A MUSA DO TARADO

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Por Adelmo Marques Luz

 

Lúcia, nos seus incompletos dezesseis anos, possuía uma engenhosa beleza que acabara de desabrochar, saudável e viçosa como uma flor matinal. Cabelos escuros e em queda livre feito as cascatas; olhos de jabuticaba e a pele morena lembrando as rolinhas caldo de feijão. Seu busto era generoso e os lábios carnudos mostravam, ao menor sorriso, uma fileira de dentes alvos como coco. Esbelta igual às garças e dona de um aformoseado corpo de dançarina, Lúcia exibia leveza no andar e harmonia nos movimentos. Suas salientes nádegas rebolavam como uma inquietante maré, despertando atenção à primeira vista. Cabocla oriunda do sertão, de onde veio para a capital ainda criança concluir os estudos, logo os galanteadores do bairro a batizaram como “Miss Lúcia”.

Desconhecendo o apelido que lhe fora atribuído, sequer desconfiava das taras verbais dos rapazes, em descontraídas rodinhas de bate-papos na praça. Nessas ocasiões, a beldade era predileção nos apimentados comentários: – “Continua linda! Os peitinhos duros que nem bico de canoa. Ai, se ela quisesse fazer amor comigo…! Começava a beijá-la pelo pé da cama…!”

Não havia limite na imaginação daquela turma de frajolas que enxergavam em Lúcia a razão das suas mais variadas fantasias, muitas vezes extravasadas no banheiro, em mágicos e solitários enleios.
Audaciosa no uso de roupas curtas, a rapariga endoidava até mesmo os mais contidos. Impossível não reparar nos seus atributos; irresistível não desejar seus predicados.

II

Um desses rapazes, morador das cercanias, conhecido pela alcunha de Fábio Tara, debruçava-se regularmente no postigo de casa para esperar a passagem da admirável transeunte. Era itinerário obrigatório de Lúcia rumo ao colégio cruzar a porta de Fábio que, em vigília, espreitava a caça feito um gavião faminto. “Batia o ponto” todos os dias: – “Admirar o que é belo não é pecado”, justificava-se.

Certo dia, “Miss Lúcia” apontou na esquina trajando, como ordinariamente, o uniforme colegial, a juba molhada e ao vento, exalando um cheiro de asseio recente. Há algum tempo que Fábio planejara a realização de uma audaciosa aventura e aquele fora o dia escolhido. Quando Lúcia cruzou a calçada, Fábio provocou uma conversa aparentemente casta, mas, no íntimo, cheia de falsas amabilidades, a fim de ganhar o tempo necessário para executar o seu intento pecaminoso e carregado de descaradas consolações. Vencido pelos impulsos de seu temperamento degenerado e guiado pelo espírito de um impostor atrevido, Fábio não admitia impor à sua carne rebelde nenhuma expiação. Fez uso da retórica como parte da estratégia. Impossibilitada de perceber os movimentos de Fábio, que se protegia por trás do para-peito da janela, deixando apenas o tronco desnudo, Lúcia demorou-se por alguns minutos à mercê dos desígnios daquele lobo travestido de cordeiro, que já havia aberto a braguilha. Do seu posto de observação privilegiado, ao tempo que devorava Lúcia com os olhos sequiosos e vermelhos, denunciando a “lombra”, prosseguia numa rítmica bolinação no pênis viril e latejante.

Fitando a garota como uma serpente que magnetiza a caça, vítima do bote iminente, perguntou:

– Aonde você vai, Lucinha?

– Ôxe, Fábio, não vê que estou indo ao colégio?

Para mantê-la servil e à disposição dos seus caprichos, continuou procrastinando com patéticas indagações: – “Vai estudar, é?”

Demonstrando impaciência e falta de interesse na conversa fiada, Lúcia foi breve, dizendo-lhe que estava atrasadíssima para a prova de matemática e que capengava na matéria. Aproximava-se o término do ano letivo, férias à vista, mas para livrar-se do desconforto de uma “segunda época”, Lúcia admitiu necessitar de nota sete na disciplina.

III

A luz do sol era plena àquela hora e o calor contribuía para excitar o onanista: – “Ma-te-má-ti-ca é?… Sete?… Ma-te-má-ti-ca?…”

Apegou-se a essas palavras como um retardado, realçando-lhes a entonação das sílabas, à medida que se aproximava do orgasmo: – “Ma-te-má-ti-ca é?… Ma-te-má-ti-ca?…” E acelerou como um dínamo os movimentos do braço rumo ao prazer, sacudido por uma ondulação lasciva que fazia palpitar seu corpo suando em bicas.

Dominado pela volúpia, quebrou o sigilo num espasmo gutural de boi zebu, confessando com estardalhaço a industriosa safadeza: – “Tô gozando! Tô gozando!” E revirando os olhos, amparando-se para não cair, sujou com seu sêmen o canto da parede onde costumava deixar o vestígio da reiterada prática, cometida contra outras vítimas. Ostentava desavergonhado a imundície como troféu aos amigos que duvidassem do atrevimento.

Só depois do fato consumado Lúcia percebeu, indignada, a artimanha. Pálida e impulsionada pelo susto, fugiu lépida como uma lebre do predador de faces afogueadas que, após saciar a luxúria, sossegou como uma fera que mata a fome na abundância de um banquete. À noite, numa expansibilidade cínica e folgazã, foi à praça arrotar para a patota o resultado da impudicícia, narrando repetidas vezes e com riqueza de detalhes, o acontecido: “A princesinha ficou imóvel na minha frente, cantando na mão feito curió manso. E eu mandei bronca na “rua da palma número cinco”. Foi um bronha que me fez jorrar um xícara de gala!”

 

 

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1 comentário

  1. THEREZA VIEIRA em

    Adelmo, acho ótimo estas publicações, além de contribuir com qualidade no 082., dar a oportunidade , para os que não conhece, de admirar e divertir com as maravilhas de contos e de escrita que é a sua, ainda , eu torcendo por isso, aumentará a produção.
    Seu humor é realista e chocante!
    Parabéns!!

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