BENZEDEIRAS, BENZEDEIROS: IMAGINÁRIO E REPRESENTAÇÃO (1)

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Por Gilvan Gomes

 

Fonte: www.imirante.com

(1) Pe. Gilvan Gomes das Neves

No nosso catolicismo popular há um personagem de vital importância para as comunidades mais remotas, distante dos grandes centros: as benzedeiras e benzedeiros (2). Em Anadia, cresci sendo levado para se curar de mau-olhado (3) , espinhela caída (4) e outros males. Lembro-me de minha avó paterna, Ana Maria das Neves, tia rezadeira das boas, Tia Luze, como ainda D. Zezé do Paulo Lafungaça, Mestre Lula, o carroceiro, dentre tantos outros.

O ato da benção popular faz parte da vida cotidiana do povo. A benzedeira cura com benzeção. Este gesto de solidariedade popular é vivido em ambiente popular é vivido no ambiente familiar. As orações da benzeção pertencem à tradição oral, e não aprendidas nos livros; fazem parte de todo um complexo de tradições da cultura popular, especificamente em sua dimensão sagrada; o rezador usa objetos como: cruz, rosário, cinco-salomão, raminhos, agulha e pano.

Curam-se crianças, adultos e animais, à exceção de porcos e burros. Durante a cura não é permitido ao doente cruzar os braços ou as pernas. A benzeção tradicional passa por dificuldades devido a mudanças na estrutura familiar, na qual a benzeção é transmitida e exercida.

O objetivo deste trabalho de pesquisa é analisar a partir da figura dos nossos benzedeiros(as), os conceitos de imaginário e representação. Tendo como o foco da referida investigação é considerar as práticas religiosas de benzeção sob o olhar de uma cultura do imaginário e da representação social de cura.

SOBRE OS CONEITOS DE IMAGINÁRIO:

A expressão “imaginário” é uma variação que é recentemente utilizada no meio científico. Para Wunenburger (2007, p. 7) compreende “lembrança, fantasia, sonho, devaneio, crença, romance, mito e ficção. Acreditamos que a ocorrência da palavra ter conseguido essa grande expressão mundial foi devida a insatisfação que se tinha com o termo “imaginação” ser limitado, não conseguir abarcar algumas realidades dentro do campo teórico.

Segundo Wunenburg (2007, p8) o termo possui cinco vertentes, sendo a primeira, a ideia de mentalidade, servindo à designação histórica de algo. Na mitologia tem relação com o conjunto de relatos culturais. Imaginário tem ainda relação com ideologia (5) enquanto concepção marxista que identifica na realidade uma intencionalidade não positiva a qual impera sobre os indivíduos. Por fim, imaginário é uma realidade ficcional e ao mesmo tempo temática que destaca matéria e forma das obras artísticas e literárias.

Nesse contexto, pode-se refletir o pensamento de Silva (2011, p. 25):

O imaginário funciona, sobretudo como fecundador e organizador da vida dos homens, como instância de mediação na relação do homem consigo mesmo, com o outro, com o mundo. Atua igualmente como uma rede ou sistema de relações, ou seja, um sistema dinâmico e organizador de imagens, no qual há plena integração e livre circulação entre a vida racional e a via imaginária.

Quer dizer, dormindo ou acordados os homens utilizam seu pensamento para pensar, ou seja, imaginar lógicas para o real, situar e orientar sua vida. Isso porque a maneira como vemos a realidade é uma forma representativa, ou seja, de atribuição de valor e expectativas sobre o real.

Ainda, para Wunenburger (2007, p. 10), o termo pode ser analisado a partir de seus contrários que são o real e o simbólico . A realidade não é conhecida ou dita, ela é imaginada, ou substituída por símbolos criados específicamente para que o homem se localize no Cosmo.

Consoante com Silva (2011, p. 55):

Imaginação corresponde a Imaginário, sendo ambos os termos sinônimos. A primeira é faculdade de formar imagens fornecidas pela percepção, faculdade essa que pode libertar-nos da sedução das imagens primeiras, transformando-as em nosso psiquismo, visto manter-se sempre aberta, evasiva, experiência mesma da abertura, da novidade, soma de nossas experiências.

Feita essa distinção, busca-se situar melhor o conceito de imaginário. Para Wunenburger (2007, p. 12) o imaginário é uma noção holística ou da totalidade representada que necessita ganhar uma certa visibilidade. O imaginário compreende, temas, motivos, intrigas, cenários, tempo, espaço, personagem e ação.

No próximo artigo iremos articular o simbolismo com o imaginário para situarmos melhor o fenômeno das nossas benzedeiras e benzedeiros.

1-Mestre e Doutor em Ciências da Religião pela UNICAP. E-mail: Gilvan.neves@uol.com.br

2-O mesmo que rezador. O benzedor tem que saber as orações, fé, dom de Deus e confiança na comunidade no benzedor.

3-Também chamado olhado, olho ruim, olho gordo e olho mau. Força negativa que enfraquece a pessoa e faz adoecer de quebranto (POEL, 2013, 622).

4-Para alguns, o mesmo que peito aberto (PE). Espinhela é conceito usado na medicina antiga. “No Brasil o conceito da espinhela caída existia entre os ameríndios antes da invasão civilizadora” (SÃO PAULO, 1936, p. 358).

5- A ideologia, contudo, guarda sempre um viés bastante racional. Não há quase lugar para o não-racional no olhar ideológico. No fundo do ideológico há sempre uma interpretação, uma explicação, uma elucidação, uma tentativa de argumentação capaz de explicitar. Há algo, racional, que derivará da aplicação da noção de ideologia (MAFFESOLI, 2011, s.p).

REFERÊNCIAS:

MAFFESOLI, Michel. O imaginário é uma realidade. Revista FAMECOS, Porto Alegre, nº 15, agosto, 2015.
SILVA, Luzia Batista de Oliveira. Cecília Meireles imaginário, poesia e educação. São Paulo: Terceira Margem, 2011.
VAN DER POEL, Francisco. Dicionário da Religiosidade popular. Curitiba: Nossa Cultura, 2013.
WUNENBURGER, Jean-Jacques. O imaginário. São Paulo: Loyola, 2007.

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