Rubens Jambo: uma vida dedicada ao jornalismo, a política e a literatura

A bala que atingiu e matou o deputado Humberto Mendes foi disparada do revolver do deputado Virgílio Barbosa.

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Por Geraldo de Majella

 

O jornalista e escritor Rubens Jambo na redação do jornal Tribuna de Alagoas.

 

 

 

 

 

 

Roberto Rubens Paranhos Jambo [1926-2010], ex-militar, jornalista, contista, romancista, funcionário público estadual aposentado.

Nasceu em Maceió, no dia 16 de novembro de 1926, na Praça Senhor do Bomfim, bairro do Poço, filho de Alfredo da Silva Jambo e Elita Paranhos Jambo. Passou a infância no bairro onde nasceu, brincando pelas ruas numa vida livre. Os seus amigos eram os filhos de trabalhadores e da classe média baixa. Estudou, como quase todos os meninos da sua geração, em escola pública.

Ao completar a maior idade decidiu sair de Maceió, indo morar na então capital do Brasil, o Rio de Janeiro. Havia terminado a Segunda Guerra Mundial [1939-1945], o Brasil se redemocratizava, as liberdades democráticas haviam sido conquistadas e o país vivenciava o fim da ditadura do Estado Novo. O Partido Comunista Brasileiro [PCB] era legalizado.

Em Alagoas, um dos seus irmãos, o primogênito Arnoldo Jambo, filiou-se no Partido Comunista Brasileiro [PCB] em 1945 e no ano seguinte ajudou a fundar o jornal semanário dos comunistas A Voz do Povo. Arnoldo é o precursor na família na militância comunista.

Rubens Jambo inicia, pois, a militância no PCB, pelo comitê distrital de São Cristóvão, bairro do Rio de Janeiro, distribuindo o jornal do Partido, trabalhando na organização dos novos militantes que se filiavam e participando das campanhas eleitorais de 1946 e 1947, entre outras tarefas.

Em 1947, quando o PCB teve o seu registro cassado, passou a atuar na clandestinidade, agora na condição de funcionário político do Partido responsável pelo trabalho de organização do comitê de São Cristóvão. Em 1951, foi aprovado na seleção da Escola de Sargentos do Exército, onde permaneceu até 1955.

Dário Bernardes, Geraldo de Majella, Rubens Jambo e Nilson Miranda

Em pouco tempo fez parte de uma chapa como vice-presidente da Casa do Sargento do Brasil, entidade que congregava todos os sargentos do exército, marinha, aeronáutica e das polícias militares do Brasil. O afastamento do presidente o fez assumir a presidência da entidade, o que o colocou na liderança de uma passeata no Rio de Janeiro, na qual estiveram presentes cerca de 2 mil sargentos que reivindicavam das forças armadas e das policias militares um Código de Vencimentos, instrumento legal que daria uniformidade aos vencimentos dos sargentos.

Teve destacada ação na luta em defesa do petróleo e colocou a entidade representativa dos sargentos no processo de organização de atividades políticas nacionalistas, principalmente na Campanha pelo monopólio estatal do petróleo – O Petróleo é Nosso – com outras organizações de militares. Essas ações políticas causaram sérias divergências entre os seus superiores.

O trabalho de organização dos militares de várias patentes era uma atividade do grupo de comunistas que atuava clandestinamente nas três armas. Esse núcleo clandestino vinha trabalhando internamente com os militares nacionalistas, a exemplo do general Leônidas Cardoso [pai do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso], entre outros.

No meio militar, atuou intensamente como militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), de 1951 a 1955, ano em que deixou o exército. No entanto, por ordem do Ministro da Guerra, antes foi transferido para o Estado do Mato Grosso, como punição pelo trabalho de organização dos militares. Acusado de subversivo, foi processado, sendo absolvido em 1956. Na condição de civil, continua cumprindo tarefas do Partido no meio militar. Vai morar em São Paulo, no bairro de Jaçanã, permanecendo cerca de um ano nessa atividade. Em 1957, se desliga das tarefas clandestinas do setor militar do PCB e volta a Maceió.

Rubens Jambo fala para militantes do PCB, em Maceió.

