Atos e Trilhas

Em qualquer expressão artística híbrida, cada elemento não é uno e sim parte do todo

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Por Mácleim Carneiro

 

 

 

Foi pelos bastidores que saí da condição privilegiada de fruidor e profissionalmente o teatro amalgamou-se em minha vida. Precisamente, no Teatro Vanucci, Rio de Janeiro, no final dos anos 80. Fui conduzido pelo mestre Antônio Adolfo, que me convidou para trabalhar como sonoplasta do musical infantil “Passa Passa Passará”, com músicas dele e texto da Ana, sua esposa. Naquela época, eu não poderia supor, nem tinha a menor noção, que a partir dali o teatro iria exercer uma significativa importância em minha parca verve criativa e, sobretudo, em minha trajetória profissional. Foi um encontro feliz e inesperado! Fiz toda a temporada do musical e depois continuei como sonoplasta do Teatro Vanucci, em várias montagens que por lá passaram.

De volta ao aquário, os deuses da ribalta, através dos discípulos de Linda Mascarenhas, sob a sigla ATA (Associação Teatral das Alagoas), me proporcionaram o que seria de fato a experiência mais fantástica e inesquecível, só possível pelo contato direto com a essência da nobre arte: a interpretação. De quebra, antes do início de cada espetáculo, pude entender o significado das batidas de Molière. Ao lado de atores talentosos, pacientes, generosos e consagrados na cena alagoana, ousei, morrendo de medo, aceitar o convite do Ronaldo de Andrade, do Otávio Cabral e do Homero Cavalcante, para pisar o palco do Teatro de Arena, interpretando dois personagens do clássico de Maquiavel, A Mandrágora.

Seres Apolíneos e Dionisíacos

É claro que não tive a noção de como eu já havia sido cooptado pelo teatro e de como poderia desbravar novos caminhos pelos urdimentos dessa arte. Porém, logo percebi que como ator teria vida limitadíssima. Tal qual uma hiena faminta, a mediocridade estaria sempre rondando a minha ousadia, porquanto esse não era o meu ofício. O meu papel não estava no palco, talvez, nos bastidores. A temporada da Mandrágora acabou e eu fiquei quieto no meu canto, com a minha música, mais uma vez. No entanto, me sentia realizado, pela sensação de ter vivido um sonho formidável, dentro de um universo mágico, que acabou lentamente, como a cortina que desce ao final de cada espetáculo. Mal sabia eu que o melhor ainda estava por acontecer. Outra vez, generosamente, os deuses da ribalta fizeram chegar um convite tão inesperado quanto o que me havia feito o Antônio Adolfo, lá no começo dessa história. Aliás, foi muito mais do que um convite, era um desafio daqueles que, antes de qualquer decisão, da vontade mesmo é de fugir, e a primeira pergunta que vem à mente é: por que eu?

Pois bem, o meu querido Sávio de Almeida, aquele da Igreja Verde, de Comeram o Bispo Dom Pero Fernando Sardinha… Sim, ele mesmo, o grande dramaturgo alagoano, do nada, me convidou para compor a trilha sonora daquela que viria a ser uma das peças mais premiadas e de maior sucesso do teatro alagoano. Assim, nasceu a nossa primeira parceria, com A Farinhada. Assim, nasceu a descoberta de um espaço onde ouso trafegar, convicto de ter encontrado a possibilidade privilegiada de propor sonoridades capazes de intuir signos sensoriais à nobre arte. Assim, nasceu a minha compreensão da importância que tem a trilha sonora, como elemento construtor no fazer teatro, onde, como em qualquer expressão artística híbrida, cada elemento não é uno e sim parte do todo. Portanto, agora, em mim habita um devir que se estende além do proscênio e se ilumina todas às vezes que, humildemente, tenho a honra de emparelhar o diálogo entre seres apolíneos e dionisíacos.

No +,MÚSICABOAEMSUAVIDA!!!

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10 Comentários

    • Grande Basílio, você também tem o dom de ser múltiplo e é isso que nos resignifica, sempre.
      Grande abraço e, no +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!🎶🎶🎶

  1. Máclein meu amigo, você sempre surpreendendo com seus contos e suas artes dos bem viver. Obrigado por nos ajudar a viajar nas suas histórias de prazeres e reconhecimento aos nossos Artistas alagoanos, tendo você como uma locomotiva desses passeios.

    • Meu querido Marcelo, minha gratidão, sempre, pelo carinho desses comentários e de sempre.
      Muito bom saber que você esteve por aqui e dedicou seu tempo à leitura da minha história de vida.
      Grande abraço e, no +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!🎶🎶🎶

  2. Flávia Maria Quintino da Silva em

    Você é dedicação e toda arte que se propõe a fazer, nos revela ainda mais, a competência no seu exercer…👉💐👏Avante sempre!

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