A cidade que morreu

As cidades vão morrendo juntamente com os seus habitantes. Não são apenas os edifícios que somem para dar a outros, mais novos e impiedosamente menos belos.

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Por Braulio Leite Junior

 

Ponte de Embarque e Desembarque de Jaraguá, em Maceió. Fonte: www.historiadealagoas.com.br

As cidades vão morrendo juntamente com os seus habitantes. Não são apenas os edifícios que somem para dar a outros, mais novos e impiedosamente menos belos. Enchem-se os cemitérios de nomes, muitos teimando ser lembrados nos jazidos perpétuos. E as cidades vão também perdendo hábitos, costumes, modas. Se não houver um organismo vigilante a recolher fotos do passado, a registrar depoimentos das velhas gerações, a fixar aspectos da vida comunitária, dentro em pouco a cidade vai ficando sem historia como essas pessoas que olvidam o próprio passado, dominadas pela amnésia, vitimas da perda da memória.

Em 1959, Théo Brandão escreveria notável prefácio à obra de Félix Lima Júnior, Maceió de Outrora, volume 1, um texto que as novas gerações lerão com espanto, se se derem ao trabalho de lê-lo-falando daquela incrível Maceió “que vai paulatinamente desaparecendo, a Maceió do Grande Ponto do Mesquita, da Chapelaria do José Maria, da Porta do Sol, dos tamarindos da Praça São Benedito, dos pavilhões de madeira da Praça da Catedral, dos trapiches de Jaraguá, da Ponte de Desembarque, dos botes e alvarengas do Porto, do telégrafo semafórico da encosta do Farol, das saídas do Santíssimo, das ruas alcatifadas de folhas de pitangueira e das janelas adornadas de colchas nos dias de procissão, dos maracatus, das cavalhadas de máscaras, dos soldados do Tiro Alagoano, chapéus de feltro quebrados de lado, dos sorvetes da “Santa Laura”, das retretas na Praça Deodoro, dos negros de ganho Quatro Cantos”.

A medida que vamos lendo ou relendo mestre Théo Brandão, sentimentos vemos avivar; no peito, dolorosa saudade de tudo que passou. E nos perguntamos se daqui a cinquenta anos haverá outro Théo Brandão para recordar a movimentada cidade de hoje com os seus jornais, estações de radio e televisão, o seu trânsito já caótico, o desleixo do povo no vestir diário, o comércio desses tempos, os bancos, a expansão da cidade para as praias do norte e pelo planalto do Jacutinga, uma febre de construir, e não só de construir o novo mas também de demolir o que é velho, como se toda a própria Maceió tivesse um dia vergonha do que foi e só quisesse ser inteiramente futuro, inteiramente porvir.

(*) Texto de Bráulio Leite Júnior publicado no livro História de Maceió, Edição Catavento, 2000.

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