AFORTUNADOS

Resenha publicada neste sábado, 20, na coluna “Depois do Play”, do jornal O DIA

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Por Mácleim Carneiro

Imagem: Divulgação

Para mim, sempre será auspicioso perceber o quanto a fonte da música produzida em Alagoas permanece viva, jorrando e fiel à sua mata ciliar. Outra coisa boa, é ter em mãos mais um resultado, um punhado de água dessa fonte, possibilitado pelo auxílio imprescindível da Lei Aldir Blanc. Pois bem, este é o caso do álbum ‘Fortuna’, lançado recentemente pelo jovem músico e compositor alagoano Andrey Vieira, uma gratíssima surpresa para mim! Certamente, também será para quem ainda não o conhece.

Fortuna era a deusa romana do acaso, da boa ou má sorte, do destino e da esperança. Na Roma antiga, era considerada filha de Júpiter e tinha até um festival realizado em sua homenagem. Sim, foi uma deusa de caráter duplo, mas sempre positivamente. Na era moderna, seguramente, o jovem músico Andrey Vieira escolheu o substantivo feminino fortuna, como aquilo que tem que ser, e não como representatividade da deusa romana ou menos ainda do conceito atribuído a ela, a deusa, por Maquiavel. Portanto, um belo título para um trabalho que se mostrou interessante e afortunado.

Homenagem Ao Ídolo

Claro, sem qualquer correlação ao parágrafo anterior, ‘Djavan’ (Andrey Vieira) é o título da música que inicia o álbum. E, mais claro ainda, traz uma guitarra base fazendo a levada caracteristicamente djavaniana. De acordo com o próprio Andrey, trata-se de uma homenagem ao ícone da música alagoana, que tem influenciado uma verdadeira legião de seguidores aqui e alhures. O interessante está na letra, que é bastante simpática em suas descrições comparativas, entre a musa inspiradora da canção e algumas expressões e estilos de arte, além de um ligeiro equívoco na avaliação sobre a obra do pós-impressionista Van Gogh. Todavia, voltando ao Djavan, o cara, a homenagem feita pelo compositor ao ídolo soa inusitada, pelo tanto de realismo, quando afirma: “Nem que eu chamasse a melhor banda do mundo / E convidasse o Djavan pra cantar / Essa canção não chegaria nem perto / Do que sinto e que quero mostrar.” Sem dúvida, foi a melhor escolha para abrir o álbum, sob o ponto de vista da coerência com o título ‘Fortuna’.

Em ‘Zona de Conforto’ (Andrey Vieira), a profusão de guitarras dá lugar, num segundo momento, a uma levada mais swingada, com efeito wah wah, que de alguma maneira provoca um alívio auditivo, literalmente uma zona de conforto, como sugere o título. É um refresco ao tanto de efeitos e reverb que permeiam a faixa. Já em ‘Carnaval’ (Andrey Vieira), a melancolia que inicia essa terceira faixa, com um solinho de teclado que nos remete à paz no interior de uma igrejinha pouco frequentada, logo é quebrada pelas guitarras e pela atmosfera pop-rock que, de fato, definem bem a estética proposta por Andrey Vieira nesse trabalho. Aliás, há que se ressaltar a performance do trio que embasa, com competência e criatividade, essa pegada: baixo, guitarra e bateria, respectivamente, Cassio Fernandes, Marx Barros e Yuri Torres.

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Na metade do álbum, chegamos à ‘Bahia’ (Andrey Vieira e Lucas Costa), mais uma canção com clima pop-rock, que, aparentemente, parece ser mais um retrato do que foi vivenciado pelo autor em suas relações pessoais. Entretanto, o bacana é que Andrey Vieira não precisou perder nem abrir mão da inteligência, passando ao largo de ser piegas ou melosamente dramático. As letras são bem elaboradas! ‘Invisível’ (Andrey Vieira e Debora Barros), segue a trilha da anterior, que nos conduz, definitivamente, ao momento romântico do álbum e, claro, o recurso mais farto é mesmo uma baladinha, daquelas que, nos bailes de antigamente, aproveitava-se para a hora do rosto colado, no famoso momento mela-cueca. O inusitado, nessa balada, é o advento do trompete muitíssimo bem posto e executado por Brunno BK.

Sagacidade Literária

‘Saga Cidade’ (Andrey Vieira) quebra o climinha romântico e o compositor parece voltar ao tema inicial de Djavan, a música, quando a letra cita algumas palavras já utilizadas, tipo art déco, por exemplo. A sacada aqui é que toda a estrutura da música parece ter sido propositadamente feita para soar e parecer um flash de memória. A começar pela forma, que não tem repetição e é rápida em andamento e minutagem, dura pouco mais de um minuto. ‘Seu’ (Andrey Vieira), tem uma peculiaridade: toda levada que se utiliza da acentuação rítmica atempo, torna-se interessante por natureza! Essa foi a luz dessa “balada saliente”. Claro, a temática continua sendo as relações amorosas do compositor e, no caso específico, de um futuro traçado e previsto, porém, com pitadas de sagacidade literária, quando cita: “Meu ofício literário tem um Norte.” Aliás, se musicalmente Andrey Vieira prosseguir com essa proposta e pegada musicais, estará traçando um Norte bem promissor para a sua carreira!

‘Versos Sobre o Que Passou’ (Andrey Vieira) põe um ponto final e é uma daquelas baladas bem características, sem margens para outro tipo de leitura. Foi a forma escolhida para finalizar o álbum, em coerência, sobretudo, com o discurso construído nas bem urdidas letras do compositor, que assina solitário a autoria de seis, das oito faixas do álbum. Então, como uma espécie de balanço final e geral, Andrey Vieira fala do que passou como opção, e diz que paciência nunca é regra. Porém, existe uma regra, que não carece de paciência, para fruir o trabalho desse jovem músico e compositor talentoso que, em meio a tantas músicas desnutridas, que brotam como gremlins no streaming da rapaziada de sua geração, não pretendeu inventar a roda e, por isso mesmo, foi afortunado. Ah, sim, a regra é simples: ouvi-lo com o zelo de um fruidor atento!

NO+, MÚSICABOAEMSUAVIDA!!!

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