Grupos pedem, em carta, que filha de Audálio Dantas devolva cadernos de Carolina Maria de Jesus

“A escritora Carolina de Jesus escreveu para ser lida por um público mais amplo e não para ficar guardada dentro de gavetas a bel prazer do interesse pessoal”, diz trecho da nota

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Por Da Redação

A poetisa Carolina Maria de Jesus | Arquivo Nacional via Wikimedia Commons

Por Fábio Prevideli, do Aventuras na História 

Nesta semana, grupos de pesquisa das obras de Carolina Maria de Jesus publicaram uma nota de repúdio contra Juliana Dantas, filha de Audálio Dantas — jornalista que foi o descobridor da poetisa brasileira.

A polêmica começou na última quarta-feira, 17, quando a também jornalista disse em entrevista ao O Globo que não pretendia ceder os cadernos inéditos escritos por Carolina de Jesus à Companhia das Letras, que recentemente publicou uma edição de ‘Casa de alvenaria’.

Escritos após a poetisa deixar a favela do Canindé, em São Paulo, na Zona Norte da capital, a filha de Dantas declarou que a forma que seu pai foi retratado na obra, em sua visão de uma maneira negativa, inviabiliza uma parceria com a editora.

Sendo assim, uma carta assinada foi divulgada pelo Grupo de Pesquisas Decoloniais Carolina Maria de Jesus; pelo Grupo de Pesquisa Literatura, Alteridade e Decolonialidade (GPLADe); pelo Laboratório de Tradução da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA); e pelo Grupo de Pesquisa Marginália Decolonial, onde repudiam a decisão de Juliana.

Demonstrando uma “enorme preocupação e indignação” com as declarações da filha de Audálio, que, “insatisfeita com a forma com a qual seu pai vem sendo retratado, leia-se, sem o devido destaque e centralidade que ela julga que ele deveria ter, se recusa a fornecer três cadernos inéditos, cartas, contratos e fotografias da escritora”.

O grupo alega que, acima de qualquer questão, que esse material pertence “à família da escritora”, além de “construir um patrimônio histórico e cultural brasileiro”. As entidades alegam que engavetar os escritos de Carolina Maria de Jesus é “epistemicídio” e “só reforça a ideia patercolonial de que uma mulher só pode existir a partir de seu senhor, nesse caso, seu ‘descobridor”’.

escritora Carolina de Jesus escreveu para ser lida por um público mais amplo e não para ficar guardada dentro de gavetas a bel prazer do interesse pessoal, alheio aos seus familiares. Carolina de Jesus cedeu de boa fé esses textos para o jornalista Audálio Dantas à época para que ele a ajudasse a publicá-los, mas em momento algum deu esses cadernos para ele. Por essa razão, exigimos o imediato retorno de tudo o que for de Carolina de Jesus, que esteja em sua posse para as mãos da filha Vera Eunice Lima de Jesus”, completam.

Como resposta, Juliana Dantas publicou uma nota, segundo informado pelo O Globo, celebrando o fato de que a “coletividade tenha acordado para a importância de Carolina”. Segundo diz a filha de Audálio, sua única intenção é honrar a memória e legado de seu pai, “uma pessoa que teve quase 70 anos de carreira e, agora que morreu há três, está sendo atacada sem a chance de se defender”.

“Vale lembrar que Audálio Dantas não tem essa única passagem na carreira dele (a descoberta de Carolina), pelo contrário. Foi, por exemplo, o responsável por denunciar, sob o AI-5, o assassinato do jornalista Vladimir Herzog nos porões da ditadura. Foi um dos responsáveis pela reabertura democrática brasileira. Dizia de maneira recorrente, entretanto, que a democracia não havia chegado às comunidades, sobretudo para homens negros e pobres”, conclui.

Quarto de Despejo

Quarto de Despejo, publicado em 1960, é fruto dos cadernos que registram a vida diária de Carolina. Com registro que vão de 15 de julho de 1955 a 1º de janeiro de 1960, quando residia na Favela do Canindé, a obra apresentou um retrato ignorado pela sociedade: a miséria.

Mãe solteira, semianalfabeta – ela não completou o primário – e pobre, Carolina se tornou a primeira mulher negra a lançar uma autobiografia.

Para se ter ideia do sucesso, onze mil exemplares foram adquiridos em apenas uma semana. Uma explosão, a obra contou com reedições, traduções para 13 línguas e acabou sendo vendida em mais de 40 países. O livro também se tornou assunto de escritores famosos, como Rachel de Queiroz e Manuel Bandeira.

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