Respirando o Bem Viver Comum

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Por Ricardo Ramalho

A reflexão nos ajuda a superar crises e obstáculos de nosso viver. Impulsiona na busca das utopias e enlevos da existência humana. Com esses sentimentos, enfrentamos o atual estado de espírito que nos comove.

Um debate intenso e muitas vezes rudimentar, coloca em faces opostas, visões de prioridades econômicas e de salvar vidas, diante da pandemia. Como barco sem rumo, navegamos por essas águas revoltas do comportamento humano. Dominados por um projeto de sociedade consumista, antropocêntrico, antiecológico e, eminentemente, especista, estamos atordoados por um inimigo ardiloso e de capacidade destrutiva inimaginável.

Envoltos pela proposta da sociedade contemporânea, coberta por preceitos do que se denomina de “felicidade de vitrine”, corremos, de forma célere e avassaladora, para alcançar objetivos voláteis, fluidos, que se desmancham aos solavancos da reinante insustentabilidade dos princípios elementares de fatores ambientais. De súbito e, rapidamente, surge um vírus que derruba pilares dessa “sociedade líquida” para usar mais um conceito em discussão, na atualidade. Descobrimos que a humanidade, ciosa dos avanços tecnológicos e arrogante em sua composição de seres vivos inteligentes, percorre um sistema frágil de inter-relação com a natureza e alimenta uma cruel desigualdade, entre seus participantes.

Mesmo antes da hecatombe sanitária universal, se alardeavam sinais de falência do modelo econômico e ameaças ambientais graves, como as mudanças climáticas, para muitos, o próximo desafio vital que o mundo enfrentará. Há, felizmente, uma tímida, mas, consistente reação se formando. Acessamos textos iluminados que abordam essa mudança de comportamento social e de valores. A natureza dessa abordagem não comporta citações. Apenas nos inspiramos nesses novos pensamentos que apontam alternativas para um projeto futuro de sociedade. Será fundado em paradigmas que valorizem o “luxo supremo”. Aquele que não se atrela, exclusivamente, ao poderio econômico, mas, que considera a saúde, água limpa, animais livres, matas e florestas preservadas. Que oferece tempo, esse bem postergado, por um modo de vida acelerado e robótico. Tempo para pensar, ouvir boas músicas, ler, descobrir beleza nas coisas, dançar, até sozinho. Observar, com serenidade o pôr do sol, o nascer da lua, o brilho das estrelas. Saber perdoar pessoas, compreender quem pensa diferente, tolerar oponentes. Admitir seus defeitos e rir deles. Uma série de condutas que nos retire dessa roda viva de celeridades e urgências indefinidas.

A construção de novas dinâmicas sociais se revela como um caminhar que nos leve a utopias para um Bem Viver que se espraie, coletivamente. Um Bem Viver Comum que se afaste da linearidade dos princípios regidos pelos ditames do deus moderno: o mercado. Ressignificando a vida, dentro de um contexto de comunhão com a Terra, nossa casa comum. Desponta, assim, a Agroecologia, como uma ciência em formação, demonstrando possibilidades para uma relação harmoniosa com o meio ambiente. Confluem, nessa direção, tendências que fortalecem essa diretriz, a exemplo da Permacultura, a Bioconstrução, os Sistemas Agroflorestais. Enraízam-se, nessa movimentação, decisões pelo retorno à vida natural, a alimentação saudável, à simplicidade, ao minimalismo e consumo responsável. Portanto, a vida em primeiro plano.
Muitas postagens circularam na internet, atribuídas a intelectuais e pensadores. Independente da autoria incerta, encerram, em linhas gerais, essa procura por um amanhã que não seja surpreendido, por situações de colapso, como a que vivenciamos. Anunciam encaminhamentos alternativos, à trilha dominante, adotada pela humanidade. Arremetamo-nos nessas veredas.

É fundamental se libertar do jugo do Produto Interno Bruto (PIB), essa abstração monetária que move a economia de forma fria e implacável, somando “riquezas” que empobrecem a maioria, pela cruel desigualdade, na qualidade de vida dos povos. Formular um novo índice, que exprima o Bem Viver, comum aos mais diversos segmentos sociais. Investir em áreas que produzam felicidade sustentável como energias limpas, saneamento em suas vertentes básicas, de acesso à agua potável, esgotamento, drenagem urbana e tratamento do lixo. Redistribuir renda, perseguindo níveis com menor discrepância nos valores. Praticar uma agricultura regenerativa que alimente a biodiversidade, diminua a geração de resíduos e a fome, livre das tarefas penosas e prejudiciais à saúde ambiental. Cultivar a terra, sobretudo, observando a teia da vida e dela se aproveitando, em benefício de todos. Reduzir o consumo, o luxo orgiástico, o esbanjamento dos recursos naturais, compreendendo que são finitos. Empreender sempre visando o labor colaborativo e edificante. Valorizar o capital humano, estimulando a participação de todos. As pessoas movem o mundo. O fluxo de caixa, a estrutura logística, são instrumentos subalternos a esse capital.

Ética, ética! Parece escondida, espreitando um mundo, em velocidade incontida, que não podia parar. Que ressurja e inspire uma nova civilização, escudada, sobremodo na exemplaridade, essa força que remove montanhas de iniquidades e faça “a boa nova” andar nos campos e cidades, “semeando canções no vento”. Que edifique vivências e ações sob um mandato sublime e definitivo: todo poder à vida!

*Obrigado a Alberto Cabus, Bauman, Beto Guedes, Boaventura de Souza, Chomsky, Osman Giraldo, Edgar Morin por me doarem, sem permissão prévia, pensamentos e ideias que me fizeram respirar e inspirar, nesta pandemia.

(*) Ricardo Ramalho é engenheiro agrônomo 

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