sábado 20 de abril de 2024

COVID-19 – a pandemia deixa lições

6 de abril de 2021 7:13 por Fátima de Sá

O livro

Na Universidade do Estado da Bahia – UNEB, profissionais do Programa de Pós-Graduação em Ecologia Humana e Gestão Socioambiental decidiram pôr em execução uma ideia: reunir profissionais de diferentes áreas do conhecimento para refletirem sobre a Covid-19 em meio à pandemia.

Como resultado dessa “balbúrdia”, surgiu o livro organizado pelas Professoras Eliane Maria de Souza Nogueira e Iramaia De Santana, Lições e memórias de uma pandemia, que está disponível, gratuitamente, em formato de e-book[i]. Eu tive a alegria de escrever o prefácio e vou aqui reproduzir alguns trechos para convidar todos e todas à leitura.

Tragédia anunciada

Primeiramente, lembro que são passados quase 60 anos da publicação do livro Primavera Silenciosa, de Rachel Carson; a bióloga americana dedicou o livro a Albert Schweitzer que disse: O homem perdeu sua capacidade de prever e de prevenir. Ele acabará destruindo a Terra.

Enquanto isso, em pleno século 21, nos deparamos com dados mostrando que 335 eventos sobre doenças infecciosas emergentes ocorreram entre 1940 e 2004[ii], com padrões globais não aleatórios, confirmando que essas doenças estão significativamente correlacionadas com fatores socioeconômicos, ambientais e ecológicos.

Além disso, pesquisas mostram a ocorrência de epidemias a partir da ecologia de patógenos naturais, notadamente quando seres humanos são expostos em atividades tais como, produção animal, extração de recursos naturais, e práticas agrícolas e culturais inadequadas.  Ainda, as mudanças climáticas e a perda de biodiversidade constituem-se em ameaças à saúde humana, ao expor as pessoas à insegurança alimentar e hídrica, condições climáticas extremas, poluição e doenças infecciosas[iii].

Um patógeno no comando

Em dezembro/2019, o noticiário anunciava uma nova doença infecciosa acometendo pacientes internados em um hospital de Wuhan – capital da província de Hubei, China Central, um centro comercial onde vivem 11,08 milhões de pessoas.

Dias depois, foi identificado o código genético do vírus – um novo tipo de coronavírus, que recebeu o nome de SARS-CoV-2, e a doença por ele causada recebeu a sigla COVID-19 [CO = corona, VI = vírus, D = Disease = Doença, 19 = 2019].

Portanto, emergiu uma nova zoonose, ceifando vidas humanas, deixando sequelas em muitos sobreviventes, além de trazer prejuízos econômicos globais. Além do mais, ficou evidente que os mais vulneráveis da sociedade (pobres, moradores de periferias, indígenas, quilombolas) ficaram mais expostos à doença. Isto está evidente na afirmação de Emicida.

Por outro lado, a OMS emitiu um alerta: a melhor forma de prevenir e retardar a transmissão é estar bem informado sobre o vírus da Covid-19, a doença que ele causa, e como se espalha[iv]. Desse modo, a publicação desse livro da UNEB, com o apoio da Sociedade Brasileira de Ecologia Humana, é uma contribuição importante para discussões e disseminação de informações que poderão enriquecer o debate sobre a pandemia.

Detalhando o livro

A partir de diferentes olhares e diversas formações acadêmicas, o livro foi composto por análises de dados disponíveis sobre o tema, com as seguintes abordagens:

  1. Políticas públicas brasileiras em meio ambiente e saúde: reflexões acerca das implicações sobre a pandemia da covid-19, em que é mostrada a interconectividade entre saúde humana, animal e ambiental, proposta pela ONU na abordagem da Saúde Única (One Health). Por fim, os autores relatam como o governo brasileiro tem agido diante do problema e discutem perspectivas para o enfrentamento desta e de futuras pandemias.
    SAÚDE ÚNICA (ONE HEALTH): Saúde Ambiental, Saúde Humana, Saúde Animal (ONU, 2020)
  2. Projeções e simulações: importância na previsão de impactos na comunicação a populações vulneráveis – onde se buscou demonstrar a importância do uso das tecnologias para projeções e simulações como apoio ao combate à pandemia, entendendo que elas podem e devem ser utilizadas para permitir a disseminação dos dados baseados em ciência.

3. Reminiscências e admoestações da educação à luz de uma pandemia: a urgência da consciência de si – as autoras discutiram a importância do trabalho interdisciplinar, fizeram reflexões sobre a Covid-19 e as lições trazidas pelas reminiscências do corpo.

4. Como guiar no nevoeiro? Pensamento complexo e aprendizagem institucional em tempos de pandemia, em que se trabalhou com a hipótese de que a capacidade de organização das populações indígenas tem-se mostrado favorável diante da pandemia. E se destacou a necessidade de: Orquestrar os movimentos, aguçar os sentidos da escuta, reconhecendo-nos partes de um sistema complexo, a exemplo dos povos das florestas.

5. História e pandemia: ressignificando as ações humanas sobre o meio ambiente e saúde. Discute-se a necessidade de se pensar meio ambiente, ciência e economia de forma conjunta e sustentável, entendendo que tudo está conectado.

6. A regenerativa contribuição da agricultura familiar agroecológica em tempos de pandemias, onde se mostra a necessidade da adoção de medidas pautadas numa perspectiva agroecológica, para fazer frente à crise sanitária, econômica e social à qual a humanidade está submetida.

7. Povos indígenas e os desafios da Covid-19: produção de memória e mobilizações políticas. Fez-se uma análise fundamentada em quatro eixos: o caráter histórico do papel político desempenhado por patógenos e epidemias nas relações interétnicas; aspectos sociopolíticos evidenciados pela crise da Covid-19; aspectos culturais na multiplicidade de povos indígenas e suas visões de mundo; o modo de produção de memórias acerca da pandemia como uma frente de ação do Movimento Indígena.

8. Direito do mar: um mar de direitos violentados – foram analisados leis e processos históricos que asseguram os direitos do mar. Também abordaram aspectos das leis de proteção às águas marinhas, considerando o vazamento do óleo nas praias, ocorrido em 2019, mas, que foi eclipsado em função da urgência acarretada pela pandemia da Covid-19.

Em Conclusão

Lições e memórias de uma pandemia é uma demonstração de que diversos profissionais, ao fazer a integração de conhecimentos necessária ao entendimento da pandemia da Covid-19, não escolheram “se esconder”, mas aumentaram a chama do interesse pela realidade que está batendo às nossas portas há mais de um ano, invadiu muitos lares e já dizimou milhões de vidas.

 

 

[i] http://www.sabeh.org.br/?mbdb_book=licoes-e-memorias-de-uma-pandemia

[ii] JONES, K.E. et al. Global trends in emerging infectious diseases. Nature, v. 451, p. 990-994, fev. 2008.

[iii] GIBB, R.; FRANKLINOS, L.H.V.; REDDING, D.W.; JONES, K.E. Ecosystem perspectives are needed to manage zoonotic risks in a changing climate. BMJ 2020.371:m3389. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1136/bmj.m3389. Acesso em: 13 nov. 2020.

[iv] Coronavirus. Disponível em: https://www.who.int/health-topics/coronavirus#tab=tab_1. Acesso em: 19 dez. 2020.

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