terça-feira 31 de janeiro de 2023

Bandos: da Tapera, alcança-se o mundo

O São Miguel foi um dos primeiros rios a ser visitado pelos portugueses, quando a expedição de Américo Vespúcio e Gonçalo Coelho percorreu o litoral do Nordeste, em 1501.

7 de fevereiro de 2022 10:31 por Gilvan Gomes

 

Fonte: alagoasbrasilnoticias.com.br

 

Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.
O Guardador de Rebanhos”. In: Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa.

O surgimento das povoações e os rios segue o mesmo curso da História. As primeiras civilizações se desenvolveram ao longo das margens dos rios, que ofereciam ótimas condições para a agricultura e a disponibilidade de água doce, a exemplo dos vales do Nilo (Egito) e do Tigre e Eufrates (Mesopotâmia). A sociedade foi formada a partir da rica cadeia de atividades econômicas que se desenvolveu graças à localização.

A história das relações do homem – e suas cidades – com os rios segue uma trajetória complexa, marcada por várias formas de interação ao longo do tempo e do espaço, fundada na dinâmica e sazonalidade naturais dos corpos de água, mas, sobretudo, nas significativamente variáveis necessidades e expectativas humanas, no decorrer de distintos períodos, épocas e lugares. Trata-se, portanto, de uma relação com aproximações e antagonismos sucessivos, materializados de forma distinta ao longo do tempo, nas diversas culturas e nos diversos sítios.

No Brasil, de modo particular em Alagoas, a história não foi diferente e a navegação fluvial foi a principal forma de transporte, antes da difusão das estradas de ferro e de rodagem.

Como o poeta português que pensa a partir da sua aldeia, dirijo minha reflexão para o Povoado Tapera, em Anadia-AL, banhado pelo Rio São Miguel² que tem sua nascente em Tanque D’Arca-AL e sua foz na Barra de São Miguel-AL. Não obstante só termos citado uma fonte histórica de 1881, já encontramos registros dessa região em 1643, no Relatório dos Holandeses² : “No districto das Alagoas se compreendem de ordinário os campos de Inhaú, situados no rio São Miguel, que passa de permeio. São conhecidos esses campos como os mais belos pastos de todo o Brazil” (RIAGP, 1887, p. 159-60).

Foto: Léo Vilanova

Com base no referido relatório pressupõe-se que a ocupação do território ocupado pelo atual município de Anadia ocorreu a partir de meados do século XVII: era um aldeamento indígena, denominado Campos do Arrozal de Inhauns, onde existia uma capela consagrada a São João Nepomuceno.

Ainda no século XVII, foi encontrada, sobre uma pedra na Serra da Morena, uma pequena imagem da Virgem da Piedade, possivelmente perdida ou deixada lá por algum fugitivo dos Palmares. Entretanto, acreditando ser o achado uma providência divina, os moradores transportaram a imagem para a capela e passaram a adorá-la. Não demorou e a evocação a São João Nepomuceno como padroeiro cedeu lugar à veneração a Nossa Senhora da Piedade, como padroeira.

Campos do Arrozal de Inhanhuns, de sua criação dedicada ao milagroso S. João Nepomuceno; perdeu o seu Padroado nos princípios do século passado pelo achado da Imagem de Nossa Senhora da Piedade sobre uma pedra na Serra Morena, deixada por falecimento de um dos fugitivos do Quilombo dos Palmares, que aí vieram estabelecer-se e criarem-se em famílias. (JOBIM, 1881, p. 51)

De acordo com o autor, a vila somente foi criada em 18 de novembro de 1801, com a denominação de Vila Nova de São João de Anadia, em homenagem ao Visconde de Anadia, ministro português que autorizou sua criação:

Campos de Arrozal de Inhanhuns de S. João Nepomuceno, elevado a Vila e a freguesia no dia 18 de novembro de 1801, ofuscou-se com o pomposo título de um pomposo português, como ofuscada foi a memória do primeiro Camponês, que penetrando a amenidade de seu solo não pôs dúvida em chamar – Campos de Arrozal – serras, vales, prados, flores e tudo quanto em alegre panorama a natureza lhe mostrava. (p. 51)

Quanto ao desbravamento e ocupação do território do município, não sabemos ao certo. Há uma possibilidade de que os primeiros povoadores tenham procedido dos núcleos mais antigos da região, vindos de Madalena (Marechal Deodoro), Bom Sucesso (Porto Calco) e São Francisco (Penedo). Atraídos, segundo Torquato Cabral, “pelos encantos de suas planícies, fecundidade de seu solo e exuberância de seus vergéis“.

