CAMPANHA DA FRATERNIDADE ECUMÊNICA, FAKE-NEWS E IDEOLOGIA DE GÊNERO

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Por Gilvan Gomes

No artigo que escrevi sobre a Campanha da Fraternidade Ecumênica nesse blog no dia 16 de fevereiro do corrente ano, registrei que mal a referida Campanha tinha iniciado que os ataques já estavam a aparecendo por aí e no atual momento se disseminam em forma de boicote a mesma pelas redes sociais e outdoors pelo país a fora e esses ataques nas redes são ferozes e acusam líderes religiosos de terem aderido a “pautas abortistas e anticristãs”. Com vídeos no YouTube e hashtags no Twitter e no Instagram, esses grupos tentam incentivar os cristãos a não doar nenhum dinheiro para a Campanha da Fraternidade.

(Foto 01: www.google.com.br)

E uma das razões mais alegadas por esses grupos de extrema direita (católicos e não católicos) se encontra no nº 68 do texto-base que diz:

Outro grupo social que sofre as consequências da política estruturada na violência e na criação de inimigos, é a população LGBTQI+. O já citado Atlas da Violência de 2020, mostra que o número de denúncias de violências sofridas pela população LGBTQI+ registradas no disque 100 no ano de 2018 foi de 1685 casos. Segundo dados do Grupo Gay da Bahia apresentados no Atlas da Violência 2020, no ano de 2018, 420 pessoas LGBTQI+ foram assassinadas, destas 164 eram pessoas trans. (…) O aumento no número de homicídio de pessoas LÇBTQI+, entre 2016 e 2017, foi de 127%. Estes homicídios são efeitos do discurso de ódio, do fundamentalismo religioso, de vozes contra o reconhecimento dos direitos das populações LGBTQI+ e de outros grupos perseguidos e vulneráveis (p. 33). 

Os ataques nas redes são ferozes e acusam líderes religiosos de terem aderido a “pautas abortistas e anticristãs”. Um dos nomes que tem encabeçado a campanha é o guru do governo de Jair Bolsonaro, Olavo de Carvalho e católicos como Frederico Abranches Viotti, porta-voz do Instituto Plínio Corrêa de Oliveira. Em vídeo com imagens sacras e referências à monarquia, ele acusa “setores da Igreja Católica” de estarem trabalhando contra o Brasil e pelo marxismo. “Estamos vendo, no Brasil, o cristianismo ser desvirtuado com a questão da ideologia de gênero.
Criou-se a ideia da Ideologia de gênero, onde a sua funcionalidade mascara, mistifica e demoniza o conceito de gênero e se faz urgente resgatar essa palavra e salvaguardar o seu parâmetro.
Mas, afinal, o que significa ideologia de gênero?
“Ideologia de gênero” é um conceito, ou seja, um termo que busca representar uma realidade. Para entender melhor o que termo significa nos debates sobre a questão de gênero, é interessante desmembrá-lo:
Para CHAUÍ (2006) o termo “ideologia” geralmente é confundido com ideário, significando apenas um conjunto sistemático e encadeado de ideias. No entanto, a autora desfaz essa suposição e classifica ideologia não como um ideário qualquer, e sim um de cunho mais histórico, social e político, servindo para ocultar a realidade e manter a desigualdade e a exploração.
O conceito de gênero é presente no movimento feminista desde os anos 1970 e é entendido não como sexo biológico, mas como as construções sociais baseadas nos sexos biológicos. Pode parecer confuso, mas nós explicamos melhor.

Por muito tempo pregou-se que os homens eram superiores às mulheres por características biológicas. Essas características não se referiam apenas à força física, por exemplo, mas também afirmavam que homens eram mais inteligentes e éticos. O conceito de gênero então surgiu para contestar isso.
“Gênero” não é uma palavra mais bonita para se referir ao sexo biológico, mas um termo que vê essa desigualdade na percepção das capacidades de homens e mulheres como algo socialmente construído.
Ao se falar em “questão de gênero”, por exemplo, faz-se referência às atividades culturalmente atribuídas às mulheres – como cuidar da casa e dos filhos – e aos homens – como sustentar financeiramente a família. As teorias feministas explicam que essas ideias são construídas com base nos costumes, não nas capacidades biológicas. Afinal, um homem não é fisicamente incapaz de limpar a casa e nem uma mulher é fisicamente incapaz de trabalhar como engenheira e sustentar financeiramente sua família.

