebrada com pastoril e bumba-meu-boi. No distrito de Poxim (AL), o Manuel do Rosário participa da festa.

Em 1955, o Papa Pio XII o declarou patrono dos operários.
Preces a São José são frequentes nos cantos de penitência das secas do Norte e Nordeste: “Salve, salve São José,/ que nos protege da agonia./ Nos livra da seca braba / e nossa sede alivia. / Ajuda-nos ò Pai Pai bondoso,/ neste tempo de desvalia / escuta os nossos gemidos / nos dê de novo, a alegria” (Quixadá-Ce, 1996).
Para o senso-comum nordestino, se não chover neste dia, os agricultores imaginam que a estiagem será prolongada.

A chegada do inverno (época das chuvas) no sertão é comandada pelos poderes do glorioso São José. Ele forma nevoeiros cinzentos em torno do sol, ele avisa os animais que a chuva vai chegar. Não choveu até o dia de São José, ano de seca é. São José planta milho para dar a São João (Plantado em março dá em junho) (VAN DER POEL, 2013, p. 320).

Olhando um pouco para o pensamento chamado racional muita gente se pergunta porque o sertanejo espera por chuva no Dia de São José? Um fato científico explica: o dia 19 de março coincide com o início do equinócio de outono, que influencia positivamente na incidência de chuvas. Portanto há uma explicação para a expectativa por chuva no Dia de São José, comemorado no dia, 19 de março.

O dia 19 de março marca o início do equinócio de outono, período em que os dois hemisférios terrestres estão igualmente iluminados pelo sol. O tempo de noite é igual, portanto, ao tempo do dia. A incidência direta de raios solares na linha do Equador, no entanto, acaba atraindo ventos úmidos para a região, e geralmente trazem chuvas abundantes.

No dia 08 de dezembro para celebrar 150º aniversário da proclamação de São José, como patrono da Igreja Universal pelo beato Pio IX, em 1850, o Papa Francisco publica uma carta apostólica “Patris corde” (com o coração de Pai), diz o Papa:

gostaria de deixar «a boca – como diz Jesus – falar da abundância do coração» (Mt 12, 34), para partilhar convosco algumas reflexões pessoais sobre esta figura extraordinária, tão próxima da condição humana de cada um de nós. Tal desejo foi crescendo ao longo destes meses de pandemia em que pudemos experimentar, no meio da crise que nos afeta, que «as nossas vidas são tecidas e sustentadas por pessoas comuns (habitualmente esquecidas), que não aparecem nas manchetes dos jornais e revistas, nem nas grandes passarelas do último espetáculo, mas que hoje estão, sem dúvida, a escrever os acontecimentos decisivos da nossa história: médicos, enfermeiras e enfermeiros, trabalhadores dos supermercados, pessoal da limpeza, curadores, transportadores, forças policiais, voluntários, sacerdotes, religiosas e muitos – mas muitos – outros que compreenderam que ninguém se salva sozinho. (…) Quantas pessoas dia a dia exercitam a paciência e infundem esperança, tendo a peito não semear pânico, mas corresponsabilidade! (pp 8-9)

O Santo Padre divide sua carta em sete capítulos: Um amado Pai; Pai na ternura; Pai na obediência; Pai no acolhimento; Pai com coragem criativa; Pai trabalhador e Pai na sombra.

(Foto 02: Fonte: www.google.com)

O objetivo desta carta apostólica é aumentar o amor por este grande Santo, para nos sentirmos impelidos a implorar a sua intercessão e para imitarmos as suas virtudes e o seu desvelo, nos diz o Santo Pontífice.
E assim conclui sua belíssima carta:

Estimulado com o exemplo de tantos Santos e Santas diante dos olhos, Santo Agostinho interrogava-se: «Então não poderás fazer o que estes e estas fizeram?» E, assim, chegou à conversão definitiva exclamando: «Tarde Vos amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Vos amei!»
Só nos resta implorar, de São José, a graça das graças: a nossa conversão.
Dirijamos-lhe a nossa oração:
Salve, guardião do Redentor
e esposo da Virgem Maria!
A vós, Deus confiou o seu Filho;
em vós, Maria depositou a sua confiança;
convosco, Cristo tornou-Se homem.
Ó Bem-aventurado José, mostrai-vos pai também para nós
e guiai-nos no caminho da vida.
Alcançai-nos graça, misericórdia e coragem,
e defendei-nos de todo o mal. Amém.
Roma, em São João de Latrão, na Solenidade da Imaculada Conceição da Bem-Aventurada Virgem Maria, 8 de dezembro do ano de 2020, oitavo do meu pontificado.
Francisco.(p.31)

Referências:
FRANCISCO, Papa. Patris Corde. São Paulo: Paulus, 2020.
SEQUEIRA, Ângelo de. Botica preciosa e tesouro precioso da Lapa. Lisboa: Oficcina de Miguel Rodrigues, 1754.
VAN DER POEL, Francisco. Dicionário da Religiosidade Popular. Curitiba: Ed. Nossa Cultura, 2013.

COM CORAÇÃO DE PAI: Carta Apostólica do Papa Francisco por ocasião do 150º aniversário da declaração de São José como padroeiro universal da Igreja. São Paulo: Paulinas, 2020.
Mestre e doutor em Ciências da Religião pela Unicap. E-mail: Gilvan.neves@uol.com.br
SEQUEIRA, Ângelo de. Botica preciosa e tesouro precioso da Lapa. Lisboa: Oficcina de Miguel Rodrigues, 1754, p. 267.

 

 

 

 

 

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