sábado 20 de abril de 2024

AGROTÓXICOS E IMPACTOS AMBIENTAIS

9 de outubro de 2021 12:03 por Fátima de Sá

Conference STOP EU-MERCOSUR

No texto anterior, postado neste blog, fiz um panorama geral sobre os impactos provocados pelo uso indiscriminado de agrotóxicos no agronegócio. E, agora, quero ressaltar informações importantes mostradas pela Professora LARISSA BOMBARDI, em uma palestra proferida numa conferência realizada em Bruxelas, pelo Parlamento Europeu, em 12 de dezembro de 2019. Parte deste texto tem como base um vídeo do Canal do jornalista Bob Fernandes[i] no YouTube.

A professora foi convidada para compor uma mesa-redonda durante a Conferência pelo Meio Ambiente, Agricultura e Trabalho – STOP UE-MERCOSUL (The Conference Environment, Farming and JobsSTOP EU-MERCOSUR), da qual participaram pesquisadores, membros de organizações sociais, e políticos de ambas as regiões, que discutiram o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia (UE).

Destaco também, importante pronunciamento do membro do Parlamento Europeu, Helmut Scholz, que tanto confirma informações da Professora Bombardi, quanto faz importante alerta ligado ao Acordo UE-Mercosul, que destaco no final.

Quem é ela?

Larissa Bombardi, com pós-doutorado em Geografia Humana, é professora e pesquisadora do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP), onde desenvolve estudos ligados a esse tema. Desse trabalho, em 2019, foi produzido e publicado o atlas Geografia do uso de agrotóxicos no Brasil e conexões com a União Europeia[ii].

Em março deste ano (2021), por conta de seu trabalho de denúncia do uso e abuso de agrotóxicos no Brasil, sentiu-se intimidada por ameaças [https://www.brasildefato.com.br/2021/03/19/apos-intimidacoes-por-luta-contra-agrotoxicos-pesquisadora-decide-deixar-o-pais]. Em Carta Aberta aos Colegas do Departamento de Geografia, a professora explicou os motivos que a estavam levando a se afastar do país. Atualmente, ela realiza estudos na Universidade Livre Bruxelas (Bélgica).

A Palestra

A professora iniciou falando sobre a desigualdade entre os dois blocos (Mercosul e União Europeia), lembrando que os países do Mercosul basicamente “exportam minérios e produtos de origem agropecuária” e importam produtos industrializados.

Como exemplo de produtos exportados, citou o farelo de soja (5,7 bilhões de dólares, em 2018), ressaltando que, “para cada dólar exportado em farelo de soja”, o Mercosul importou “dois dólares de produtos industrializados, relativos apenas a equipamentos”. Portanto, sintetizou a palestrante: os países do Mercosul “têm produzido e exportado commodities e agroenergia (biocombustíveis)”, com a consequente redução da produção de produtos básicos para alimentar a população.

O agro é pop?

No Brasil, essa opção essencialmente econômica tem acarretado riscos “tanto para a saúde humana quanto ambiental”. Isso é detalhado no decorrer da apresentação, quando a pesquisadora mostra a grande dependência que essa produção tem de produtos químicos, sobretudo de pesticidas. E, muitos desses agrotóxicos são produzidos por indústrias que têm sede na UE, onde há a proibição de seus usos. No entanto, a própria UE os vende para o Mercosul. Contradição que traduz a falta de compromisso social do capitalismo: vidas não importam; o lucro em primeiro lugar.

Ocupação de áreas e agrotóxicos

A Profa. Bombardi mostrou alguns exemplos dessa relação. O Brasil, ressaltou ela, é um dos principais exportadores de soja, açúcar e etanol produzidos a partir da cana-de-açúcar, café, suco de laranja, tabaco, milho, carnes bovina e de frango, dentre outros.

Em consequência, os impactos vão desde a grande área territorial ocupada por esses empreendimentos agrícolas, até os efeitos nefastos dos produtos químicos utilizados na produção.

A seguir, ela passou a estabelecer comparações entre os tamanhos das áreas cultivadas com algumas monoculturas e os territórios de alguns países europeus. Por exemplo: no Brasil, a área ocupada com a plantação de cana-de-açúcar equivale a quatro vezes o território belga. Trocando em miúdos: “4 Bélgicas são ocupadas no Brasil com cana-de-açúcar”.

E mais: a área ocupada com o cultivo de soja equivale a 11 Bélgicas, ou uma Alemanha plantada apenas com soja. Somadas as áreas ocupadas com os plantios de soja + eucalipto + cana-de-açúcar é o mesmo que cinco vezes e meia a área de Portugal. Concomitantemente, tem havido a redução de áreas ocupadas com a “produção de arroz, feijão, trigo e mandioca”, com óbvios impactos sobre a segurança alimentar.

A lógica tem sido: para que produzir comida para a população se os grandes produtores agrícolas “engordam” suas contas bancárias com a venda de “commodities e biocombustíveis”? Como se sabe, e ficou mais evidente durante esse período da pandemia, é o pequeno produtor agrícola quem, de fato, produz alimento que chega à mesa da população em geral.

