180 GRAUS

Um cheiro insuportável de fezes, que lembrava uma pocilga ou o que tem na cabeça de alguns produtores

0
Por Mácleim Carneiro

Lembro-me que nas vezes em que participei do Montreux Jazz Festival Off, percebi que a mesma estrutura de som, que havia nas salas principais do festival, também era disponibilizada para os palcos onde aconteciam os shows do Montreux Off. Ou seja, artistas de menor expressão tinham, no palco e no back stage, as mesmas condições técnicas que as estrelas do festival.

Corta! Voltemos à nossa dura e cruel realidade.

Recordo-me, também, que numa sexta-feira, 31 de março, do ano de 2006 do calendário cristão, um dia antes do primeiro de abril, ou seja, ainda não era o dia da mentira, os artistas que faziam o show Alagoas de Corpo e Alma foram convocados para uma apresentação na Praça dos Martírios. Aliás, nome mais que apropriado ao que lá aconteceu.

Diferenças Perniciosas

Nos foi dito que faríamos a abertura da noite para o carioca Jorge Aragão. Até aí tudo bem. Chegando lá, no horário combinado, descobri que havia dois palcos (o que já era estranho) com enormes diferenças entre eles. Diferenças gritantes, que iam muito além da música que foi apresentada em ambos. Ao menos, para mim, ficou evidente a diferença maldosa, resultante da conceituação de valores errôneos, que ainda se repetem hoje em dia, e que são estabelecidos no trato ao artista de fora em detrimento ao artista local.


Um palco ficava de frente para o outro. Um, a zombar do outro! Um, de tão despreparado, chegava a ser desrespeitoso com quem fosse utilizá-lo. O outro, era imponente, tinha camarim e era equipado com toda estrutura para o bom desempenho de qualquer artista. Chegava a ser pernicioso vê-lo, lá, intocável, literalmente intocável, para os pobres artistas locais. Fiquei imaginando o que se passava na cabeça tosca desses produtores a serviço da gestão pública. Que tipo de indelicadeza e insensibilidade permite que artistas como Nelson da Rabeca, Tororó do Rojão (de saudosa memória), Leureny, Wilma Miranda, só para citar alguns, com uma longa lista de serviços prestados à cultura de Alagoas, não merecessem sequer um camarim e ficassem ao relento, expostos ao público, antes de suas apresentações, sentados em uma arquibancada suja, num local infecto, com um cheiro insuportável de fezes, que lembrava uma pocilga ou o que tem na cabeça daqueles tais produtores?

Mico Pela Última Vez

Enquanto isso, no outro palco, um enorme camarim irretocável e intocável, certamente, com todo o conforto necessário para qualquer artista se sentir respeitado. Como se não bastasse tanta humilhação pública, as condições técnicas do nosso palco eram surreais. Por exemplo, eu já estive em festinhas de aniversário de crianças, onde a iluminação era mil vezes melhor do que a que tínhamos naquele palco.

É fato que o público alagoano tem uma resistência natural aos artistas locais, coisas do umbigo, historicamente explicável, atávica e etc, etc, etc… Porém, o fato é que essa situação foi reforçada, naquela noite, e num raio de apenas 50 metros, a exata distância entre um palco e outro. Afinal, era perfeitamente lógico que o público fizesse uma comparação imediata entre a penúria dos pobres artistas locais em contraponto ao palco do artista de fora. Para tanto, bastava apenas uma rotação de 180 graus. De um lado, à visão do desrespeito, da ignorância e da nossa submissão. Do outro, tudo perfeito, tudo como deve ser, com a dignidade necessária para que qualquer artista brasileiro pudesse trabalhar. Daí, imagino qual deve ter sido a conclusão e avaliação do público, ao comparar o nosso show ao show do Jorge Aragão…

Sim, à época, admiti minha culpa. Estive lá e, mais uma vez, resolvi cumprir com a palavra empenhada. Fiz a minha parte! Porém, prometi a mim mesmo que pagaria aquele mico pela última vez.

No +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!!!

Banner

Deixe uma resposta