Foto: Creuza Silva/Arquivo pessoal

Uma outra possibilidade é a de que os povoadores exploraram o rio São Miguel e encontraram o aldeamento dos índios. Os rios eram, à época, as principais vias de desbravamento utilizadas pelos colonizadores.

O São Miguel foi um dos primeiros rios a ser visitado pelos portugueses, quando a expedição de Américo Vespúcio e Gonçalo Coelho percorreu o litoral do Nordeste, em 1501.

O povoado Tapera, uma das primeiras povoações banhadas pelo rio São Miguel, “…é um povoado de 60 casas, situado a [sic]margem direita do rio S. Miguel, pouco mais de quatro quilômetros a Norte da matriz com uma capela e cemitério de pau” (JOBIM, 1881, p. 27).

Não sabemos, com exatidão, como ocorreu o aparecimento da referida povoação nem de sua capela, mas, conforme Jobim (1881):

A capela da povoação de Tapera, sob a invocação de Santa Luzia, edificada de madeira sob diligência de Manoel das Pedras, falecido em 1855, atualmente está entregue a velhas devotas sem ornamento algum” (p. 74). E ainda: “A imagem em oratório foi colocada sobre 4 paus, servindo-lhe de altar uma mesa velha gingradeira, ameaçada a cair a cada instante; Assim, os habitantes do povoado fazem no tempo próprio festas correspondentes ao concurso dos festejantes (p. 75).

Segundo registra o mesmo autor, a devoção a Santa Luzia é anterior a 1881, porque há uma referência ao surto de cólera que grassou no norte do Brasil entre 1854 e 1855: “Por ocasião do Cólera Morbus edificaram um cemitério cercado de madeiras proximamente a ela” (JOBIM, 1881, p. 75).

E, juntamente com a construção da capela, a devoção a Santa Luzia vai se firmando na região e construindo assim sua história sociorreligiosa que se insere no universo de um catolicismo rústico, trazido pelos portugueses:

O catolicismo foi, no passado colonial brasileiro, uma religião obrigatória: os que aqui nasciam o aceitavam por pressuposto de cidadania, exceto os indígenas, aos quais se exterminava ou se convertia. Os que aqui não nasciam tinham que adotá-lo, mesmo que não o compreendessem: os negros escravizados eram batizados no porto de procedência ou de desembarque (NEGRÃO, 2008, p. 117).

Neste catolicismo rústico predominavam as festas religiosas, com suas rezas e celebrações, muitas vezes sem a presença do clero, que era escasso no Brasil do século XIX e, em sua maioria, ficava nos centros urbanos, litorâneos, onde se vivia uma certa ortodoxia. Assim, o resto da colônia, os pequenos vilarejos e os bairros rurais, onde vivia dispersa uma população de baixa densidade, não contava com a presença de párocos locais.

Foto: Léo Vilanova

O padre ali passava apenas de quando em quando, às vezes apenas uma vez ao ano, para a “desobriga”: batizar os nascidos, casar os ajuntados, ouvir as confissões, rezar a missa. Essa era, ao mesmo tempo, a configuração do empreendimento. (NEGRÃO, 2008, p.126)

Também se pode dizer que “a missa da festa, que se manifesta quando o povo sente o poder da comunidade […] se relaciona à imagem […] música, movimento, cor e beleza” (HOORNAERT, 1969, p. 585).

Daí se pode afirmar que a festa religiosa que se celebra há mais de cento e cinquenta anos no povoado Tapera faz parte dessa grande tradição sociorreligiosa. A cada ano, a procissão do mastro com os bandos,³ as novenas, as rezas, a missa, a procissão de Santa Luzia constroem e reconstroem a memória através das narrativas e celebrações.

