A Mãe Terra contra-ataca a Humanidade: Leonardo Boff e a epidemia.

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Por Gilvan Gomes

 

Em seu novo livro, “A Covid-19: A Mãe Terra contra-ataca a Humanidade”1, Leonardo Boff reflete sobre “como, e por qual motivo, a humanidade está sendo atacada por um vírus mortal?” Entre tantos outros questionamentos, o teólogo procura entender como o homem está lidando com toda essa situação e o grito de socorro que a Mãe Terra está tentando passar.

Na referida obra o autor pretende apresentar algumas reflexões para uma sociedade pós-Covid-19  que dá o nome de  uma civilização biocentrada: “sairemos da epidemia diferentes do que quando entramos. Ela nos obriga a pensar e mais do que pensar; ou seja, incorporar hábitos novos e estabelecer relações mais respeitosas e cuidadosas para com a natureza e também mais amigáveis para com a Casa Comum, a Terra” (p. 7).

Leonardo Boff Fonte: www.leonardoboff.org

 

Sua pretensão não é apenas comentar sobre o coronavírus, pois, no seu entender, “quase todas as análises do Covid-19 foram feitas a partir da técnica, da medicina, da vacina salvadora, do isolamento social e do uso de máscaras para nos proteger e não contaminarmos os outros. Quase nunca se falou de natureza, pois o vírus veio dela” (p. 144). O autor procura exercer um novo olhar na sua interpretação acerca da pandemia provocada pelo coronavírus. Ancorado por dois documentos universais – a Laudato Si’, do Papa Francisco (2015), e a Carta da Terra (2003)2–, defende a tese de que a Covid-19 é uma “expressão de autodefesa da Terra viva” (p. 10), ou seja, “é um contra-ataque da Terra viva contra nós por causa de séculos ininterruptos de agressão à sua vida” (p. 9). E daí justifica: “não podemos analisar o coronavírus isoladamente, como algo em si. Precisamos colocá-lo no seu devido contexto, no qual ele surgiu. Ele veio da natureza, pouca importa se de um morcego ou de outro animal. O fato é que sua origem se encontra na natureza. Sobre ela quase ninguém fala quando se multiplicam as análises dos muitos especialistas nacionais e internacionais” (p. 19).

Em nenhum momento a sua abordagem é perniciosa, as páginas desta obra são cheias de lucidez, serenidade, esperança e ajuda a cada um de nós como pessoa, como comunidade, como sociedade, na construção de um futuro crescentemente melhor: ”identificar valores, princípios, hábitos, modos de ser, de produzir, de distribuir e de consumir; numa palavra, um outro paradigma civilizacional que se adeque aos ritmos da Terra e da natureza” (p. 10).

Encoraja-nos a assumir esse tempo de crise como um “tempo de grandes sonhos e utopias, que nos movem na direção do futuro, incorporando o melhor do passado, mas fazendo a própria pegada no chão da vida” (p. 47), a sua perspectiva é um apelo à mudança: “não temos outra alternativa senão mudar. Quem acredita no messianismo salvador da ciência é um iludido: a ciência pode muito, mas não tudo” (p. 18). Ainda mais, ”na questão da intrusão do Covid-19 e assumir urgentemente um outro tipo de relação para com a natureza e a terra, contrário daquele dominante. Vale dizer, faz-se mister um novo paradigma de produzir, distribuir, consumir e conviver na mesma Casa Comum” (p. 19).

O livro está estruturado em quatro partes: 1) o coronavírus: uma arma da Terra contra nós (p. 12-55); 2) o coronavírus nos convida a rezar e a meditar (p. 57-105); 3) lições a tirar da pandemia do coronavírus (p. 107-129); 4) a disputa pelo futuro da Mãe Terra (p. 131-156).

