sexta-feira 14 de junho de 2024

O HOMEM QUE ENGOLIU O PATRIMÔNIO

3 de agosto de 2021 4:46 por Adelmo Marques Luz

 

Seu Odílio havia chegado aos noventa anos. Talvez um pouco mais. Nascido e criado na Zona da Mata, de onde jamais se afastou, exceto quando caiu gravemente enfermo e as mezinhas de um curandeiro afamado da região já não surtiam efeito. A iniciativa de buscar amparo nas clínicas da capital não foi sua, mas da família, quando a doença progrediu e o impossibilitou de dirigir sua pessoa e seus bens. Senhorio de um patrimônio rentável e diversificado, construído à base de asfixiantes economias, soube como ninguém multiplicar o que acumulou ao longo de pesados anos de labuta. Sua obstinação e avareza o fizeram adotar comportamentos excêntricos. Afirmam seus contemporâneos que quando jovem costumava empilhar no fundo do quintal toda espécie de bugigangas. Apropriava-se do lixo sem o menor constrangimento. Era comum vê-lo chafurdando nos monturos à procura do inservível. Frascos, latas, pregos, parafusos, arame, em tudo vislumbrava utilidade. Vangloriava-se em afirmar que o primeiro imóvel, no qual constituiu família, foi edificado com o capital que coletou nas ruas. Não tolerava o desperdício. O que para muitos não tinha serventia, para ele era matéria- prima.

Passaram-se os anos, e nada melhor que o tempo para operar transformações. A vida do velho mudou quando ascendeu ao status de comerciante. Principiou montando uma mercearia. Daí à agiotagem. Nessas frias transações, além de cobrar juros extorsivos, condicionava o empréstimo a garantias privilegiadas. “O seguro morreu de velho”, defendia-se. Ao adquirir a primeira porção de terra, cuidou em reservar uma parte à criação de gado, e à outra, ao plantio da cana-de-açúcar. O comedimento que adotava nas ações mercantilistas resguardava-o do calote. Jamais concedeu anistia aos devedores, e aos credores, que eram raros, o cabimento de notificá-lo por um dia sequer de atraso. Manuseava seus negócios com precisão matemática. Invadia a madrugada calcinando o juízo com exaustivas anotações, estimando lucros e antecipando-se aos prejuízos. Apesar de nunca ter frequentado a escola, aprendeu, com o auxílio de uma tia-avó, a ler e escrever. Desde então, nunca mais se afastou dos livros e recorria à literatura como sonífero.

Conheci-o já enfermo quando meus pais visitaram-no em Maceió. Lembro-me de uma linda casa com muitas janelas, em estilo colonial, cercada por um jardim florido de onde exalava o cheiro do jasmim. Localizava-se na esquina de uma rua que corta a região central da cidade. À época eu era um garoto que usava calça curta e suspensórios, e ainda não tivera a oportunidade de vivenciar semelhante experiência. Fomos recebidos por suas filhas, todas solteironas. Exceto uma, a mais nova, que era casada e que não se fazia presente. Seu único filho, o varão, com quem o velho mal falava, também não estava, mas aguardavam-no juntamente com a irmã ausente e o esposo para o jantar. A matriarca havia falecido precocemente, e Seu Odílio enterrou junto com a defunta a possibilidade de um novo matrimônio. O filho chamava-se Dirceu, em quem o velho depositou suas esperanças para sucedê-lo nos negócios, mas Dirceu era avesso aos compromissos, nem havia concluído os estudos. Boêmio, trocava o dia pela noitee mantinha relações com pessoas de péssima reputação, com quem adquiriu hábitos condenáveis, que requeriam dispêndio.

A caminho da alcova que ficava no final do corredor, acheguei-me ao meu pai e segurei-lhe a mão. Sentia medo. Ao adentrarmos, reparei logo na cabeleira repleta de fios brancos do paciente. O velho olhou-nos de esguelha, mas não esboçou nenhuma atitude. Permaneceu inerte e mudo como se a nossa presença lhe fosse indiferente. Nunca imaginei deparar-me com um ser a quem eram atribuídas prerrogativas de autoridade e o privilégio da fartura, prostrado em cima de uma cama, raquítico, escorado com almofadas, lacrado num ambiente sonolento onde predominava o cheiro dos remédios.

O silêncio foi quebrado por uma de suas filhas, a Dalva, que se apressou em nos anunciar:

– Temos visita, papai. Seu amigo Manuel e família estão aqui.

As filhas ajudaram-no a descer do leito, o que lhe exigiu um grande esforço, para acomodá-lo numa cadeira de rodas. A realidade dos sofrimentos que lhe tirava o apetite encarregava-se de desvanecer qualquer esperança de cura. O velho resvalou os olhos vagarosamente pelo quarto para fixá-los em mim, como se estivesse contemplando o frescor da minha verde infância:

– Quantos anos você tem?