Literatura e jornalismo

As primeiras publicações ocorreram, ainda, como 2º-Sargento quando publicava artigos e contos no jornal O Sargento, jornal informativo da Casa do Sargento do Brasil. Ao regressar para Alagoas em 1957, Rubens Jambo foi trabalhar em dois veículos de comunicação: Jornal de Alagoas, veículo dos Diários Associados, rede dirigida por Assis Chateaubriand, e Diário de Alagoas, jornal vinculado ao então governador de Alagoas, Sebastião Marinho Muniz Falcão, tornando-se funcionário da Assembleia Legislativa, atividade que exerceu por cerca de trinta e cinco anos.

Manteve sempre as atividades como jornalista e funcionário público. Mesmo com o fechamento do jornal munizista Diário de Alagoas, permaneceu até o início da década de oitenta, quando deixa o Jornal de Alagoas para ir trabalhar na Tribuna de Alagoas, jornal diário fundado em 1979 pelo senador Teotônio Vilela.

A redação da Tribuna de Alagoas era o local de trabalho onde jovens e experientes jornalistas trabalhavam na apuração de notícias importantes que nem sempre eram publicadas nos outros jornais. A liberdade de pensamento era um exercício constante na redação daquele jornal, fato que propiciou mudanças significativas na política local, rompendo paradigmas conservadores e também na manipulação das noticias em favor dos governos que se sucediam no pós-64.

Os deputados Lamenha Filho e Divaldo Suruagy, de costa o senador Teotônio Vilela conversa com Rubens Jambo Vilela

O jornalismo absorveu integralmente Rubens Jambo, constituindo sua paixão e profissão. No entanto, apesar de ter sido sufocada pela correria nas redações, a literatura não ficou esquecida. Dezenas de contos foram produzidos e publicados em jornais e revistas especializadas, como a Revista Ficção, editada em São Paulo pela editora Paz e Terra.

Jambo publicou dois livros. O primeiro foi o romance Manuscritos Alagoensis – Epístolas das Alagoas, sob o selo da Edufal, em 1985. O historiador Dirceu Lindoso assim o comentou:

“O romance Manuscritos Alagoensis é de ótima feitura literária, bem estruturado, equilibrando-se no trabalho realmente difícil da matéria popular e popularesca e da matéria política. É, a seu modo, um romance simultaneamente picaresco e político, em que comparece o tom irreverente da saborosa molecagem maceioense, que se estrutura, como forma social da cultura popular urbana, de modo crítico, sarcástico, impiedoso e dimensionalmente lírico, irônico e camaradesco.”

O segundo livro, Magnólia, Meu Carrasco, é uma seleção de contos escritos durante as décadas de 70 e 80 e foi editado também pela Edu- fal, em 2006. O escritor deixou um outro romance, ainda inédito, denominado Auto de Confissão de Julinha Coró. No prefacio do livro Magnólia, Meu Carrasco eu disse que:

“Jambo é avesso a qualquer coisa que beire o formalismo acadêmico. Impossível pensá-lo a tecer loas sobre literatura em um salão que esteja distante da sua regular vida mundana. Não condena a Academia, mas não a inveja. Indiferença, apenas.”

O jornalismo como profissão é uma marca da família Jambo. Vários dos irmãos de Rubens, notadamente Arnoldo, Hermano Sóstenes e José Alberto trabalharam em redações de jornais em Maceió, Recife e Rio de Janeiro. Os três, em momentos distintos, trabalharam ou colaboraram em jornais do PCB em Alagoas; é o caso de Arnoldo, que foi um dos fundadores do semanário comunista A Voz do Povo. José Alberto Jambo trabalhou na redação do jornal Folha do Povo, em Recife, e Hermano Sóstenes foi editor do jornal Terra Livre, órgão vinculado ao Comitê Central do PCB, no Rio de Janeiro.

O poeta alagoano Marcos de Farias Costa na década de oitenta lançou o jornal literário A Ponte e convidou o escritor Rubens Jambo para ser o editor da publicação. A irreverência de ambos, do poeta e do jornalista e escritor, é facilmente perceptível no expediente do jornal, onde se lê Editor, logo vem a ironia: irresponsável – o comum seria escrever: Editor-responsável.

