Eu o vi jogar

Hoje eu sei o porquê: as bolas do mundo inteiro tinham uma grande paixão por ele, que as tratava com respeito e indiferença.

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Por Cláudio Canuto

 

Roberto Menezes no CRB em 1972

 

 

Lembro-me, como uma das mais arrebatadoras das minhas lembranças infantis, a elegância majestosa do seu futebol. O prazer voluntarioso e apaixonado com que a bola deixava-se levar, submetida a seus pés, à sua volúpia, a seus caprichos de jogador refinado, elegante e objetivo.

As nossas ruas confluíam, apontando para a Praça Sinimbu, onde fomos criados quase maloqueiros, jogando pelada em um campo vasto, pois a Praia da Avenida era nossa, e Roberto Menezes, futuro engenheiro e já ídolo de futebol, mostrava-nos gratuitamente o engenho de sua arte, para nós mais que complicada, insondável. Hoje eu sei o porquê: as bolas do mundo inteiro tinham uma grande paixão por ele, que as tratava com respeito e indiferença. Na verdade, submetia-as ao seu talento desinteressado e sem limites. No fundo, ele sabia. E é desta convicção que vinha a sua tranqüilidade quase tímida, o sorriso de quem perdoava a traquinagem que iríamos cometer, os abusos de jogadores limitados que viam no nosso objeto de lazer apenas couro e ar, que não sentíamos o seu pulsar, a sua alma feminina.

Objetivo, como disse, o seu futebol era matemático; os seus dribles, curtos, e longos os seus lançamentos. Desarmava com facilidade e cometia poucas faltas, como cavalheiro que era. Não lembro se foi expulso algum dia. E se o foi, culpo o juiz ou o adversário. Ou ambos. Defensor, quarto-zagueiro ou volante, tinha noção clara que o futebol ideal era fazer muitos gols e não levar nenhum. Daí, a sua objetividade. Normalmente falava pouco e desconheço se algum dia foi capitão. Se não o foi, deveria ter sido, pois se impunha em campo, mesmo em silêncio, que era a sua atitude habitual.

Para mim, o seu jogo antológico foi contra o Cruzeiro de Minas, de Dirceu Lopes, Tostão e, sobretudo neste momento, de Piazza. Ambos Roberto Menezes e Piazza, disputavam a Bola de Prata do Campeonato Brasileiro, cuja preferência era determinada pelos votos de torcedores do Brasil inteiro. Roberto liderava com uma pequena margem de diferença. O troféu estava guardado lá em casa, aos cuidados do meu irmão, Márcio.

Roberto Menezes jogou no CRB, CSA e Vitória da Bahia

Jamais esquecerei o duelo, jamais esquecerei a elegância da disputa. Jamais esquecerei que o troféu foi levado lá de casa como quem cometiam um furto, como quem levavam um bem precioso cujo dono morava na rua ao lado, a cem metros de onde ele estava:” Deixe-o aqui, senhor. Eu mesmo o levarei. O dono mora ali e está em casa”.

Nós, seus amigos mais próximos, sabíamos, desde um tempo insuportavelmente indesejado, que o “galego” já tinha encontro marcado com o mundo desconhecido e que, em sua espera, sofria padecimentos terríveis.

Deixo-me arrastar pelos sentimentos e obscureço, talvez, o compromisso da objetividade que um dos mandamentos jornalísticos impõe. Mas eu o vi jogar e sei que não estou só, sei que outros torcedores anônimos, amantes do futebol sem os artifícios de uma retórica vazia expressa por fanáticos atuais, mas elevado à categoria de arte – a sua verdadeira morada -, encontrou em Roberto Menezes um dos seus ícones mais expressivos e respeitáveis. E estes, como eu, velam para que ele descanse eternamente em paz.

Professor Cláudio Canuto

(*) O azulino, professor e sociólogo Cláudio Henrique Accioly Canuto, mais conhecido como Magal, faleceu no dia 28 de abril de 2010. Tinha bacharelado em Sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco (1985), mestrado em Diplome des études approfondies pela École des Hautes Etudes en Sciences Sociales de Paris (1993) e mestrado em Sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco (1994).

 

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