Saúde e agrotóxicos

Portanto, falar nas culturas de exportação é falar também no uso intensivo de agrotóxicos, o que explica o “aumento de 25% no uso desses produtos nos últimos 5 anos [a palestra aconteceu em dezembro de 2019]. Isso explica o aumento de casos de pessoas intoxicadas devido ao uso de agrotóxicos no país, de acordo com dados do Ministério da Saúde. No entanto, sabe-se que esses números são subnotificados.

Embora muitos desses casos tenham representado óbitos, dados do Ibama, de 2019, mostram que, dentre os 10 agrotóxicos mais vendidos no Brasil, pelo menos três deles (Acefato, Atrazina e Paraquat) têm seus usos proibidos na UE. As causas da proibição, explica a palestrante, são bastante conhecidas através de estudos científicos: Acefato é neurotóxico, Atrazina é um disruptor endócrino e Paraquat tem sido associado ao mal de Parkinson.

Na distribuição de uso dos produtos no território nacional, o maior aumento é na região amazônica, onde houve a expansão da área de plantação de soja e, paralelamente, detecta-se o aumento de área desmatada.

Outra informação estarrecedora trazida pela pesquisadora: a assimetria nos índices admitidos no Brasil e na UE. Aqui é permitido 400 vezes mais resíduos de Malation [pesticida organofosforado]na produção de feijão do que o permitido na UE; na água potável, os limites permitidos de resíduos de 2.4-D [ácido diclorofenoxiacético, herbicida] são 300 vezes superior ao limite autorizado pela UE; e são permitidos resíduos de Glifosato [herbicida carcinogênico]5 mil vezes superior do que é permitido na UE.

Bebês mamam agrotóxicos

No texto anterior, citei resultados de pesquisas que mostravam o número de bebês intoxicados com agrotóxicos, mas eram dados de outros países. Nessa palestra, a Dra Larissa Bombardi traz informações impactantes: números oficiais mostram que mais de 500 bebês (de zero a 12 meses de idade) foram intoxicados com agrotóxicos, entre 2007 e 2017.

Helmut Scholz

Helmut Scholz[iii] confirmou que, no Acordo entre os dois blocos, a balança comercial pende grandemente para a UE, sendo os vencedores empresas europeias do setor de máquinas e farmacêutico, responsáveis por metade das exportações. E citou um exemplo: somente em 2019, produtos agrícolas e minérios representaram, respectivamente, 40% e 18% das importações da UE.

Ressaltou que há excelentes exemplos de agricultura e produção alimentar orgânica e sustentável na Europa, mas, também, há formas industriais de “produção” de vacas e porcos, que são alimentados com soja OGM [Organismo Geneticamente Modificado] importada a baixo custo do Brasil e da Argentina. Além disso, os carregamentos de soja que chegavam aos portos de Rotterdam ou Antuérpia, na maioria dos casos, não eram testados para resíduos de agrotóxicos.

Igualmente, Scholz relacionou o aumento da produção de soja e carne para a UE e para a China com o aumento, em escala dramática, de incêndios na Amazônia. E alertou: “Se as empresas da UE puderem fazer encomendas a produtores que possam estar ligados aos incêndios, é como encomendar um crime. Normalmente, em nossos sistemas jurídicos, ordenar um crime deve ser punível e não recompensado”.

“Este homem não é confiável!”

No encerramento de sua fala, Scholz deu sua opinião sobre “um homem que deveria assinar este acordo: o presidente do Brasil. “Este homem não é confiável!”, afirmou e advertiu:

Triste Conclusão

Este tema é desafiante e há muito mais o que comentarmos. Não é uma discussão de política partidária apenas. Deve merecer atenção de todos nós. É o que está sendo ingerido por cada pessoa. E, ainda mais grave: por bebês que não têm ainda condições de escolher e mamam, literalmente, veneno no seio das suas mães.

Ter aprovação, no Brasil, de produtos proibidos na União Europeia, me faz lembrar letra de Chico Buarque: “Não existe pecado ao sul do Equador”.

[i] Disponível em: https://youtu.be/W4zPXDU1m70. Acesso em: 1 out 2021.

[ii] Disponível em: http://ecotoxbrasil.org.br/upload/587ed92192e9dbe77bddffd31cbe25a7-e-book_atlas_agrot_axico_2017_larissa_bombardi.pdf. Acesso em: 7 out 2021.

[iii] Disponível em: https://www.helmutscholz.eu/de/article/1019.conference-for-environment-farming-and-jobs-stop-eu-mercosur.html. Acesso em: 08 out 2021.

 

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2 Comentários

  • Matéria da maior importância, como a 1a aqui publicada pela doutora e escritora Fátima de Sá. Um grito de alerta, um chamado à resistência e à luta por uma outra humanidade, por uma outra sociabilidade -porque a sociabilidade capitalista só interessa aos genocidas sugadores dos esforços e da produção dos trabalhadores. Seguiremos nos envenevando passivamente?! Seguiremos impassíveis diante da fome, da exclusão, da dor de tantos? E da nossa própria? Não devemos nada às novas gerações? Suportaremos novas e sucessivas pandemias? Agora, 600 mil mortos. Mas, muito mais que meio milhão de brasileiros.

  • Grata, Maria, por tua leitura sempre atenta e pelo incentivo. Abraço

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