sábado 20 de abril de 2024

AGROTÓXICOS (I)

11 de agosto de 2021 9:47 por Fátima de Sá

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil Fonte: GRIGORI (2021)

“Os dias atuais têm materializado uma agricultura do veneno, pois devido à grande flexibilização do Estado e à baixa fiscalização sanitária, o Brasil é o país que mais utiliza agrotóxicos no mundo”.

A afirmação acima é de pesquisadores (Gomes, Moraes, Moraes, 2018[i]) da UFPA e da UFAC, que efetuaram uma revisão bibliográfica de trabalhos publicados entre os anos 2004 e 2016, resultantes de dados coletados no Brasil.

Rachel Carson

Entretanto, eu quero voltar ao ano de 1962, quando a bióloga americana Rachel Carson publicou Silent Spring (Primavera Silenciosa), livro que pode ser encontrado até hoje em livrarias. Quase 60 anos de seu lançamento, e eu recomendo fortemente a sua leitura. Nele, a autora alertou o mundo sobre os perigos do mal uso dos pesticidas. E, além de ponto de partida que ampliou a discussão do tema à época, continua sendo uma referência para quem se ocupa com os problemas decorrentes do uso dos agrotóxicos. A autora inicia o livro com Uma fábula para amanhã, na qual descreve uma cidade imaginária onde ocorrem vários problemas ambientais que, de fato, já haviam sido registrados em várias comunidades reais.

“A fable for tomorrow”

Assim, Carson inicia: “Houve outrora uma cidade, no coração da América, onde a vida toda parecia viver em harmonia com o ambiente circunstante” (There was once a town in the heart of America  where all life seemed to live in harmony with its surroundings) [ii]. E segue descrevendo a vida bucólica em uma cidade do interior.

No entanto, essa vida tranquila e de belezas naturais sofreu drásticas alterações. Segue um trecho da descrição de Carson:

“Depois, uma doença estranha das plantas se espalhou pela área toda, e tudo começou a mudar. Algum mau-olhado fora atirado àquela comunidade; enfermidades misteriosas varreram os bandos de galinhas; as vacas e os carneiros adoeciam e morriam. Por toda parte se via uma sombra de morte. Os lavradores passaram a falar de muita doença em pessoas de suas famílias. Na cidade, os médicos se tinham sentido cada vez mais intrigados por novas espécies de doenças que apareciam nos seus pacientes. Registraram-se várias mortes súbitas e inexplicadas, não somente entre os adultos, mas também entre as crianças (…)”[iii]

A importância da obra de Carson

Na introdução da edição mais recente (1999) de Primavera Silenciosa, Linda Lear comentou: “Quando Carson morreu, na primavera de 1964, aos 56 anos de idade, havia dado partida a uma série de eventos que resultariam na proibição da produção doméstica do DDT e na criação de um movimento popular exigindo a proteção do meio ambiente por meio de regras estaduais e federais.”

DDT

O DDT (Diclorodifeniltricloroetano) teve suas propriedades descobertas em 1939, por um entomologista suíço (Paul Müller), e passou a ser produzido em grande escala em 1945, pois ficou bastante conhecido por ter sido utilizado na Segunda Guerra Mundial para “prevenção de tifo em soldados, que o utilizavam na pele para combate a piolhos”. A partir daí, devido ao seu baixo custo e elevada eficiência, passou a ser largamente utilizado na agropecuária. E, no Brasil, foi também usado em programas de doenças tropicais, como malária e leishmaniose visceral (D’AMATO, TORRES, MALM, 2002[iv]).