Acredita-se que o termo “ideologia de gênero” apareceu pela primeira vez em 1998, em uma nota emitida pela Conferência Episcopal do Peru intitulada “Ideologia de gênero: seus perigos e alcances”. O evento nacional que reúne bispos de todo o país é uma tradição da Igreja Católica no mundo inteiro.
Desde seu surgimento, a expressão “ideologia de gênero” carrega um sentido pejorativo (negativo). Por meio dela, setores mais conservadores da sociedade protestam contra atividades que buscam falar sobre a questão de gênero e assuntos relacionados – como sexualidade – nas escolas. As pessoas que concordam com o sentido negativo empregado no termo “ideologia de gênero” geralmente temem que, ao falar sobre as questões mencionadas, a escola vá contra os valores da família.

Dentre esses valores está o medo de que o debate menospreze crenças familiares e gere intolerância religiosa, tanto por parte dos professores quanto de outros colegas. Outro medo é que a ideologia de gênero induza crianças a serem homossexuais ou transexuais. Geralmente tais grupos também discordam da teoria que aponta gênero como sendo socialmente construído e acreditam que o sexo biológico define tanto o gênero quanto a sexualidade da pessoa. Consequentemente, entende-se que a heterossexualidade é o “natural”.
A filósofa Arlene Bacarji , por exemplo, define ideologia de gênero como:

“Uma “ideologia” que atende a interesses políticos e sexuais de determinados grupos, que ensina, nas escolas, para crianças, adolescentes e adultos, que o gênero (o sexo da pessoa) é algo construído pela sociedade e pela cultura, as quais eles acusam de patriarcal, machista e preconceituosa. Ou seja, ninguém nasce homem ou mulher, mas pode escolher o que quer ser. Pois comportamentos e definições do ser homem ou mulher não são coisas dadas pela natureza e pela biologia, mas pela cultura e pela sociedade, segundo a ideologia de gênero.”

Ancorada na filósofa francesa Simone de Beauvoir , no seu livro “O Segundo Sexo” (1949), que constrói a sua obra na perspectiva do sujeito histórico, encarnado, temos um corpo; que se escreve, que se diz na palavra, sendo seres situados, históricos (políticos). Portanto: elaborar a sua história é fazer política com essa escrita, transformar o mundo. Na referida obra a pergunta é: como pode se realizar o ser humano, dentro da condição humana? Como transformar a condição de escravo para a de senhor? Conclui que o “lugar” da mulher, a condição feminina é existir para os homens e não para si; mostra que esse “segundo sexo” foi sendo construído para servir o homem e como as mulheres caíram nessa armadilha; é a função da mulher que lhe dá lugar no mundo. A liberdade é uma condenação: é o que sobra diante das determinações e a luta é ser livre: tomar posse de si.

Já para a teórica norte-americana Judite Butler , esse “tornar-se mulher” corre o risco de cair numa categoria fundamentalista. Para ela, o sexo também não é natural, se constrói a partir de uma noção, da construção de uma ideia da sexualidade (que é um sistema semiótico: discursos, mídias). Butler nega qualquer essencialismo: “prefiro usar as coisas, do que consumi-las”.

Para a referida filósofa gênero é a tecnologia do poder (como por exemplo: pegar a máquina moer carne, colocar teu corpo dentro e você sair agradável aos olhos de quem pode fazer isso). Ela interpreta o gênero a partir do sexo, uma invenção: elementos culturais construídos dentro do poder. Performativos: provocam efeitos; constatativos: está chovendo. O gênero é também um efeito: somos afetados pelo gênero que me precede; o efeito é aquilo que eu causo na vida dos outros.

