O encontro marcado com a verdade

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Por Da Redação

 

Josealdo Tonholo reitor da UFAL.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Autor: Aruã Silva de Lima Professor de História Faculdade de Serviço Social UFAL

 

Quem mente de manhã e de noite, uma hora se encontra na verdade, como um relógio parado.”(Cesare Zavatini)

Nos últimos dias, o relógio parou para a atual reitoria da UFAL.

Há alguns anos, um sítio apócrifo de pseudonotícias produziu um sem-número de mentiras e aleivosias contra a Universidade e contra o grupo que então estava dirigindo a instituição. O esquema em torno daquele sítio eletrônico foi montado por um destacado preposto da atual reitoria. Era o UfalNews – precursor Sururu do “Gabinete do Ódio” bolsonarista –, retirado do ar logo que a vitória de Josealdo Tonholo se confirmou. Foi a inauguração da manhã.

A mentira desferida pela manhã – para ficar com a figura de linguagem de Zavattini – causou danos à honra de servidores e feriu a UFAL de variadas formas. Dificilmente o material foi produzido por uma única pessoa, como quer fazer crer o réu confesso. Mas vamos assumir o argumento como verdade, por enquanto, já que nenhuma mentira envelhece no tempo.

Em 22 de setembro de 2021, na abertura de um evento com o propósito de discutir prevenção ao suicídio e saúde mental, o reitor foi filmado por um de seus asseclas. Certamente achando-se merecedor dos elogios proferidos pelo chefe, o pró-reitor de Gestão de Pessoas caiu no que os gregos antigos chamariam de hubris, cometeu o “crime” do excesso, da autoconfiança e da autocomemoração.

Explico.

Sabe-se lá por que o comandante tentava animar sua tropa com tamanha inflamação: enquanto, em tom pouco usual para um reitor, desabafava tachando exasperadamente os inimigos indeterminados de “covardes que se esconderam debaixo dos lençóis durante a pandemia”, o mandatário fazia loas efusivas aos servidores que exalavam a coragem esperada pelo chefe, incluído aí, entre alguns nomeados, o autor do esquema de pseudonotícias. O pró-reitor (que não é o autor confesso do esquema), enquanto filmava, não entendeu o que acontecia. Um sábio antigo já nos ensinou: “O erro acontece de vários modos, enquanto ser correto é possível apenas de um modo.”

O que efetivamente foi dito pelo reitor estarreceu toda a comunidade, ainda que não fosse sua intenção – embora também saibamos que a estrada para o inferno foi pavimentada com boas intenções. Enquanto o pró-reitor somente escutava os elogios, ignorou os impropérios nada cândidos proferidos pelo reitor. O erro do subordinado foi não ter percebido que a fala ofendia pessoas, por razões intermináveis. Tamanha insensibilidade pode ser creditada a muitos fatores, mas isso, por si só, mereceria outro texto. O fato é: embebido nas palavras elogiosas do reitor, o pró-reitor não conseguiu proteger quem lhe elogiava da própria imprudência e imperícia. Cabia-lhe proteger o reitor, mas não conseguiu fazê-lo.

Justiça seja feita: até que o reitor tentou, ainda que sem sucesso, explicar a quem dirigia o seu desabafo. Disse ele: “estou falando daqueles que tinham condições, tinham conhecimento técnico, mas se esconderam e não deram a sua contribuição social”. Contudo, ele esclareceu que não estava falando daqueles que desafiaram as regras sanitárias, em aparente referência aos negacionistas. Cabe também saber o que o reitor entende por “contribuição social”, pois, dado seu silêncio, é de se supor que jamais saberemos.

Em todo caso, é prudente informar ao/à leitor/a o seguinte dado: a UFAL e as demais Instituições Federais de Ensino estão funcionando remotamente não somente por causa da pandemia. Não houvesse pandemia, a Universidade Federal de Alagoas não teria condições de abrir as portas e pagar seus contratos, de modo a garantir o pleno funcionamento da instituição. Por que esse dado ainda não foi informado à comunidade? Por que a UFAL, nesta semana, gastou seu último centavo de orçamento para o ano todo e apenas sabem disso aqueles que habitam o prédio da reitoria? A quem interessa esse silêncio? Por que não falar à sociedade alagoana sobre o descaso do MEC em relação à UFAL? Tenho certeza de que não se trata de (falta de) coragem. São questões legítimas, não formuladas necessária e tão somente por quem está na oposição: essas são perguntas oriundas do exercício pleno de cidadania.