DDT no Brasil

Embora haja afirmações de que, em 1970, passou a ser proibido o uso do DDT, na revisão de literatura [recomendo aos interessados no assunto, e, neste texto, utilizo as informações científicas ali registradas]feita pelos autores acima citados, do Instituto de Biofísica da UFRJ, há a informação de que de fato, em 1/1/1970, a Suécia foi o primeiro país a banir o DDT. No entanto, no Brasil, embora tenha havido a proibição parcial do seu uso em 1971 [No artigo citado, os autores informam as portarias do Ministério da Agricultura do Brasil], vários organoclorados continuaram sendo usados para determinados fins. E, mesmo após a sua proibição em 1985, continuaram sendo permitidos em campanhas de saúde pública, “bem como em uso emergencial na agricultura, a critério do Ministério da Agricultura”. E mais: “… manteve-se a permissão do uso de iscas formicidas à base de aldrin e dodecacloro, e do uso de cupinicidas à base de aldrin para reflorestamento”.

Agricultor aplicando agrotóxicos. Foto: PxHere Fonte: https://reporterbrasil.org.br/2021/06/acordo-com-uniao-europeia-vai-ampliar-uso-de-agrotoxicos-e-desmatamento-diz-pesquisadora-que-teve-de-deixar-o-brasil/
Os organoclorados e a saúde dos humanos

Dentre os malefícios causados aos seres humanos por organoclorados (DDT e metabólitos, BHC, aldrin, heptacloro, etc), entre outros, destacam-se (iv):

  1. Embora tenha baixa absorção pela pele humana, são absorvidos pelas vias digestivas e respiratórias, acumulando-se na cadeia alimentar e no tecido liposo;
  2. Atuam no sistema nervoso central;
  3. Provocam convulsões, paralisia e morte;
  4. A intoxicação aguda nos seres humanos pode levar a sintomas inespecíficos, como dor de cabeça, tonturas, convulsões, insuficiência respiratória e até morte;
  5. Após 2h, em casos de intoxicação aguda, os sintomas neurológicos de hiperexcitabilidade, parestesia na língua, lábios e membros inferiores, desorientação, fotofobia, cefaleias persistentes, fraqueza, vertigem, alterações do equilíbrio, tremores, convulsões, depressão central severa, coma e morte;
  6. Em caso de inalação, entre outros, podem ocorrer os seguintes sintomas: tosse, rouquidão, edema pulmonar, irritação laringotraqueal, hipertensão e broncopneumonia (este é um sintoma muito frequente).
Manifestações crônicas

As manifestações crônicas são ainda mais comuns e consistem, entre outras, lesões hepáticas e renais, além de arritmias. Estudos de laboratório, em camundongos, mostraram que há a potencialização da divisão de células neoplásicas e ativação de substâncias carcinogênicas. Os efeitos dos organoclorados sobre os seres humanos, especialmente, perturbações sobre o funcionamento do fígado, já foram relatados em 1962, por Carson (Capítulos 12, 13 e 14 da edição por mim consultada), que comentou resultados de pesquisas médicas efetuadas até aquela data.

Nem tudo é o que parece …

Uma das tantas explicações que continuam atuais: “A exposição do ser humano às substâncias produtoras de câncer (inclusive aos pesticidas) é incontrolada; e tem formas múltiplas. Um indivíduo pode passar por muitas exposições diferente à mesma substância química. O arsênico fornece o exemplo.” [Carson citou várias formas de exposição humana ao arsênico].

E argumentou: “É muito possível que nenhuma destas exposições, individualmente considerada, baste para precipitar a malignidade; contudo, qualquer dose supostamente ‘segura’ poderá ser suficiente para fazer inclinar-se a balança, um de cujos pratos já esteja carregado de outras doses também ‘seguras’” (p. 244).  E alertou sobre a interação de variadas substâncias químicas, ou entre um agente físico e um agente químico, que pode provocar danos ainda maiores do que cada uma isoladamente.