Na primeira parte, Boff nos brinda com sete reflexões. Na primeira reflexão, define-se o coronavírus como uma arma da Terra viva, alertando-nos de que não adianta repetirmos sempre o mesmo e de forma pior, querendo curar as feridas da terra cobrindo-as com band-aids mas, carecemos de um novo paradigma na defesa contra o coronavírus para a construção de sete pilares: a) uma visão espiritual do mundo e sua correspondente ética, b) o resgate do coração, do afeto, da empatia e da compaixão, c)  a necessidade de tomar a sério o princípio de cuidado e de precaução, d) o respeito a todo ser, e) a atitude de solidariedade e de cooperação, f) a responsabilidade coletiva, g) a urgência de envidar todos os esforços na construção de uma biocivilização, centrada na vida e na Terra (p. 15-25).

A segunda reflexão destaca o processo de autodefesa da Mãe Terra. Sendo a terra um ente vivo que se auto-organiza é urgente que tenhamos consciência sobre a nossa relação com ela e sobre a responsabilidade que temos pelo nosso destino comum da Terra viva-Humanidade. Esse gesto torna-se necessário porque terra e humanidade são uma única entidade e o ser humano é a porção da Terra que sente e pensa (p. 26-30). A terceira reflexão mostra como ferimos e maltratamos a Mãe Terra (31-34). O autor destaca na quarta reflexão que o coronavírus caiu como um meteoro sobre o capitalismo e, por isso, esse é o momento de questionar as falas-mestre da ordem do capital: a acumulação ilimitada, a competição, o individualismo, a indiferença face à miséria de milhões, a redução do Estado e a exaltação do lema de que a cobiça é boa (p. 35-39).

E, na quinta reflexão, a atenção é voltada para o pós-pandemia: voltar à normalidade é retroceder, uma vez que o atual sistema põe em risco as bases da vida. Na pandemia, o projeto capitalista foi refutado e, por isso, torna-se necessário inaugurar uma civilização biocentrada cuidadosa, amiga da vida, harmoniosa, perguntando-se que tipo de Terra queremos para o futuro. A sexta reflexão, o autor nos apresenta a cooperação e a solidariedade  como contraponto à normalidade. Apresentando os fundamentos científicos para a cooperação – uma vez que tudo está interligado – e o alerta para a mudança que se faz necessária: ou mudamos ou conheceremos o destino dos dinossauros (p. 48-51). Como última reflexão dessa primeira parte é pontuado como a Mãe Terra nos fez descobrir, através da pandemia, a nossa verdadeira humanidade e, por isso, cobra para que não voltemos ao que era antes, mas, que sejamos mais humanos (p. 52-55).

Na segunda parte, o autor partilha seis reflexões e enfatiza o significado do confinamento social e da distância das aglomerações. Aos confinados, tendo em vista que o confinamento permitiu uma revisão de vida e algum exercício de meditação que o autor chama a primeira reflexão de “Meditação da Luz: o caminho da simplicidade” (p. 59-63). Na segunda reflexão é destacado como a celebração da Sexta-Feira Santa ganhou um significado especial no tempo do coronavírus: Jesus continua crucificado nos sofredores do coronavírus (p. 65-69). Por isso, a terceira reflexão apresenta a Páscoa como a promessa da ressurreição às vítimas do coronavírus: todos os que partiram vítimas do coronavírus estão vivos e ressuscitados em Deus (p. 70-77). Seguindo sua reflexão teológica, na quarta reflexão o autor elabora algumas considerações sobre o Pentecostes. O Espirito é vida, movimento e transformação, sendo, por isso, invocado por sua ação sanadora e recriadora (p. 78-82). E na quinta reflexão é aprofundada o significado do nosso corpo e como devemos cuidar dele, do corpo dos outros, dos pobres e da Terra (p. 83-92). E a última reflexão são feitas  considerações sobre o cuidado com o espírito. Cuidar do espírito é cuidar do eterno que há em nós (p. 93-105).

A terceira parte do livro compreende quatro reflexões sobre as lições aprendidas da pandemia do coronavírus. A primeira reflexão (p. 109-112): evidencia

que não podemos prolongar o passado – “deveríamos ter aprendido que somos parte da natureza, e não os seus senhores e donos. Vigora uma conexão umbilical entre ser humano e natureza. Viemos do mesmo pó cósmico como todos os demais seres e somos o elo consciente da corrente da vida” (p. 109).

