O Buraco da Zefinha, território do samba e do amor

Fulô, como é conhecido por todos, é tido como um cara esperto, “safo”, um cobra-criada na roda da malandragem.

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Por Geraldo de Majella

 

 

As rodas de samba aconteceram durante vários anos em Jaraguá, bairro boêmio de Maceió. O Buraco da Zefinha, botequim que reunia a fina flor da boemia do bairro e que atraiu uns tantos representantes da classe média, professores universitários, médicos, agrônomos, poetas, filósofos, arquitetos, assistentes sociais, nutricionistas, mas também acorriam para as rodas de sambas, trabalhadores, mecânicos, portuários, catraieiros, estivadores, motoristas e, vez por outra, apareciam umas meninas de profissão duvidosa, que eram aceitas sem nenhuma discriminação.

Para alegria geral eram elas as mais animadas. Tinham o samba no pé e o coração dadivoso, levando muitos dos marmanjos para dançar no apertado salão, entre as mesas.

Duas personalidades se destacavam no botequim: um era o cantor José Paulo, negro, voz grave; os óculos ray ban eram a sua identidade − aquele negrão alto se impunha pela elegância e pelo sorriso largo. O poeta Paulo Renault era o outro. Os dois, cada um a sua maneira, agregavam amigos, bambas para as tardes de sábado no Largo do Mercado de Jaraguá.

Ritinha, médica pediatra, era uma frequentadora assídua das tardes de samba no Buraco da Zefinha. Acostumada ao trabalho intenso no consultório e nos plantões em dois hospitais, de uma coisa ela não abre mão: das rodas de sambas nos dias de sábado. É o momento da sua vida em que ela se permite o prazer, sem que tenha possibilidade alguma de pensar em trabalho.

A profissão é tudo o que tem de mais significativo e importante para Ritinha e para a sua família. Nasceu numa família pobre, proletária; os pais são trabalhadores, a mãe, lavadeira, está aposentada por invalidez; adquiriu uma hérnia de disco que a incapacitou para o trabalho, inclusive o doméstico. O pai, que iniciou a vida como pedreiro, hoje é mestre de obras e anda cada vez mais animado com o boom da construção civil.

A única filha é médica – orgulho para os pais, uma espécie de troféu −, a única de toda a família. Bem-humorada, festeira, dança todos os ritmos, mas é o samba o ritmo de que mais gosta. É portelense como ninguém. Quando vai se aproximando o carnaval, procura aprender o samba-enredo da Portela, escola em que desfila há dez anos.

O seu jeito independente e alegre tem erguido barreiras entre os casais no botequim. As mulheres não costumavam lhe dar conversa, talvez por insegurança, medo, quem sabe, de que em algum momento um dos maridos possa ser fisgado pelos olhares e trejeitos da mulata fatal do Buraco da Zefinha.

Os olhos castanhos da mulata se fixaram num arquiteto-boêmio e poeta bissexto. Passaram muitos finais de semana um jogando com o outro. Houve um ex-militar e escritor que se jogou na direção de Ritinha, mas não logrou êxito. A pediatra fez a sua escolha, atendeu aos batimentos do coração: os olhares correspondidos entre ela e um negrão frequentador assíduo do botequim.

Florisvaldo é um malandro de fala mansa, conhecido na área, com anos de rodagem. Talvez por essas características tenha sido o escolhido pela pediatra, que deixa aos sábados o estetoscópio em casa e sai despojada com um tamborim para tocar na roda de samba. Fulô, como é conhecido por todos, é tido como um cara esperto, “safo”, um cobra-criada na roda da malandragem. Trabalhador, catraieiro, vive desde muito jovem no porto de Maceió. Acostumado às intempéries.

Mas foi pego de surpresa. Primeiro, não imaginou que Ritinha o chamasse para dançar, e muito menos, num segundo momento, lhe dissesse ao ouvido, sussurrando: “Você é meu, gatão. Estou de olho em você faz tempo”.

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O samba entrou pela noite, cervejas e cachaças foram tomadas, elevando o grau alcoólico. No final, Ritinha pagou a conta integralmente e o convidou para sair pela noite. Outra surpresa, a terceira em poucas horas: foi levado do botequim para uma noitada a dois num dos motéis da cidade.

De encontro em encontro, os dois passaram a ter uma relação mais séria, mas cada um vivendo em sua casa. A pediatra mora no mais elegante bairro de Maceió, a Ponta Verde, e Florisvaldo de Jesus, numa casa de Cohab, no Jacintinho, bairro popular. O relacionamento impactou a vizinhança; o jeitão desleixado de Fulô logo caiu na boca dos porteiros e de algumas fofoqueiras de plantão do condomínio.

Nada que incomodasse a ilustre moradora. Pagava as suas contas em dia, para ela isso era o que importava. Acontece que o fato de ser bem-humorada e de bem com a vida, falar com todos indistintamente, para Florisvaldo, que não tinha esse tipo de relação com as suas outras namoradas e muito menos com a ex-mulher, passou a incomodar e não demorou a explodir uma tremenda crise de ciúmes.

Depois de cinco meses de namoro, um verão passado juntos, Ritinha, na roda de samba, fala para os amigos que vai novamente desfilar na sua escola do coração: a Portela. A partir desse momento o caldo foi entornando: olhares de desaprovação e cenas explícitas de ciúme se tornaram públicas.

Desavisado, Mário, amigo e ex-namorado, havia chegado de uma viagem; não sabia do namoro e não havia percebido o clima de ciúme explícito. Chamou-a para dançar, e o pedido foi prontamente aceito. Os dois foram acintosamente observados pelo namorado.

A cena foi vista, de longe, pelas despeitadas mulheres que acompanham os maridos, marcando-os severamente. Os comentários rapidamente foram feitos de mesa em mesa. A altivez da pediatra não permitia passar recibo; dura, enquadrou o namorado ciumento. E disse-lhe em voz alta que iria ao Rio de Janeiro, como já havia ido nos últimos nove anos. Fez questão de apresentar ao amigo o namorado e ressaltar a sua atitude infantil.

O carnaval estava próximo. As passagens estavam reservadas, inclusive a de Florisvado de Jesus, que nem sabia que seria presenteado. Era a surpresa que a amada iria lhe fazer.

A proximidade do carnaval foi aumentando o ciúme, e o clima piorou. Ritinha decidiu acabar com as cenas. Chamou-o para uma conversa e lhe disse que o amava, mas que era uma pessoa independente e que pagava um alto preço por ser assim. E não seria ele quem iria quebrar um compromisso com a sua escola e estragar o prazer em desfilar no carnaval carioca.

A reunião colocou um ponto final no namoro. As lágrimas correram dos olhos do casal. Mesmo diante de tanto choro, Ritinha foi desfilar. Antes, passou na sua cabeleira, se depilou, cortou os cabelos, fez massagens. Um pouco antes de viajar, passou na casa dos pais para se despedir e deixou dinheiro para eventualidades. Procurou ocupar o tempo, mas o seu negrão não lhe saía do pensamento. O avião voando a doze mil pés de altitude, e Ritinha chorando baixinho, quase soluçando, com lágrimas rolando pelo rosto, manchando a maquiagem, toma uma atitude. Batuca na mesinha e cantarola um samba preferido: “Vem, meu novo amor/Vou deixar a casa aberta/ Já escuto os teus passos/Procurando o meu abrigo”.

 

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