A indagação latejou minhas têmporas, não pela pergunta em si, mas pela surpresa, que me pegou de assalto. Um leve calafrio percorreu-me o corpo, e minha mãe, vendo-me em apuros, respondeu por mim:

– Tem oito anos, Seu Odílio. Um rapaz.

Ignorou o que minha mãe lhe respondeu e disse-me com sua voz catarrenta:
– Daria tudo o que possuo a você, menino, em troca de um dos seus pulmões. Você aceitaria fazer o negócio? Olhando-o nos olhos, mas sem pronunciar uma única palavra, externei uma negativa balançando a cabeça. E ele, esboçando um sorriso preguiçoso, concluiu:

– Não leve a sério minha proposta… É compreensível que a inocência despreze o dinheiro.

A campainha tocou lá fora e alguém saiu para atender. Era o Dirceu, acompanhado da irmã casada, a Lídia, e o esposo, Marcos Sá, um cearense radicado em Alagoas, servidor da fazenda pública federal. Entraram na alcova dando boa tarde e o casal dirigiu-se ao velho para lhe pedir a bênção. Dirceu manteve-se distante e¬ deixava transparecer que algo o preocupava, pois não conseguia ficar quieto num canto. Andava em círculos, as mãos cruzadas às costas e alheio ao que se passava ao seu redor. Perdeu a paciência e saiu para o jardim, onde foi fumar.

Alegando um mal-estar provocado por uma constipação, Seu Odílio pediu que o reconduzissem à cama, antecipando-se em pedir desculpas e justificando que, por recomendação médica, era-lhe imprescindível desonerar-se dos gases que lhe alfinetavam o intestino. E assim o fez por meio de desabridas e sonoras flatulências. Não contive a riso, o que me valeu uma breve reprimenda acompanhada de um cocorote aplicado por meu pai.

Quando todos se encontravam no quarto, o velho sugeriu a permanência do meu pai na reunião, cuja pauta ignorava-se, para que servisse como testemunha. Aqui se faz necessário esclarecer o leitor que a consideração existente entre eles remontava à época em que trabalharam juntos. Na qualidade de contador respondeu, durante muitos anos, pela escrituração mercantil das empresas do ancião. Embora não houvesse mais entre ambos nenhuma relação de cunho profissional, a amizade permaneceu sadia e inabalável.

Recostado na cabeceira da cama, onde se acomodou, enfim o velho principiou a falar sobre o motivo da convocação. Incisivo, disse ter receio de que depois de sua morte seus filhos dilapidassem o patrimônio, e que para ele isso era motivo de angustiosas preocupações. Sem tecer maiores comentários, admitiu já ter providenciado seu ato de última vontade, por meio do qual deixou traçadas diretrizes sobre assuntos pouco importantes, como despesas relativas ao seu funeral, esmolas e doações de pequena monta. Com relação ao destino que daria aos bens de substancial valor econômico… Bem, quanto a isso tergiversou, mas confessou haver adrede concebido um plano que iria surpreender a todos.

– A vida é cheia de surpresas, não é mesmo? Às vezes inimagináveis…

Depois de fazer uma breve pausa, prosseguiu corrosivo:

– Todos sabem que depois da morte de uma pessoa que possui bens, abre-se a sucessão com o objetivo de que sejam transmitidas as propriedades do falecido aos seus herdeiros. Em outras palavras, a herança. Mas como toda regra tem exceção… No meu caso, por exemplo, eu lhes garanto: abrir-se-ia a sucessão. Sim, porque quem imaginou poder tomar posse do que é meu, enganou-se. O destino que darei ao meu patrimônio independe da vontade da lei. Dizia isso numa obstinação perversa, como a querer embaraçar o espírito dos filhos. E, implacável, continuou:

– Você, Dirceu, diz que eu sou rancoroso. A verdade é que não existe entre nós nenhum sentimento de união, tampouco reciprocidade de interesses. O que lhe convém é a minha morte, por razões óbvias. E a mim, deserdá-lo da herança, assim como suas irmãs, embora, como já disse, não tenha tomado nenhuma providência legal nesse sentido, que seria por meio de um testamento. Farei pior… O fato é que se você tivesse juízo estaria à frente dos negócios e assumiria o comando. Mas é um depravado!

– E suas filhas, perguntou-lhe Dirceu, o que têm com isso? São elas, por acaso, perdulárias? – Não, não são, até porque não têm um pau para bater num gato. E por acaso você acha que eu acredito na sinceridade dos seus sentimentos? Ora, onde se já viu afeto em abraço de tamanduá? Pensam que me enganam lamentando minha morte. No fundo, fazem figa para que ela aconteça. As lágrimas dos herdeiros se fazem risos sob a máscara, já dizia o filósofo.

– O senhor está sendo injusto com elas, disse-lhe o filho.

