MARÉ DE SIZÍGIA

Dependendo do ponto de vista, os oceanos unem ao invés de separar, por mais que a frase “um oceano entre nós” pareça uma imensidão.

0
Por Mácleim Carneiro

 

 

Conheci Camila Inês pelos caminhos do jazz, com o álbum Jazzmine, repleto de standards do gênero. Já àquela altura, a intérprete cheia de expressividade, que demonstrava absoluta desenvoltura num repertório para poucos e bons, passou a ser figura constante no meu horário de programação na Rádio Educativa FM. Agora, ela lança o seu quarto trabalho fonográfico, com o sugestivo nome ‘Gotas de Oceano’. Dependendo do ponto de vista, os oceanos unem ao invés de separar, por mais que a frase “um oceano entre nós” pareça uma imensidão. Por isso, Gotas de Oceano tem me inundado de contemplação e comovido a cada audição, como uma preamar de sizígia, arrebatadora por direito e poder.

Nascida em Pernambuco e radicada em Brasília, Camilla Inês teceu a trama desse novo trabalho quase toda em Portugal, onde compôs a maioria das canções. Hoje, Gotas de Oceano vem ratificar ter sido uma temporada profícua e altamente proveitosa. Aliás, parece que o fato de estar em Portugal, faz com que alguns compositores brasileiros percebam ou tenham uma relação maior com o mar. Foi o caso, também, do meu querido Fred Martins, com o seu belíssimo Ultramarino.

Produção Antenada

Gotas de Oceano é um trabalho com algumas peculiaridades bem singulares. Primeiro, fazendo uma rápida analogia com algumas assertivas do escritor norueguês Karl Ove Knausgard, sobre editores literários, eu diria que o trabalho de um bom produtor musical, ocorre como que na sombra projetada pelo artista, pois o trabalho do produtor é exercer influência, não em nome do que é melhor para si, nem em nome do que é melhor para o artista, mas em nome do que é melhor para o álbum. E tudo isso sem extrapolar limites, uma vez que o que faz a extrapolação de um limite é tornar o limite visível. Então, Camila Inês foi atinada ao escolher como produtor e arranjador Swami Jr, um músico versátil, que sabe transitar por diferentes gêneros musicais, que vão do chorinho à música caipira, passando pelo jazz e até mesmo a música cubana. A grande sacada foi entender que esse é um trabalho no qual as composições falam por si mesmas. Portanto, apresentam uma Camila absolutamente autoral, compositora inspirada em letras e melodias, como ela mesma diz: “Essas foram comigo mesma.” Os arranjos e a produção de Swamir Jr., sabiamente, demonstraram total compreensão dessas características.

E tudo começa em Contra-o-Ponto, música dançante e swingada, que, de cara, nos parece um tanto retrô, tipo meados da década de 1970, no auge da música disco (discothèque, em francês), não apenas pela pegada rítmica, mas pelo som vintage da bateria, que nos remete às programações das baterias eletrônicas Roland. Para combinar, o timbre dos metais também é bem característico dessa época. Na sequência, Morena é uma toada dolente, não no sentido de mágoas, mas revisionista dos rastros que deixamos pela vida. Ela quebra o clima anterior e pontua maravilhosamente bem o acordeon de Mestrinho do Acordeon, em toda a sua sutil musicalidade, em perfeita comunhão com o que a bela toada sugere e o canto camaleônico de Camila Inês ressalta em expressividade.

Temática Marítima

Vã Filosofia mantém a atmosfera minimalista da música anterior, porém, com o violão de Swamir Jr. e o delicado e preciso piano de Tiago Costa oferecendo toda sofisticação merecida a essa bela bossa ou samba canção, cuja letra parece ser um autorretrato declaratório das vãs, ou não, tentativas do amor geograficamente distante. Swamir Jr. também empresta o dom da sua voz, cantando como se essa música, em sua gênese, tivesse sido pensada para os dois. Quando chegamos à quarta faixa, Tudo é Fugaz, percebemos o quanto esse título é sugestivo, pois já esta…

Deixe uma resposta