A dor de ser obrigado a perder memórias

Caso Pinheiro e a Covid-19 se irmanam

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Por Da Redação

A tragédia provocada pelo novo coronavírus, agente causador da Covid-19,  é, sem dúvida, uma das piores situações que a humanidade já enfrentou. A pandemia Covid-19 já matou mais de 510 mil brasileiros, entre estes 5.239 alagoanos.

O estado tem média móvel de 23 mortes por dia. Um quadro trágico!

Porém, há aqui em Alagoas uma tragédia da mesma amplitude. Não fossem os milhares de mortos, seria possível até afirmar que o afundamento de cinco bairros na capital, o chamado Caso Pinheiro, é uma catástrofe maior que a pandemia.

O coronavírus mata o corpo, enquanto a ação criminosa da multinacional Braskem mata a alma de suas vítimas. Mais de 60 mil pessoas estão doentes em Maceió, por serem obrigadas a apagar suas memórias de vida. São inúmeros e intensos os relatos das vítimas da Braskem, alagoanos com idades entre 1 mês e 90 anos ou mais, expulsos de suas casas, o ninho onde viveram do nascimento até 2020.

“Minhas melhores lembranças são a infância e adolescência dos meus filhos, haja vista eles terem nascido e crescido no Condomínio Ana Cristina, onde tinham um círculo de amizade e referência afetivas que levaremos para o resto da vida” – diz a professora Luciana Leão Ciríaco, moradora expulsa do Pinheiro.

A professora Luciana Leão Ciríaco e os filhos, antes da tragédia no Pinheiro | Fotos: arquivo pessoal

O drama começa com o aparecimento de rachaduras nas paredes e piso das casas. Na encosta do Mutange, um dos quatro bairros ameaçados de desaparecer, muros rachados e a ocorrência de tremores de terra mostraram a gravidade do problema que se ampliou a ponto de alcançar a superfície de parte da cidade de Maceió.

Uma equipe do Serviço Geológico Brasileiro (CPRM) esteve na área e registrou que, no último trimestre de 2019, o solo em um ponto do Mutange afundava a uma velocidade de 275 milímetros por ano. Fotos das fissuras no chão do bairro e em buracos abertos em uma das avenidas mais movimentadas do bairro fazem parte de um dos relatórios de campo do CPRM [Dados do CNJ].

A causa, todos sabem, é a extração de sal-gema no subsolo da capital alagoana, que já provocou tremores de terra e colocou em risco a vida de 60 mil pessoas.

Maceió pode superar Brumadinho (MG)

A tragédia em Maceió é do conhecimento das autoridades federais, inclusive do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) que, durante reunião extraordinária do Observatório Nacional sobre Questões Ambientais, Econômicas e Sociais de Alta Complexidade e Grande Impacto e Repercussão, realizada em junho de 2019, foi informado que a situação pode ser mais grave que o desastre provocado pela mineração na cidade de Brumadinho, em Minas Gerais.

Nessa reunião, realizada no Memorial do Ministério Público Federal, em Brasília, e da qual participavam o presidente do CNJ, ministro Dias Toffoli, e a então presidente do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), Raquel Dodge, a conselheira do CNJ Maria Tereza Uille perguntou ao diretor-geral da Agência Nacional de Mineração (ANM), Victor Hugo Bicca, se havia no Brasil a chance de uma nova tragédia, parecida à de Brumadinho.

O lar da família e suas memórias agora estão só em fotos

Maceió. O afundamento do Bairro Pinheiro pode ser uma tragédia muito maior que Brumadinho e Mariana”,  Victor Hugo Bicca, da Agencia Nacional de Mineração (ANM).

De lá até hoje a situação só se agravou. Os moradores foram expulsos de suas casas, e uma parte considerável da cidade está transformada em um cenário de pós-guerra. Casas destelhadas, sem portas, sem janelas, uma imagem desoladora.

“Hoje é doloroso voltar ao bairro e ver todos os estabelecimentos fechados, as casas todas em escombros, não ver mais um rosto conhecido, o bairro com aspecto de ambiente de guerra. Em tão pouco tempo tudo se transformou em terror, insegurança e medo” – afirma Luciana Ciríaco.