– Pode ser, mas quem foi justo comigo? – retrucou o velho. Fiquei rico, é verdade, mas perdi meus pais e irmãos logo cedo, levados pela varíola. Minha mulher, coitada, de quem vocês nem se lembram, foi fulminada pelo tétano. Restaram-me os filhos, que me velam com um olho, e com o outro cobiçam minha riqueza. Ultimamente tenho ouvido vocês à porta do quarto, zumbindo segredinhos. Certamente fazendo prognósticos pessimistas sobre o tempo de vida que me resta. Já devem até ter ajustado o quinhão que caberá a cada um na partilha daquilo que não lhes custou um dia de esforço. Moscas é o que vocês são!

Apesar da consideração que lhes era dispensada naquele meio, meus pais permaneceram à margem dos acontecimentos. Receavam intrometer-se numa contenda que não lhes dizia respeito, sem correr o risco de envolverem-se em remoques indesejáveis. Foi então que uma das filhas resolveu interceder, na vã tentativa de apaziguar os ânimos:

– Pai, sua missão na terra já foi cumprida. Arrependa-se dos pecados cometidos e garanta a sua salvação.

–Não, minha missão não terminou, ainda estou vivo, vivo! E batia na testa exangue com a mão descarnada e trêmula. Arrepender-me…! De quê? De ter trabalhado oitenta anos e construído um império? Aponte-me, então, um homem que tenha se arrependido de ter ficado rico! Todos se entreolhavam em silêncio e não escondiam a perplexidade que lhes causava aquela conversa despropositada. Afinal, aonde ele queria chegar? Refeito de uma crise de tosse que se apossou do seu peito oco, prosseguiu:

-Conheci alguns calhordas que foram contemplados pela sorte. Herdaram fortunas incalculáveis. Mas queimaram tudo. Adulados no passado pelo padrão que exibiam, hoje imploram crédito na padaria. Alguém aqui tem conhecimento de estupidez semelhante?

– Eu, disse-lhe Dirceu, conheço um que faz pior.

– Quem? – perguntou-lhe o pai, demonstrando irritação.

– O senhor, que trabalhou feito uma mula e…

– Entendi… Entendi… Está me dizendo que fui um idiota por ter matado a fome engolindo cinzas para que você pudesse viver, depois da minha morte, na opulência, acendendo charutos cubanos com notas graúdas, acompanhado de mulheres conquistadas a peso de ouro. Pois saiba que não abrirei meu cofre, ao qual você nunca terá ingresso, para bancar esse tipo de bandalheira. Recuso-me a regar com meu sangue libações dionisíacas, alimentando a sede de morcegos da sua espécie. E por falar em cofre, quero preveni-lo de que ordenei jogá-lo em mar aberto. Agora é botija. Dele só restou esta peça que levarei comigo para o outro mundo.

Retirou do bolso do pijama listrado a chave, que não perdia de vista. Levantou-a na altura do rosto, contemplando-a, e ao cabo de instantes engoliu-a como se faz com as espadas no picadeiro do circo. Guardou para sempre nas entranhas, como um fiel depositário, a senha que sua insana consciência imaginou ser o único meio de negar o acesso dos herdeiros aos seus castelos edificados sob a areia fina, que escorreu durante noventa anos através da ampulheta que mediu sua vida.

Foi uma correria dos diabos. Ouviam-se vozes inarticuladas a pedir socorro. As filhas, tomadas pelo desespero, aplicaram-lhe tapas às costas, e uma delas enfiou-lhe os dedos na boca, de onde escorria saliva, para extrair-lhe o objeto que lhe entalava a garganta. O filho intercedeu fazendo uso da força e, contando com a ajuda do meu pai e do cunhado, agarrou o velho pelo tronco e o virou de cabeça para baixo, sacolejando-o repetidas vezes como se faz com uma garrafa de onde se quer expulsar uma rolha. Inútil. Devolveram¬-no, então, ao leito. O moribundo, com os cabelos em desalinho, revirava os olhos, agitava os membros, debatendo-se até que suas forças esmoreceram definitivamente. A vida o havia abandonado.

Creio ter sido o único que não se dispôs a ajudar. Mesmo que o quisesse, não saberia como nem a quem oferecer os meus préstimos. Em meio ao ruge-ruge, postei-me no fundo do quarto temendo ser atropelado por quem entrava e saía em busca de uma solução urgente que o caso exigia. O padre da família havia chegado para o jantar, e a desgraça o pegou de surpresa. Entrou no quarto acompanhado por uma das filhas, aproximou-se do velho e constatou o que já lhe haviam dito lá fora. Restou ao sacerdote encomendar o corpo que estava a jazer, inanimado, pálido como um boneco de cera.

Eis a saga de um homem, cuja trajetória teve início recolhendo sucatas para fazer dinheiro, e no final da vida, dominado pela demência senil, “tragou o patrimônio”, numa demonstração absurda de que levava consigo para o túmulo seus bens, assim como o faria um faraó do antigo Egito.

Adelmo Marques Luz é advogado e escritor

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