Bebês bebem organoclorados

Como a eliminação ocorre também através do leite materno, bebês estão bebendo doses de organoclorados diretamente do peito da mãe. Em pesquisa para o TCC do bacharelado em enfermagem na UFMS, a aluna Letícia Regina dos Santos, efetuou uma revisão integrativa nas bases de dados Science Direct e MedLine, com descritores: human milk e pesticides organoclhorine, em 17 artigos publicados no período entre 2010 e 2014. Os artigos selecionados, de acordo com os critérios adotados pela pesquisadora, resultaram de pesquisas feitas com mães residentes em áreas urbanas de países asiáticos (Turquia, China, Índia e Coreia do Sul) e europeus (Espanha, Suíça, Polônia, Croácia, República Checa e Eslováquia).

O objetivo da pesquisa foi “verificar as evidências disponíveis na literatura científica sobre contaminação do leite humano devido aos pesticidas organoclorados”. Por fim, os estudos mostraram evidências de que o leite materno das pacientes estudadas estava “contaminado por resíduos de pesticidas organoclorados”. Os principais produtos encontrados nas amostras de leite materno analisadas foram: DDT, DDE, HCH e PCB”.

Defensivos ou Agrotóxicos?

Na década de 1970, houve maior impulso ao uso do que eram chamados à época os “defensivos agrícolas”, com a conhecida “revolução verde”, que mais do que o verde da clorofila, representava (como atualmente) o verde das notas de dólar, que não chegam ao bolso daqueles trabalhadores que, de fato, manuseiam, respiram e passaram também a “consumir” os venenos utilizados na produção agrícola. Além disso, implantou-se no campo, entre pequenos agricultores, a cultura do uso dos agrotóxicos como se fosse essa a única forma de produzir alimentos.

“Nosso futuro roubado”

Por outro lado, em 1997, foi lançado nos Estados Unidos, o livro Our stolen future[v] (Nosso futuro roubado), cujo Prefácio foi escrito por Al Gore, que imediatamente percebeu nessa publicação, uma continuidade na luta iniciada por Carson:

Futuro Roubado oferece uma descrição realista e fácil de ler sobre a pesquisa científica emergente que investiga de que maneira uma ampla variedade de agentes químicos sintéticos alteram delicados sistemas hormonais. Sistemas estes que têm um papel fundamental em vários processos, desde o desenvolvimento sexual humano até a formação do comportamento e da inteligência e o funcionamento do sistema imunológico.”

Em 1999, havia no Brasil 300 princípios ativos e 2.000 formulações de agrotóxicos, segundo dados do Guia da Vigilância Epidemiológica, da Fundação Nacional (citado pela revisão realizada na UFAC). No entanto, nos últimos 21 anos, esse dado cresceu; notadamente, nos últimos dois anos, quando aumentaram as facilidades para o agronegócio, onde o agricultor é mera peça numa engrenagem que rende lucros crescentes. Lucros esses que não chegam ao bolso dos que estão na labuta do campo, e que são os primeiros a serem envenenados.

“Passando a boiada?”

Em matéria do site Repórter Brasil, publicada em 13/05/2020, Pedro Grigori, da Agência Pública, informou (https://reporterbrasil.org.br/2020/05/96-agrotoxicos-sao-aprovados-durante-a-pandemia-liberacao-e-servico-essencial/. Acesso em: 8 ago. 2021): 

“Mesmo durante a quarentena, o Governo Federal continua a aprovar novos agrotóxicos para serem vendidos no mercado brasileiro. Desde março deste ano [2020] foram publicados os registros de 118 novos produtos, sendo 84 destinados para agricultores e 34 para a indústria. No mesmo período, as empresas produtoras de pesticidas solicitaram ao Ministério da Agricultura a liberação de mais 216 produtos, que estão sendo avaliados agora pelo governo.”

O número de aprovações foi maior do que o ocorrido no mesmo período de 2019, quando 80 produtos agrotóxicos tiveram o registro publicado. O ano passado conquistou recorde histórico de aprovações de agrotóxico, com 475 novos produtos sendo liberados.

E 2020 segue o mesmo passo, com um total de 150 produtos recebendo registro desde o começo do ano.”

