Lucia Murat será homenageada na 3ª edição do Cabíria Festival – Mulheres & Audiovisual 2021

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Por Vanderlei Tenorio

A cineasta Lucia Murat será a homenageada na terceira edição do Cabíria Festival – Mulheres & Audiovisual, dedicado à celebração do protagonismo de mulheres e da diversidade nas telas e atrás das câmeras.

Foto: Memórias da Ditadura

Murat é uma personagem fundamental da história do cinema brasileiro, segue sendo inspiração para diferentes gerações de profissionais do audiovisual. Trinta e dois anos separam seu primeiro longa “Que bom te ver viva” (1989), do décimo terceiro trabalho “Ana.Sem título”, recém-lançado.

A curadoria do evento recorda que a diretora soma em sua filmografia de 13 longas entre ficção e documentário. Este ano, a cineasta terá quatro de seus trabalhos exibidos na Mostra Homenagem Lucia Murat. São eles: “Que bom te ver viva” (1989), “Maré a nossa história de amor” (2007), “A memória que me contam” (2012) e “Em três atos” (2015). A organização lembra que, também haverá uma sessão especial, em parceria com o Telecine Play, de “Ana.Sem título”, seu longa mais recente, e um debate com a cineasta, dia 17, às 19h, mediado pela jornalista Flávia Guerra.

Selecionadas pela comissão de curadoria, “as obras articulam as intenções de diálogo e de investigação do festival, da valorização da memória à urgente revisão de processos históricos, e sublinham a inventividade das narrativas audiovisuais como vetor de inspiração e transformação”, afirma a curadora Thamires Vieira.

A curadora Julia Katharine ressalta que “são filmes que iluminam a multifacetada autoria da cineasta, entre a ficção e o documentário, e permeiam protagonistas mulheres de diferentes gerações, territórios e desejos.”

Já para Yolanda Barroso, também curadora, “a história política do país e do cinema brasileiro se fundem na obra da cineasta, que é ao mesmo tempo autora e personagem, mesmo que não de forma explícita.”

A vida política de Murat:

Murat iniciou sua militância política na universidade e foi uma das estudantes presas no Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE) em Ibiúna (SP). Após o Ato Institucional Nº 5 (AI-5), entrou na clandestinidade. Militante da Dissidência Estudantil da Guanabara, posteriormente, Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), foi presa em março de 1971, aos 22 anos, e levada ao DOI-Codi, na rua Barão de Mesquita, no Rio de Janeiro. Segundo seu depoimento, foi intensamente torturada, com pau de arara, eletrochoques e espancamentos. Após dois dias de torturas, sem poder mexer a perna direita e muito ferida, foi levada a uma enfermaria, onde, segundo ela, foi tratada pelos mesmos médicos que a examinavam durante a tortura: Amílcar Lobo e Ricardo Fayal.

Foto: Torre das Donzelas

Em seguida, foi transferida para Salvador, onde havia vivido um ano como clandestina. Na capital baiana, passou a ser interrogada, sem torturas, e a receber tratamento para sua perna. Voltou ao DOI-Codi do Rio, onde sofreu mais torturas, inclusive sexuais. Ficou presa até 1974. Lúcia afirmou à Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro que hoje reconhece alguns de seus torturadores: “Major Demiurgo, então chefe do DOI-Codi e que mantinha contato com nossas famílias; tenente Armando Avolio Filho, de nome de guerra Apolo; e Riscala Corbage, o Nagib”.

Na década de 1980, Lúcia passou a se dedicar ao cinema e dirigiu diversos filmes. Alguns deles abordam a temática da ditadura militar, comoQue bom te ver viva” (1989), Quase dois irmãos” (2004), e A memória que me contam” (2013), este último inspirado na vida da também militante e amiga de Lúcia, Vera Silva Magalhães.

A carreira de Murat:

A diretora trabalhou como jornalista nos principais veículos do país na segunda metade dos anos 70. Foi editora-chefe do jornal da TV Manchete e diretora de programas de documentários na TVE. Seu primeiro longa-metragem, o semi-documentário “Que bom te ver viva” (1989), estreou internacionalmente no Festival de Toronto e revelou uma cineasta dedicada a temas políticos e femininos. Nele, depoimentos de mulheres torturadas durante a ditadura militar se intercalam com cenas ficcionais protagonizadas por Irene Ravache. Entre muitos prêmios, o longa foi escolhido melhor filme do Júri Oficial, do Júri Popular e da Crítica no Festival de Brasília de 1989. Voltou a trabalhar em televisão dirigindo os programas “Testemunho” e “O caso eu conto como o caso foi”.

A preocupação política retorna a sua produção audiovisual no longa “Doces poderes” (1995), desta vez sob o ponto de vista do marketing das campanhas eleitorais. O filme estreou no Festival de Sundance e, em seguida, foi exibido no Festival de Berlim. Em 2000 lançou “Brava gente brasileira”, sobre a relação entre colonizadores e indígenas no interior do Brasil.

Em 2004 lançou “Quase dois irmãos” – um drama político sobre o conflito entre a classe média e a favela – que lhe rendeu diversos prêmios, entre eles os de melhor direção e melhor filme latino-americano pela Fipresci no Festival do Rio 2004, e melhor filme no Festival de Mar Del Plata 2005. No Festival do Rio de 2005 estreou o documentário “O olhar estrangeiro” e, na edição de 2007, “Maré, nossa história de amor”, uma coprodução Brasil-França, também exibido no Festival de Berlim.

Em 2010 filmou o documentário/ensaio “Uma longa viagem”, o grande vencedor do Festival de Gramado, e em 2013, lançou “A memória que me contam”, ganhador do prêmio da crítica internacional no Festival Internacional de Moscou. Em 2015 estreou no festival É tudo verdade o documentário “A nação que não esperou por Deus” e, no mesmo ano, “Em três atos”, coprodução francesa com textos de Simone de Beauvoir no Festival do Rio. Em 2017 ganhou no Festival do Rio os prêmios de melhor direção e melhor atriz para o filme “Praça Paris”, que recebeu mais sete prêmios internacionais, inclusive o de melhor filme da crítica internacional (Fipresci). Em 2021 apresentou ao público “Ana.Sem título”, filmado em Cuba, México, Chile, Argentina e Brasil. 

Foto: Mulher no Cinema

* Com informações do Cabíria Festival e do Memórias da ditadura.

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