A saga de um pescador

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Por Adelmo Marques Luz

Fonte da imagem: celebrealagoas.blogspot.com

Nos idos dos anos sessenta, em Marechal Deodoro, município do Estado de Alagoas, mal havia luz elétrica. O lugar possuía hábitos moderados e vida monótona, e os costumes eram baseados em regras bem definidas e estanques. Cidade de mobilidade precária, o sossego, acalentado pela brisa que soprava da lagoa que a circunda, estimulava os habitantes daquele lugar aprazível ao exercício da preguiça. A utilização lagunar como via de comunicação entre as comunidades circunvizinhas era recorrente e atendia às necessidades da população na época em que os engenhos Lamas e Oitizeiro, entre outros, desempenharam suas atividades econômicas.

Nas margens da lagoa Manguaba, no povoado conhecido pelo nome de Porto das Canoas, existia um modesto ancoradouro onde se realizavam reparos em pequenas embarcações de madeira. Naquele recanto vivia uma família cujo provedor chamava-se Benga, um cafuzo de 35 anos, aproximadamente, pescador desde criança. Aprendeu o ofício com o avô, e logo mostrou sua aptidão inata para a realização daquele ofício. Exímio nadador, possuidor de um fôlego inigualável, mergulhava sem o auxílio de equipamentos até as profundezas de onde extraía das águas salobras o sustento com que apascentava a fome de uma prole extensa.

Abrigava-se com a família num casebre de taipa coberto com palhas. Morada simples onde nada demonstrava ostentação, tampouco escassez. Embora não houvesse dinheiro, a comida era farta. O chão da choupana constituía-se de forma irregular e de barro batido, e o fogão, que enegrecia o fundo dos tachos, alimentava-se da madeira trazida da mata. À noite, viam-se luzes cambaleantes emanarem da janela, provenientes dos candeeiros. A vegetação, no entorno, compunha-se de frondosas árvores cuja prevalência era das mangueiras. Não havia estradas, e pelo local circulavam apenas pedestres e veículos de tração animal. Quando estavam ociosos, o que quase sempre ocorria, os nativos, obstinados comedores de crustáceos, espichavam-se, bocejantes, depois de ingerir cachaça sob o alento do vento morno que soprava ininterruptamente.

Eis que um dia deu-se uma refrega entre dois nativos que alterou a rotina do lugar. O fato determinou o fim do sossego de que até então todos ali desfrutavam. Para Benga, então, foi crucial, porquanto envolveu seu irmão mais novo, Gilberto, assassinado por Nô, seu amigo de infância e companheiro de farras. Ambos disputaram a preferência de Nina, uma jovem prostituta recém-chegada ao cabaré da cidade, e que ainda não havia sido contaminada pela sífilis. Dessa relação recente e despretensiosa, sobreveio o entrevero que transformou as famílias até então unidas pelo sentimento da camaradagem em adversárias figadais.

Gilberto já tinha conhecimento das intenções de Nô em relação a Nina, mas ao vê-la pela primeira vez no salão do cabaré, maquiada e metida em roupas provocantes, não resistiu aos seus encantos. Naquela noite, Nina ainda não havia se comprometido com ninguém. Aproveitando-se da ausência de Nô, que tinha ido ao banheiro, Gilberto abordou a meretriz, desfazendo-se em obséquios, jurando proporcionar-lhe uma noitada primorosa. A meretriz encantou-se com os cortejos do incorrigível galanteador e terminou aquiescendo em lhe fazer companhia. Sentaram-se à mesa mais próxima e passaram a beber ao som de uma vitrola que tocava Nelson Gonçalves. A cena pegou Nô de surpresa, cujo temperamento excedia em timidez. Contava que Gilberto pudesse ajudá-lo, conforme lhe havia prometido, a aproximar-se da rapariga por quem estava apaixonado. Por mais que tentasse, não conseguia dissimular a contundência do golpe. Havia outras mulheres disponíveis, mas nenhuma delas despertava seu interesse. Nina era a de sua predileção. Saiu sem se despedir, contrariado, pois estava a ponto de cometer um desatino.

Enquanto isso, Gilberto, alheio ao desapontamento do amigo, tagarelava como um papagaio, feliz da vida com a sua recente conquista. Na madrugada o casal recolheu-se ao quarto, tomaram banho com a água fria do pote e entregaram-se aos prazeres do amor.

Quanto Nô chegou em casa sua esposa já estava em pé, ocupada com os afazeres domésticos, e nem se deu conta do estado de espírito do marido. Mas, ao vê-lo limpando a espingarda empoeirada que ficava exposta na parede da sala, perguntou-lhe surpresa:

– Vai caçar?

Com a cara amarrada, Nô respondeu-lhe que sim, mas recomendou que ela cuidasse de refogar o peixe para o almoço, porque a carne do bicho que ele iria matar naquele dia não servia para comer.