No Brasil, o termo “ideologia de gênero” ficou famoso quando o Ministério da Educação (MEC) buscou incluir educação sexual, combate às discriminações e promoção da diversidade de gênero e orientações sexuais no Plano Nacional de Educação (PNE), em 2014. Os últimos dois pontos, no entanto, geraram uma grande reação por parte de grupos conservadores, que não consideravam as pautas sobre questão de gênero apropriadas ao ambiente escolar, e o projeto foi barrado. Após muitos protestos por parte da população, liderada por grupos religiosos e pelo Escola sem Partido, o PNE foi aprovado sem fazer menção a gênero e orientação sexual.

Nas Eleições de 2018 o termo voltou à tona com as diversas menções que o então candidato Jair Bolsonaro (PSL) fazia ao “kit gay”, nome pejorativo dado ao projeto “Escola sem Homofobia”. Bolsonaro e muitos de seus apoiadores constantemente afirmavam que Fernando Haddad (PT), seu adversário na corrida presidencial, havia distribuído um determinado livro sobre educação sexual a crianças de seis anos. Segundo eles, Haddad teria incluído a obra no projeto “Escola sem Homofobia” enquanto era ministro da educação, entre 2005 e 2012. Posteriormente, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decretou a afirmação como fake news, isto é, como uma informação falsa e proibiu que a campanha de Bolsonaro usasse o termo “kit gay” para atacar Haddad.

Mesmo assim, a história do “kit gay” levantou novamente a questão de gênero. O pesquisador Rogério Diniz Junqueira vê a propagação das fake news relacionadas à utilização do termo “ideologia de gênero” como uma maneira de assustar a sociedade. Elas levariam as pessoas a se alinharem com aqueles grupos que também são contra o debate da questão de gênero. Junqueira também ressalta que, mesmo que debates sobre gênero envolvam diversos assuntos, como desigualdade salarial entre homens e mulheres, os pontos lembrados ao acusar um grupo de implementar a ideologia de gênero são sempre mais polêmicos. Ao associar educação sobre questões de gênero a aborto, sexualidade e pedofilia, por exemplo, gera-se um “pânico moral”.

O pesquisador diz que esse “pânico moral possui forte potencial mobilizador e alta capacidade de atrair diferentes atores que nem precisam ser muito conservadores ou preconceituosos, mas que, diante do escândalo fabricado, ficam alarmados”. É assim que alguns grupos transformam certas iniciativas – por exemplo, que busquem ensinar a respeitar a diversidade de orientações sexuais existentes na sociedade – na negativa.

Gilvan Gomes das Neves é  Mestre e doutor em Ciências da Religião pela Unicap. E-mail: Gilvan.neves@uol.com.br
CAMPANHA FRATERNIDADE ECUMÊNICA. Texto-Base. Brasília: Edições CNBB, 2020.

ARLENE SIMONE BACARJI: Possui graduação em filosofia pela Universidade Católica Dom Bosco (1991) e Mestrado em Sociologia pela Universidade Federal do Paraná (2000) e mestrado em Teologia pela PUC/RS e doutorado em Teologia sistemático-pastoral pela PUC-Rio.

Simone de Beauvoir foi escritora, filósofa, intelectual, ativista e professora. Integrante do movimento existencialista francês, Beauvoir foi considerada uma das maiores teóricas do feminismo moderno.

Judith Butler é uma filósofa pós-estruturalista estadunidense, uma das principais teóricas contemporâneas do feminismo e teoria queer. Ela também escreve sobre filosofia política e ética.

Referências:
BACARJI, Arlene. Ideologia de gênero: o que é e qual a polêmica por trás ela?. Caxias do Sul: PolitizePublicado em 23 de novembro de 2018
BEAUVOIR, Simone de. O Segundo sexo. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2009.
CAMPANHA FRATERNIDADE ECUMÊNICA. Texto-Base. Brasília: Edições
CNBB, 2020.
CHAUÍ, Marilena. O que é Ideologia. São Paulo: Brasiliense, 2006.
FEMENIAS, Maria Luisa. A crítica de Judith Bluter a Simone de Beauvoir. In: http://periodicos.pucminas.br/index.php/SapereAude/article/view/4619.
JUNQUEIRA, Rogério Diniz. Ideologia de gênero: entenda o assunto e o que está por trás. In: Bertho, Helena, 23/10/2018.

 

 

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