Em 1987, Rubens Jambo aposentou-se como jornalista profissional. Permaneceu ainda algum tempo como dirigente sindical e membro do Conselho de Ética do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Alagoas. Foi, nesse período, representante da categoria no Conselho Estadual de Saúde.

Rubens Jambo e o líder sindical paulista Joaquim dos Santos Andrade

Militância Política

Desde a juventude Rubens Jambo militou no PCB. No entanto, depois de 1964, quando ocorreu a desestruturação do Partido, houve um afastamento voluntário, época em que também ocorreu uma espécie de diáspora dos comunistas de Alagoas. Por quase duas décadas o reencontro não ocorreu ou não foi possível. Em 1985, ocorre o retorno formal do jornalista à política partidária, ao se filiar ao Partido Socialista Brasileiro [PSB].

A Comissão Diretora Regional Provisória do PSB de Alagoas, constituída em 28 de julho de 1985, foi composta por Eduardo Davino, presidente; Denis Agra, secretário; Janice Vilela Brandão, tesoureira; Marcus Lopes, Rubens Jambo e Régis Cavalcante.

A permanência no PSB foi curta. Em 1988, um grupo de dirigentes e militantes socialistas discordou das posições eleitorais que estavam sendo articuladas e se desfiliou do PSB. O jornalista Rubens Jambo, em companhia do grupo dissidente, se filiou ao Partido Comunista Brasileiro [PCB]. Esse é o segundo momento em que Jambo se filia ao PCB e, coincidentemente, em períodos históricos em que o Partido está na legalidade. No primeiro congresso estadual foi eleito para a direção estadual do PCB em Alagoas.

Assumiu a tesouraria do Partido e passou a montar uma rede de colaboradores regulares, fato que aumentou consideravelmente a arrecadação, tornando possível o equilíbrio financeiro ao PCB. O papel desempenhado pelo velho militante comunista pode ser qualificado como de relevância diante das condições de pobreza que sempre nortearam a longa e atribulada vida dos comunistas em Alagoas.

O experiente, disciplinado e bem-humorado militante permaneceu no Partido até o ano de 1991, quando o PCB foi extinto e em seu lugar surgiu o Partido Popular Socialista [PPS]. Dessa forma, ficou sem filiação partidária, passando a integrar a legião dos sem-partido, como ele próprio denominava.

APAE e Movimento pela vida

As atividades como ativista de movimentos sociais foram longas. O início aconteceu na segunda metade da década de 60, quando em companhia de sua primeira esposa, Lurdinha Vieira, de Ciro Acioli, Leda Collor e outros fundaram, em Alagoas, a Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE), organização não governamental que iniciou o trabalho de sociabilização dos portadores de deficiências mentais.

A sua dedicação e doação ao grupo de apoiadores da APAE fizeram crescer as ações da instituição no Estado, fato que o credenciou como segundo vice-presidente da região Nordeste da Federação das APAEs no Brasil. Esse trabalho pioneiro se constituiu numa grande obra social deixada para os alagoanos pelo casal Rubens e Lurdinha Vieira, bem como pelos demais apoiadores.

Ao passar o bastão da APAE para os mais novos, o jornalista foi convocado para uma nova frente de luta. Desta vez, ligado à defesa e proteção do meio ambiente, foi um dos signatários que fundou a ONG Movimento pela Vida. Esta instituição foi criada essencialmente por jornalistas e tem ainda como presidente Anivaldo Miranda.

A luta ambiental em Alagoas na década de 80 foi intensa. Ocorreram alguns embates importantes na defesa do meio ambiente, principalmente na expansão da antiga fábrica Salgema, hoje Brasken, e no processo de criação do Polo Cloroalcoolquímico, localizado no Tabuleiro de Marechal Deodoro.

Passeatas pelas ruas centrais de Maceió, organizadas pelo Movimento pela Vida, Sindicato dos Jornalistas, radialistas e parlamentares, fizeram com que os empresários do setor químico rediscutissem seus planos de expansão industrial e adotassem modernas tecnologias, oferecendo segurança para os trabalhadores da indústria e para a população de Maceió e Marechal Deodoro.

