sábado 20 de abril de 2024

O DIABO E A TERRA DE SANTA CRUZ (2)

16 de novembro de 2021 10:18 por Marcos Berillo

Religiosidade Popular na Colônia:

Primeiro gostaria de pedir desculpas aos leitores do meu blog no 082notícias, por motivos pessoais estava sem muito tempo para retomar minhas leituras e pesquisas e agora, aos poucos estou retomando e como no dia 13 de agosto do corrente havia discorrido sobre o Novo Mundo, entre Deus e o Diabo na leitura da obra O diabo e a Terra de Santa Cruz de Laura de Melo e Souza, historiadora, foi docente da USP, onde constrói uma excelente análise dos numerosos relatos deixados por cronistas, viajantes e missionários que retrataram a terra “descoberta” pelo Ocidente entre o final do século XV e início do século XVI. Agora nos deteremos sobre o pensamento da referida autora acerca da análise de como se deu a constituição do sincretismo religioso no Brasil colonial.

(Fonte: www.companhiadasletras.com.br)

A autora nos lembra que o universo religioso era uma mescla trazida pela Igreja com a religiosidade já existente na colônia Portuguesa. Misturava-se, por exemplo, simultaneamente os santos católicos, os orixás e o diabo: “traços católicos, negros, indígenas e judaicos misturavam-se na colônia, tecendo uma religião sincrética” (p. 97).

Dessa forma, o exercício das crenças no cotidiano colonial estava voltado para o plano terreno. As práticas religiosas encontravam-se não só ligadas às necessidades da vida e, também procurava resolver os problemas enfrentados, tais como a cura de doenças, sentimentos e tensões sociais. O sobrenatural era a válvula de escape para tudo aquilo que incomodava no mundo natural.

A forte presença de um sincretismo afro-católico se consolidou com a presença de cultura de povos “Gegês, Nagôs, Iorubás, Malês e tantos outros” (p. 129). A religião de matriz africana procurou os nichos em que puderam se desenvolver. E curiosamente o modelo construído do diferente do praticado pelos antepassados. A lógica dominante branca do sistema colonial fez predominar a presença de divindades afro, tais como: Ogum, Xangô e Exu que valoravam a guerra em detrimento da agricultura. Além desse sincretismo afro-católico se fez presente a mistura de santidades sincréticas ocorridas a partir da mistura católica e indígena. A autora chega a afirmar que “traços católicos, negros, indígenas e judaicos se misturavam na colônia, tecendo uma religião sincrética e especificamente colonial” (p. 134). Essa mistura foi peculiar e pouco compreendida pelo catolicismo oficial romano.

Ainda neste segundo capítulo, a autora discorre sobre a demonização das relações sociais e a divinização do econômico. As visitações do Santo Ofício se depararam na colônia com a evocação constante da presença do diabo. O projeto de impor o medo provocou a externalização de Satanás em relação a Deus. No mundo onde as explicações não eram racionalizadas, tudo apontava para a presença de Deus ou do Diabo.

Na colônia, local distante da Europa, primeiramente edenizado e depois demonizado, “os discursos eclesiásticos católicos e protestantes” eram permeados de um imaginário dicotomizado entre as forças do bem e do mal. Os nativos que manifestavam sua fé através de religiosidades relacionadas a natureza foram acusados pelos jesuítas de práticas religiosas nefastas “os jesuítas acabaram por demonizar ainda mais as concepções indígenas, tornando-se, em última instância, e por mais paradoxal que pareça, agentes demonizadores do cotidiano colonial” (p. 188).

Por fim a autora ressalta, a partir das análises dos processos inquisitoriais que numa colônia em que teve feições de inferno, várias forças trabalhavam no sentido de demonizar o cotidiano. Sendo comum entre os moradores uma relação próxima entre Deus e o Diabo

no cotidiano da colônia, Céu e Inferno, sagrado e profano, práticas mágicas primitivas e europeias ora se aproximavam, ora se apartavam violentamente. Na realidade fluida e fugidia da vida colonial, a indistinção era, entretanto, mais característica do que a dicotomia (p. 201).

O que predominou foi o sincretismo religioso. Por mais que o saber erudito procurasse demonizar as crenças indígenas e africanas numa realidade colonial multifacetada. A feição do inferno se configurou nas tensões sociais entre os senhores e os explorados (índios e negros). A representação do céu se dava das magnitudes de produtos produzidos (açúcar, ouro, tabaco) na colônia que chegavam aos mercados de Portugal, abarrotando-os e trazendo lucros para a metrópole. Entre o polo do Inferno e do céu assentava o purgatório. Local de onde se experimentava as tensões sociais e se projetava rumo ao paraíso (metrópole).

REFERÊNCIAS:
SOUZA, Laura de M. e. O diabo e a Terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade no Brasil Colonial. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

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