sábado 20 de abril de 2024

A ÁGUA QUE ESTAMOS CONSUMINDO

22 de março de 2022 8:59 por Fátima de Sá

O que podemos encontrar?

No início do mês de março, uma publicação[i] nos revelava já em seu título, uma verdadeira tragédia a que estamos submetidos: Água da torneira foi contaminada com produtos químicos e radioativos em 763 cidades. E a matéria inicia com a seguinte informação:

“Todos nós bebemos pequenas doses diárias de substâncias químicas e radioativas. São agrotóxicos e outros resíduos da indústria que se misturam aos rios e represas. Alguns especialistas defendem que não há risco se elas estiverem dentro do limite regulamentado. Outros argumentam que as doses aceitas no Brasil são permissivas, pois são bem mais altas que as da União Europeia”.

O que é bom para o Brasil não é para a União Europeia

Sobre isso, já denunciamos em outra postagem de 16/11/2021[ii], quando falamos da assimetria entre os índices admitidos no Brasil e na União Europeia (UE). Por exemplo, dentre os 10 agrotóxicos mais vendidos no Brasil, três têm seus usos proibidos na UE. Outro exemplo estarrecedor é o caso de um pesticida organofosforado. Pois aqui é permitido 400 vezes mais resíduos dele na produção de feijão do que é permitido na UE.

Portanto, imaginemos as consequências do consumo diário do feijão nosso de cada dia e de outros alimentos. Eles podem fornecer não apenas nutrientes, mas também, como alerta a matéria: “o risco de câncer, mutações genéticas, problemas hormonais, nos rins, fígado e no sistema nervoso – a depender do produto”. E embora os alimentos estejam cada vez mais caros, a água é sempre consumida, nem que seja a que sai da torneira.

Os dados são apenas de 763 cidades. E as demais?

A matéria se refere à água que saiu da torneira de 763 cidades nos anos 2018, 2019 e 2020 – período em que foram coletados os dados. Substâncias químicas e radioativas foram encontradas acima do limite em 1 de cada 4 municípios que fizeram os testes. O detalhamento da metodologia pode ser encontrado na matéria do site Repórter Brasil. Adiantamos a informação de que os testes são feitos após o tratamento da água e a maioria dessas substâncias não pode ser removida por filtros ou por fervura da água.

Como seriam os resultados desses testes em cidades que sequer têm tratamento da água?

Algumas dessas substâncias têm efeito cumulativo e silencioso, e seus impactos podem ser detectados após muitos anos sendo acumulados no organismo, resultando em doenças graves. Portanto, explica um professor de toxicologia (Prof. Fábio Kummrow, da Universidade Federal de São Paulo) entrevistado pelas repórteres, “contaminada ou imprópria existe risco para quem bebe a água, e ele varia de acordo com a substância e com o número de vezes que ela foi consumida ao longo do tempo”.

Nosso futuro é cada vez mais roubado

No primeiro texto que postei neste blog sobre Agrotóxicos[iii], falei sobre um livro publicado no final do século XX. Trata-se de “Nosso futuro roubado” (Our stolen future), que mostra dados de pesquisas efetuadas em vários países e que trazem informações estarrecedoras sobre os efeitos dessas substâncias químicas em animais e, principalmente, em humanos. Apesar do tempo transcorrido desde a publicação (1997), vale a pena voltar a ler este livro, pois a situação só piorou. E, no Brasil, houve a aprovação de mais de 500 novos agrotóxicos[iv] somente no ano passado!

Entrevistado pelo site Brasil de Fato, o engenheiro agrônomo Leonardo Melgarejo, do Movimento Ciência Cidadã, alertou para o risco de contaminação mesmo para quem está longe das lavouras: “Veja os casos de deriva de agrotóxicos. O sujeito aplica o veneno na sua lavoura e, a 6 quilômetros de distância, tem gente sendo intoxicada. Outro exemplo é que usamos no Brasil um bilhão de litros (desses produtos) por ano e tudo isso vai parar na água. (…) Os estudos realizados sobre a qualidade da água no Brasil apontam que pelo menos 25% dos municípios analisados têm até 27 tipos de venenos na água.”

Substâncias cancerígenas

Por exemplo, os dados atuais mostraram que o nitrato, “usado na fabricação de fertilizantes, conservantes de alimentos, explosivos e medicamentos”, está colocado em terceiro lugar entre as substâncias que mais vezes excederam o limite considerado tolerável. Não é demais lembrar que essa é uma substância classificada como “provavelmente cancerígena” pela Organização Mundial de Saúde.

Por outro lado, as autoras da matéria sobre o mapa da água finalizam:

O Mapa da Água

 

 

No mapa fornecido pelo site Repórter Brasil (elaborado a partir dos dados do levantamento), é possível acessar os dados das cidades pesquisadas. E, as informações são testes feitos pelas empresas de abastecimento, que os enviaram ao banco de dados do Ministério da Saúde, o SISAGUA – Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano.

No entanto, não é possível sabermos a situação das cidades alagoanas. Ao buscar os dados para algumas cidades do Estado, por exemplo a Capital, depara-se com a seguinte informação: Maceió (AL) enviou dados inconsistentes ao Ministério da Saúde[v]. E, se a capital não forneceu dados consistentes, imaginemos as demais cidades do Estado. Cabe a todas/todos contribuintes fazerem a cobrança de seus direitos.

Commodities do egoísmo

Mais uma vez, utilizo reflexão de Melgarejo (acima citado): “O Brasil depende do envenenamento de seu território para gerar a renda dessas commodities que são exportadas”. “Ir contra o uso de agrotóxicos significa ir contra o domínio de grupos que não dão a mínima para os direitos humanos e para os problemas ambientais”.

Lutemos pois! É a nossa vida e o futuro das crianças de agora. Essas crianças que, como mostrei em artigo anterior, estão mamando veneno, literalmente.

193

[i] Disponível em: https://reporterbrasil.org.br/2022/03/exclusivo-agua-da-torneira-foi-contaminada-com-produtos-quimicos-e-radioativos-em-763-cidades/. Acesso em: 20 mar. 2022.

[ii] https://082noticias.com/2021/10/08/agrotoxicos-e-impactos-ambientais/

[iii] Disponível em: https://082noticias.com/2021/08/09/20905/

[iv] Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2022/01/12/governo-bolsonaro-bate-proprio-recorde-e-libera-uso-de-550-novos-agrotoxicos-em-2021. Acesso em: 20 mar. 2022.

[v] Disponível em: https://mapadaagua.reporterbrasil.org.br/. Acesso em: 20 mar 2022.

 

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