TRATO CUMPRIDO

Mesmo que parecesse ser tarde demais, não o era para mim

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Por Mácleim Carneiro

O poeta Gonzaga Leão

Quando tive a ideia de musicar poetas alagoanos, eu não sabia quase nada sobre a poesia caeté e seus autores. Com exceção dos ícones e de alguns poetas amigos e próximos, encontrava-me diante de um oceano de possibilidades, porém, como um navegador inexperiente numa boca de barra, que precisa saber o ponto certo para apontar a proa do barco e atravessar sem correr o risco de naufragar, antes de alcançar o mar. Diante da minha limitação, que impossibilitaria chegar aonde cheguei com o ‘Esses Poetas’, por sorte, tive a cautela dos que têm a apreensão da responsabilidade inerente ao manejo de algo tão intenso, delicado e precioso como são a poesia alheia e o mar. Assim, socorri-me da compreensão e generosidade de dois amigos e grandes poetas, Sidney Wanderley e Otávio Cabral, que me prestaram uma espécie de consultoria e foram quadrantes, astrolábios precisos, na aventura mar adentro da poesia alagoana!

Foi assim que fui apresentado à obra do grande Gonzaga Leão, cada vez mais querido em mim! Lembro-me, também, que o conheci pessoalmente de forma casual, na Iluminuras – uma agradável aventura empresarial do meu querido poeta viçosense! Para minha felicidade, logo soube que Gonzaga e eu dividíamos a beira do mesmo rio, o Mundaú, e só não éramos vizinhos fronteiriços, porque Branquinha, município equidistante entre Murici e União dos Palmares, delimitava, ao norte, o mestre com toda a tradição poética de sua terra natal, e, ao sul, um propositor sem tradição nenhuma, todavia afoito o suficiente para, humildemente, ousar despertar a música contida na poesia maravilhosa de um poeta maior.

Anjo Corré

De posse do delicioso e precioso ‘Casa Somente Canto Casa Somente Palavra’, além de alguns poemas inéditos, que o Sidney Wanderley me emprestou, nunca me pareceu tão justa a metáfora “um oceano de possibilidades”, bem como nunca foi tão cruel e difícil o processo da escolha. Li, reli, treli tudo até optar por Ao Meu Anjo da Guarda, que me fisgou pelos versos: “Só volta de madrugada / Asas debaixo dos braços / Cheirando a puta e a cachaça”. À época, era um soneto inédito, que só foi lançado no último livro do poeta, ‘Tijolo sobre tijolo, palavra sobre palavra’, coincidentemente, em 2012, mesmo ano do lançamento do álbum ‘Esses Poetas’. Até então, eu não fazia a menor ideia do que esse anjo torto, generoso e cúmplice, iria me proporcionar musicalmente e, posteriormente, toda felicidade e emoção que me ofertaria, já em conluio dadivoso com esse mero propositor. Assim, nasceu uma bossa matreira, com a malemolência de um anjo comparte e corré, além, claro, da minha honrosa parceria com o querido e saudoso mestre Gonzaga Leão.

Gonzaga Leão

O tempo passou e não tive mais nenhum contato presencial com o poeta, apenas por telefone, durante a fase de liberação dos poemas para a gravação do ‘Esses Poetas’. Porém, mesmo por telefone, sempre foram momentos de extrema gentileza e profunda generosidade dele, sobre tudo, ao dar o seu aval para a nossa parceria, demonstrando um sincero consentimento de felicidade e aprovação, após ouvir a gravação de Ao Meu Anjo da Guarda. Mas o poeta e seu anjo ainda me reservavam um momento de extrema emoção e, dessa vez, ao vivo e em cores.

Emoções na Ribalta

Quando do lançamento do ‘Esses Poetas’, no Teatro Deodoro, fiquei sabendo, por meio da minha querida conterrânea Edilma Bomfim, que o poeta se encontrava bastante debilitado e, certamente, não poderia comparecer ao show de lançamento. No entanto, prestes a entrar no palco, fui informado que ele estava na plateia e que fizera o sacrifício de se fazer presente ao lançamento do álbum, que sequer ele havia recebido ainda, pois embora tivéssemos marcado algumas vezes para a entrega, até a sua morte isso nunca aconteceu! Lembro-me, nitidamente, que fiquei bastante emocionado ao saber do seu comparecimento e tamanha deferência e generosidade para comigo. Então, após apresentar Ao Meu Anjo da Guarda, com a participação mais que especial da minha diva Leureny Barbosa, pedi que a luz de plateia fosse acesa, para que o público e eu visualizássemos o poeta e pudéssemos aplaudi-lo e agradecê-lo pela honrosa presença e pelo tanto da sua obra ali ofertada.

Mas a história não acaba aqui! Continuamos a marcar encontros, que nunca aconteceram, para que eu pudesse lhe entregar o ‘Esses Poetas’, devidamente autografado. Até que, seis anos após o lançamento do álbum e da minha emoção no Teatro Deodoro, outros sentimentos se fizeram em mim, também de maneira marcante. Dessa vez, postumamente! Mesmo que parecesse ser tarde demais, não o era para mim! Foi quando, finalmente, reencontrei o poeta pela última vez, placidamente adormecido e cercado de suas poesias, sonetos e pessoas que lhes foram queridas em vida. Sim, eu estava no velório do Poeta Luiz Gonzaga Leão, para minha última homenagem particular, sincera e silenciosa. Enfim, pude cumprir o nosso trato tantas vezes combinado. Entreguei o ‘Esses Poetas’ à sua companheira, absolutamente convicto de que o poeta se tornara imortal!

No +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!!!

 

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