Prejuízos à educação pública

O Centro Educacional de Pesquisas Aplicadas (Cepa), considerado o maior complexo de educação da América Latina, reunindo 11 escolas estaduais com capacidade total para 7.827 alunos, é outro marco da tragédia no Pinheiro. Ali, todas as unidades serão fechadas, deixando seus alunos sem acesso ao ensino.

“Todos os dias eu percorria o mesmo caminho de casa para o trabalho, no Cepa, e nesse caminho eu conhecia cada vizinho que me cumprimentava” – rememora a professora Luciana.

Além desse grave dano à educação pública em Maceió, a ação criminosa da Braskem S.A, multinacional pertencente a holding Odebrecht , está registrada nas paredes das casas destruídas, e no relato daqueles que não se conformam com a radical mudança de vida a que foram obrigados.

Também moradores do Pinheiro, alunos do Cepa perdem suas escolas | Foto: Agência Alagoas

“A tragédia tem trazido o impacto emocional, de saber que não temos mais nosso apartamento, fruto de muito trabalho e o impacto financeiro, pois hoje o valor do aluguel social é defasado para suprir os valores de aluguel e taxa de condomínio” – afirma Luciana Ciríaco, exemplo de um desses relatos.

Ela conta que sempre viu a Braskem S.A como uma empresa sem preocupação ambiental, e cita como razão a desvalorização imobiliária do bairro onde ela está instalada. “Hoje, além de não confiar no trato dela em relação ao meio ambiente, acho que ela tem sido desonesta nos acordos de indenização, assim como o MPE. O poder público, infelizmente, não está ao lado das vítimas” – acrescenta a professora.

Ao lado dos filhos ela luta para garantir o direito a uma indenização justa para o apartamento que foi obrigada a deixar.

“Não sou otimista em relação a indenização. Na minha opinião, a negociação merecia de mais transparência.  Não sabemos nem os bairros que a Braskem pesquisa imóveis para de basear nos valores ofertados. Até fiz esse questionamento e não obtive resposta. Os danos morais são ridículos, um valor único, R$ 40.000,00, sem levar em conta o tempo de moradia, o número de moradores do imóvel, o valor afetivo do imóvel…” – afirma Ciríaco.

A professora se mostra desesperançosa, pois acha que não há respeito por parte de quem causou o desastre.

“O que há, apenas, é uma pressão para que aceitemos os acordos esdrúxulos, sob a chantagem de se judicializarmos a causa, provavelmente será uma causa demorada a se resolver. Então ficamos sem perspectiva, pois nem o poder público luta pelo direito das vítimas” – lastima a professora Luciana Leão Ciríaco.

2 Comentários

  1. Maria José Castro d'Almeida Lins em

    Uma vergonha! É uma vergonha a história dos bairros destruídos pela Braskem! Vergonha, no sentido do deboche da ação criminosa da Braskem. Vergonha de não termos conseguido fazer muita coisa contra essa empresa criminosa. Vergonha de ter um Ministério Público cujo maior feito no caso foi um documentário. Tristeza enorme… vontade de chorar contida pela raiva… E sigo me perguntando para onde foram essas pessoas expulsas de seu lugar? Onde estão? O que aconteceu com elas? Fico também lembrando a quantidade de animais que não conseguiu sair ou que foram abandonados naquela região fantasma da cidade. Há muita coisa mais… e uma das que mais me incomodam é ver o nosso Cepa ocupado pelas máquinas da Braskem. Estão fazendo o quê alí? Enfim, levaram o tão cobiçado Cepa – o maior complexo educacional da América Latina -, que vai virar pó na esteira da ganância da Braskem…

  2. Infelizmente somos acomodados… E esta acomodação nos destrói! Era para MACEIÓ INTEIRA estar na rua, exigindo os DIREITOS DOS NOSSOS IRMÃOS – moradores dos bairros atingidos!!!
    Segundo o Dr José Geraldo Marques, que na época da implantação da Salgema recusou-se a dar o aval, como Secretário de Governo, alegando tudo o que hoje acontece… o que ele ouviu da parte da Salgema foi que era mais fácil Maceió se mudar, do que a Salgema… É muito desaforo, desrespeito ao povo… Representantes indignos… E NÓS, ACOMODADOS…

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