Se o Sol se levanta, ele também se põe. E a noite chega. Com ela, a mentira do breu: para solucionar a decorrência de sua incursão em hubris, o pró-reitor e a reitoria passaram a acusar os receptores de distorcer as intenções de quem externou a fala. Em outras palavras, a lógica presente nas notas da reitoria espalhadas em portais na rede é: ‘Não importa a fala efetivamente proferida, mas a intenção. Quem a entende de maneira diversa pratica fake news, distorce o sentido real e único do que, no caso, o reitor realmente quis dizer’.

Frente a um vídeo sem cortes, com fala literal, a reitoria assume uma posição de ataque quando, na verdade, poderia (ou deveria) pedir desculpas à comunidade. Sintomática é, portanto, a posição política assumida, ao tachar o/a outro/a (o/a ouvinte, o/a receptor/a) daquilo que parte do grupo praticava quando mentia pela manhã (lembremo-nos do apócrifo UfalNews). A operação narrativa que busca interditar a crítica é conhecida em regimes autoritários: criam-se subterfúgios, ao arrepio do fato determinado, e o poder instituído se autoatribui o monopólio de produção da verdade. Assim, por mais que o vídeo não tenha sido cortado; por mais que as imagens e áudios sejam autênticos; por mais que as expressões desastrosas proferidas do reitor tenham saído de sua própria boca (desculpem pelo pleonasmo), o argumento é: “Uma pessoa como ele não diria isso!”; e sua conclusão, peremptória: “Porque uma pessoa como ele não o diria! Ele não o disse!” Com isso, nós, ouvintes e expectadores, é que distorcemos o que foi dito, por interesses diversos, inclusive – e sobretudo – por sermos oposição.

O que se pensava ‘erro’ talvez não o seja, efetivamente. Após alguns dias de reflexão, concluo que não se trata de um erro e, nesse caso, não há demanda para um pedido de desculpas. Trata-se de posição política. Analogamente, nessa mesma semana, o presidente concedeu uma entrevista a um canal negacionista alemão defendendo, pela enésima vez, que não deveríamos nos esconder da COVID-19 “embaixo de uma cama”, mesma expressão utilizada em maio último. Dessa vez disse, literalmente: “Eu sempre disse que temos de encarar o vírus, não se esconder embaixo da cama”.

A semelhança entre as expressões, em forma e em conteúdo, utilizadas pelo reitor e pelo presidente é tão gritante quanto as diferenças entre as personalidades e a história política de ambos, o que, em princípio, afastaria qualquer possibilidade de falarmos das duas pessoas no mesmo parágrafo. Entretanto, depois de 18 meses de administração da Universidade, já se percebem sintomas de que a reitoria se deixou fagocitar pelo MEC, manifestos por reuniões no gabinete reitoral com frações da extrema direita alagoana; pela omissão sistemática e conivente com que a gestão trata o desmonte da Universidade brasileira; e, por fim, pelo desmantelamento do debate público que a UFAL passou a promover ao silenciar acerca da severa crise que lhe abate o governo federal.

O relógio continua parado para a reitoria. É aquela pequena fresta de oportunidade para o grupo da atual reitoria se recompor com a verdade e purgar os pecados do passado e do presente. Mais do que nunca, um certo pensador antigo está certo: ser correto é possível apenas de um modo. E, no momento, o correto é ter coragem para se insurgir contra o arbítrio bolsonarista, com decisão. Só assim será possível, aos colegas da reitoria (inclusive o autor do esquema de notícias falsas), se deitar debaixo dos lençóis e dormir em paz.

 

1 comentário

  1. Parabéns por escrever tão lindamente. Que pena que use esse dom para o mal, de forma tão agressividade, palavras cheias de bile. Por isso, esse grupo pela primeira vez na história da Ufal não conseguiu reeleger a reitora. Pois a plataforma de trabalho é falar mal de colegas de trabalho. Perderam mas não deixam ninguém trabalhar sem o ridículo esperneio dos derrotados antidemocráticos.
    Beber da própria peçonha e querer que outro morra é muito bom, pois se afogam a cada dia dentro do que vocês mesmos produzem.

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