É sabido a importância do conceito de memória para a formação de uma sociedade, pois é por meio dela que podemos manter vivas as tradições e costumes do passado, ou suas representações. Segundo Le Goff:

A memória, como propriedade de conservar certas informações, remete-nos em primeiro lugar a um conjunto de funções psíquicas, graças às quais o homem pode atualizar impressões ou informações passadas, ou que ele representa como passadas (1990, p. 364).

Portanto, é por meio da narrativa que passamos de geração a geração as nossas memórias, costumes e tradições, como culinária, vestuário, festas religiosas, que, no entanto, se modificam durante os anos, agregando novos ritos na tradição original, porém permanecendo as tradições. Assim, Diehl (2002) afirma que: “A narratividade abarca uma especificidade lógica do leque de relações da linguagem através da qual pessoas narram representações do passado pela historiografia e literatura”. (p. 87)

Segundo o autor, toda narrativa se faz por meio de um discurso fundador que, desta forma, pode designar uma ampla constelação de elementos.

Neste sentido, discurso (logos) e anoma (que conhece), vinculando linguagem e história, articulam-se em combinações diferentes, resultando daí as várias tradições históricas que nada mais são do que traduções do passado. Em outras palavras, as narrativas são traduções e leituras diferentes do passado que, dependendo das combinações e ênfases variadas, possibilitam as mais diferenciadas leituras interpretativas do passado. Porém, todas as possíveis tradições possuem algo em comum. Todas elas demonstram ser incompletas e transitórias, mesmo que busquem a perfeição do passado. (DIEHL, 2002, p. 87)

Portanto, a memória se faz fundamental para a construção de qualquer sociedade, principalmente no que tange à permanência das tradições e costumes, pois é por meio dela que podemos preservar nossa cultura e suas representações, fazendo com que sejam passadas de geração a geração, mantendo-se vivas, mesmo em meio às transformações culturais que acontecem em todas as sociedades.

NOTAS:

1- S. Miguel nasce na raiz da Serra Picada, 8 léguas ao norte da sede da Matriz, superveniente de um brejo, onde toma o nome de Cajuiba; na foz do riachinho Cachoeira chama-se – Talabarte – e com o riacho Cambão liso denomina-se S. Miguel. (JOBIM, 1881, p. 19).

2-WALBEECK, Johanes von; Moucheron, Henrique. Relatório sobre o estado das Alagoas, outubro de 1643.

3- Grupo de trinta a quarenta personagens mascarados, uns a cavalo, outros a pé, que fazem corridas pelo povoado, anunciando a festa de santo que irá acontecer dentro de quinze dias. Enquanto o grupo corre e dança acompanhado pela Bandinha Esquenta Mulher, toca durante todo o tempo. Sua origem é portuguesa. Luiz Edmundo, em “O Rio de Janeiro no Tempo dos Vice-Reis” (1763-1808), afirma que esse acontecimento era comum na Corte, onde os cavaleiros faziam corridas, liam editais para anunciar as festas que iriam acontecer e convidar o povo a participar das mesmas.

REFERENCIAS:

DIEHL, A. Antônio. Cultura historiográfica: memória, identidade e representação. Bauru: Edusc, 2002.
HOORNAERT, Eduardo. Distinção entre “Lei” e “Religião” no Nordeste. REB. Petrópolis, v. 29, n. 3, p. 580-606, set. 1969.
JOBIM, Nicodemos. História de Anadia. Maceió: Instituto Arqueológico e Geográfico Alagoano, 1881. v. 1.
LE GOFF, Jacques.1924 História e memória. Campinas: Editora da
Unicamp, 1990.
NEGRÃO, Lísias Nogueira. Trajetórias do sagrado. In.: Tempo Social, revista de sociologia da USP, v. 20, n. 2, 2008, pp. 115-132.
WALBEECK, Johanes von; Moucheron, Henrique. Relatório sobre o estado das Alagoas, outubro de 1643.

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