Na segunda reflexão, o autor traça um mapa para resgatar a vida ameaçada. Uma comunidade de destino para toda a Humanidade, por meio dos valores e princípios da Carta da Terra, articulando a inteligência racional com a cordial (p.113-118). E como terceira reflexão salienta a importância do biorregionalismo como forma viável de concretizar a sustentabilidade (p. 119-122). Na última reflexão desta terceira parte apontam-se quais são as dez virtudes de uma ética da Mãe Terra pós-coronavírus:

a) o cuidado essencial; b) o sentimento de pertença; c) a solidariedade; d) a responsabilidade coletiva; e) a hospitalidade; f) a convivência de todos com todos; g) o respeito incondicional; h)  a justiça social e a igualdade fundamental e todos; i) a busca incansável da paz; j) o cultivo do sentido espiritual da vida (p. 123-129).

A quarta e última parte aborda  do livro são abordadas duas questões: a primeira, a transição para uma sociedade biocentrada – onde se esclarece em que sentido o coronavírus abalou gravemente o capitalismo neoliberal – e quais as alternativas políticas para o pós-coronavírus – este nos obrigará a conferir centralidade à natureza e à Terra (p. 133-138). A segunda: por onde deve começar a transição paradigmática, e quais são os pressupostos para uma transição bem-sucedida: a vulnerabilidade da condição humana exposta a ataques por enfermidades, bactérias e vírus dos ecossistemas; a imprevisibilidade dos acontecimentos naturais e históricos; a interdependência entre os seres, especialmente os seres humanos; a solidariedade como opção consciente; o cuidado essencial para com tudo o que vive e existe, especialmente para os seres humanos. Será decisivo  recriar e refazer o contrato natural e articulá-lo com o contrato social – levando em conta o biorregionalismo como ponta da discussão ecológica (p. 139-148).

Concluindo o livro (p. 149-156), o autor, salienta que:

o Brasil, não obstante suas contradições histórica e internas, tem um capital ecológico que lhe permitirá fazer um ensaio possível de transição para um outro paradigma de civilização. Por suas riquezas ecológicas, geográficas, geopolíticas e populacionais, tem todas as condições para esse ensaio de uma civilização biocentrada. Esses tempos de confinamento por causa da Covid-19, são propícios pra pensarmos num outro projeto de Brasil (p. 149).

Leonardo Boff abre o caminho para variadas reflexões sobre o tema da pós-pandemia. As reflexões compreendidas nesta obra estão sintonizadas com o que insistentemente nos pede o Papa Francisco. Em primeiro lugar, uma reflexão teológica afinada com os tempos atuais. Uma teologia que não se perca na disputa acadêmica e que não olhe para a humanidade a partir de um castelo de vidro. Em segundo lugar, porque num mundo ferido pela pandemia do coronavírus, Francisco, através da encíclica “Fratelli Tutti” (2020), faz um chamado por reformas e mudança de direção propondo um novo paradigma global, em alternativa ao individualismo, capaz de sobrepujar a cultura do descarte hoje difundida e silenciosamente crescente, como nos alertou o Papa Francisco em seu discurso na ONU3, “essa cultura hoje em vigor é um atentado contra a humanidade”.

Notas:
1- BOFF, Leonardo. Covid-19: a Mãe Terra contra-ataca a Humanidade: advertências da pandemia. Petrópolis: Vozes, 2020.
2- A Carta da Terra é uma declaração de princípios éticos fundamentais para a construção, de uma sociedade global justa, sustentável e pacífica. Busca inspirar todos os povos a um novo sentido de interdependência global e responsabilidade compartilhada, voltado para o bem-estar de toda a família humana, da grande comunidade da vida e das futuras gerações. É uma visão de esperança e um chamado à ação.
3- Discurso proferido na Abertura da 75ª Assembleia da ONU, 26/09/2020. Em: www.ecoamazonia.org.br.

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