Rubens Jambo esteve presente em todos esses momentos da luta ambientalista alagoana.

Rubens Jambo numa reunião do PSB

Impeachment

Em 13 de setembro de 1957, uma sexta-feira, a Assembleia Legislativa de Alagoas foi palco de sangrenta batalha política. A sessão, que teria na ordem do dia a apreciação do processo de impeachment do governador Sebastião Marinho Muniz Falcão pelos deputados, deixou como saldo um morto, o deputado Humberto Mendes, presidente da Casa e sogro do governador, e seis feridos: os deputados Carlos Gomes, José Afonso, Virgílio Barbosa e José Onias; o funcionário Jorge Damaso e o jornalista carioca Márcio Moreira Alves, repórter do jornal Correio da Manhã, enviado especial a Alagoas para realizar a cobertura dos acontecimentos que estavam despertando a atenção da mídia nacional.

O jornalista Rubens Jambo foi um dos que presenciaram as cenas violentas e sangrentas no plenário da Assembleia Legislativa. Naquela sexta-feira trágica, redator de atas, portanto, funcionário da Assembleia, cedeu gentilmente a cadeira em que se sentava diariamente ao jovem jornalista carioca Márcio Moreira Alves, para melhor realizar o seu trabalho como repórter. Nesse lugar onde estava sentado é que foi alvejado por um dos milhares de balas que foram disparadas no plenário da Assembleia Legislativa.

Em 1989, trinta e dois anos depois, o jornalista Rubens Jambo, fez essa revelação numa entrevista histórica à revista Última Palavra:

“A bala que atingiu e matou o deputado Humberto Mendes foi disparada do revólver do deputado Virgilio Barbosa. A inédita revelação é contada no livro Auto de Confissão de Julinha Coró através de comentários de companheiros de Julinha Coró. […] O alerta para o tiro em Humberto Mendes, recorda Jambo, foi dado ao deputado Virgilio Barbosa pelo deputado José Onias, que saiu ferido, com um tiro no pulmão, e na confusão terminou embaixo de um birô.”

O golpe udenista montado contra o governador Muniz Falcão foi revertido pelo Tribunal Misto, na histórica sessão de 11 de dezembro de 1957, com o tribunal composto por desembargadores e deputados. O resultado foi 6 votos favoráveis ao governador e 4 votos contra, ou seja, a favor do impeachment. O retorno de Muniz Falcão ao cargo de governador de Alagoas aconteceu no dia 24 de janeiro de 1958.

A morte

Roberto Rubens Paranhos Jambo faleceu na Santa Casa de Misericórdia de Maceió no dia 15 de março de 2010 e foi sepultado no cemitério de Nossa Senhora da Piedade, no dia seguinte.

Fonte:

Jambo, Rubens. Manuscritos Alagoensis ou Epístolas das Alagoas – O Lela. Maceió, Edufal, 1985, p. 10.
Jambo, Rubens. Magnólia, meu carrasco. Maceió, Edufal, 2006, p. 9
Revista Última Palavra, ano 2, nº 54, de 20 a 26 de janeiro de 1989, p. 5 e 6.
Entrevista concedida pelo autor em 20 de novembro de 2009.
Tenório, Douglas Apratto. A Tragédia do Populismo – O impeachment de Muniz Falcão. Maceió, Edufal, 1995, p. 260.
Arquivo do Autor.

 

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1 comentário

  1. Conheci e convivi com Rubens Jambo. Tomamos muito caldinho de camarão no centro de Maceió. Sua mulher, Lurdinha Vieira, era prima de meu pai, Paulo Costa. Uma pioneira na fundação da APAE. Jambo tinha um disco compacto com gravação de “As Mãos de Eurídice”, na voz do célebre ator Rodolfo Meyer. Escutei várias vezes. Uma jóia peciosa. Em 1979, com ajuda dele, fiz a redação do Estatuto da Federação Alagoana de Teatro, que tinha como diretores o Jorge Barbosa (Sebage) e a Gal Monteiro. Era um bom papo, regado a uma boa cerveja, e suas tiradas irônicas faziam-me ir às gargalhadas. Um intelectual despojado, desprovido de vaidades.

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