Fonte: GRIGORI (2021)

 

Como se vê, estamos à mercê de dirigentes que nem respeitam a legislação ambiental e optaram por deixar “passar a boiada”.  Portanto, devemos analisar com cuidado a afirmação de que o uso destas substâncias não provoca danos aos trabalhadores da agricultura.

 

Os pesticidas se deslocam…

Ainda que haja portarias, desde 1971, proibindo o uso de determinados produtos, como destacaram D’Amato, Torres e Malm na revisão citada, resíduos de pesticidas “podem ser transportados por grandes distâncias através do mundo, retidos no organismo de animais migrantes marinhos, por correntes de ar e oceânicas”.

Esses autores também destacaram os danos que os pesticidas podem causar ao meio ambiente em geral:

  1. Aqueles aplicados em lavouras, terrenos ou em processos de reflorestamento, ligam-se aos sedimentos do solo e sofrem ação de lixiviação e contaminação de águas, volatilização e contaminação do ar ou são absorvidos por micro-organismos, vegetais ou animais.
  2. Pode contaminar águas subterrâneas e águas tratadas para consumo humano;
  3. Estudo realizado em região de cultivo da cana-de-açúcar, no estado de São Paulo, mostrou que “os maiores riscos estão associados a locais onde há uso intensivo de herbicidas”.
  4. Na biota, “as taxas de acumulação variam entre as espécies, e de acordo com a concentração, as condições ambientais e o tempo de exposição”.
  5. Os organismos acumulam estes compostos a partir do meio circundante ou pelos alimentos.
  6. Nos peixes, como a absorção no meio aquático é mais rápida do que no ambiente terrestre, a bioconcentração é geralmente maior do que nos invertebrados, pois esses servem de alimento para muitas espécies de peixes. Portanto, quanto mais próximo ao topo da cadeia alimentar a espécie se encontra, maior a concentração do agrotóxico em seu organismo.
Continuaremos com o tema…

Como o assunto é extenso e há novas pesquisas mostrando os efeitos dos agrotóxicos sobre a saúde humana e do meio ambiente, e a permissividade aumentada na liberação da entrada destes produtos no Brasil (mesmo produtos proibidos na União Europeia), sem qualquer preocupação com seus efeitos sobre os trabalhadores do campo e a contaminação dos alimentos para a população em geral, voltaremos a falar sobre o tema.

[i] GOMES, A.C.S.; MORAES, L.G.S.; MORAES, C.R.S. O uso de agrotóxicos e a saúde do trabalhador rural no Brasil. ARIGÓ Revista do Grupo PET e Acadêmicos de Geografia da UFAC, v.1, n.1, p. 53-61, jul./dez. 2018.

[ii] CARSON, Rachel. Silent spring. London: Penguin Books, 2000. (Reprinted).

[iii] CARSON, R. Primavera silenciosa. Trad. Raul de Polillo. São Paulo: Melhoramentos, 1964. [Há uma edição de 2010, em português, da Ed. Gaia que, em 2013, também lançou a 1ª edição digital].

[iv] D’AMATO, C.; TORRES, J.P.M.; MALM, O.  DDT (Dicloro Difenil Tricloroetano: toxicidade e contaminação ambiental – uma revisão. Quim. Nova., v.25, n.6, p. 995-1002, 2002.

[v] COLBORN, T.; DUMANOSKI, D.; MYERS, J.P. Our stolen future: are we threatenng our fertility, intelligence, and survival? – A scientific detective story. New York: Plume/Penguin, 1997. [Há tradução para o português em edição da L&PM].

 

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2 Comentários

  • Amiga querida, como sempre amo seus artigos. Já falei antes que aprendo muito com eles. A forma didática e ao mesmo tempo suave com que você escreve me encanta. As citações que são enriquecedoras ão texto. Você me representa amiga!!

    • Oi, Noêmia

      Eu que agradeço pela leitura atenta que tu sempre dedicas aos meus textos. Este retorno é muito importante para quem escreve. Continuemos esperançando e resistindo. Abraço

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