Saiu e foi tocaiar Gilberto num terreno repleto de bananeiras, próximo à casa de ambos, imaginando que ali não corria o risco de ser identificado. O amante, desavisado, ainda sob o efeito da aguardente, regressava em paz e felicíssimo com a pândega, quando se ouviu o estampido. Mesmo ferido gravemente no peito, Gilberto conseguiu reconhecer seu agressor, que rompeu em fuga desenfreada. Enquanto teve forças gritou seu nome, atribuindo-lhe a autoria do crime. Os vizinhos acudiram-no. A esposa e os filhos, ao vê-lo estirado no chão sobre uma poça de sangue, deram-lhe as mãos num derradeiro gesto de despedida. Imóvel e mudo, não foi difícil perceber que a vida o tinha abandonado.

Benga encontrava-se no Porto das Canoas, ultimando os preparativos para a pesca. Quando sua mulher lhe repassou os fatos em seus mínimos detalhes, seu rosto foi tomado por uma lividez vítrea. Naquele dia não trabalhou, não comeu, não dormiu, e foi dominado por um agastamento que o deixou mole e estúpido. Com a morte de Gilberto, o destino lhe infligiu árduas incumbências, entre as quais, sustentar a família órfã composta de mulher e quatro filhos. Restou-lhe curtir a dor da perda, atormentado pelas inquietantes reflexões quanto ao futuro.

Não obstante o assassino ter sido preso, o caso não se limitou às barras da Justiça. É que o irmão mais velho de Nô, conhecido pela alcunha de Raminho, não deu o caso por encerrado. Anunciava pelos quatros cantos que iria concluir o serviço matando Benga, por ser este, segundo ele, o único membro da família adversária capaz de esboçar resistência.

Raminho, que nunca abdicava do punhal, onde encontrava Benga insultava-o aos brados, conclamando-o ao embate. Receando novos vexames, Benga acautelava-se, evitando circular pelas ruas centrais da cidade, sobretudo à noite, e o seu temor não era infundado, pois já havia sido alertado de que estava sendo seguido. Possuidor de uma índole ordeira, razão pela qual era estimado pela comunidade, dava demonstrações inequívocas de querer o armistício.

Deixou até de ir à feira, onde era necessária sua presença, sobrecarregando a esposa, Nenen, a quem transferiu a atribuição que cabia a ambos: vender o excedente da pesca. Mas nem ela foi poupada. Raminho, que em mais de uma oportunidade lhe interpelara em tom de provocação, dizia, a título de ameaça, que ia arrancar as tripas de Benga da mesma maneira como se trata o peixe. Testemunhas asseguraram ter visto Raminho, em mais de uma oportunidade, escarrando sobre o pescado que o casal expunha à venda.

Certo dia, Benga deu pela presença de um sentimento que lhe invadia a mente e o coração, interferindo em seu comportamento, mas não sabia determinar do que se tratava. Ignorava a si próprio em muitos aspectos. O certo é que a condição emocional em que se encontrava estorvava-lhe a percepção e o ânimo, prejudicando o desempenho de suas atividades no dia a dia. Temia o imponderável, o que o fez afastar-se do convívio comunitário e limitar suas relações aos parentes e a alguns amigos. Perambulava, apenas, por uma área contígua à sua casa, ou ia espichar-se em sua canoa ancorada no trapiche onde se demorava, sopesando as causas e as razões que o levaram a fazer parte do insólito enredo. Nessas ocasiões, não raro era necessário que alguém lhe interrompesse as reminiscências, chamando-o à realidade por se manter demasiadamente distante, absorto e mudo, ocupado apenas com seus próprios pensamentos.

O vigário da paróquia, ao tomar conhecimento da contenda, resolveu consultar os desavindos separadamente. Ao final de suas alegações, o pároco fez às partes um longo e austero arrazoado, exortando-as à conciliação. Gesto louvável do prestativo sacerdote, mas a julgar pelo desfecho da urdidura, o apelo não surtiu o efeito desejado.

A orfandade da família, justamente quando mais precisava do seu arrimo, era a maior apreensão de Benga. Sabia que era a única escora e o último resguardo da prole que havia crescido em número e necessidades com a morte do irmão. A lagoa passou a ser o único lugar em que se sentia seguro, daí ter passado a pescar com mais frequência. Conhecia todos aqueles recantos por tê-los percorrido quando menino na companhia do avô. Ali havia nascido e se criado, e vezes sem conta exercera o seu mister.

Em uma de suas notívagas pescarias, logo após ganhar as águas, deixou-se vagar no ritmo da correnteza, menosprezando as condições do tempo, que naquela noite indicava ser desaconselhável a prática do seu ofício. O céu achava-se encoberto por nuvens inquietas e carregadas, e o vento soprava forte, batendo portas e desfolhando árvores. Estava tão escuro que nada se podia distinguir a poucos metros de distância. A julgar pela ventania que atiçava as águas pardacentas, prenunciando aguaceiro, ninguém, em sã consciência, arriscaria sua vida a desafiar a natureza. Nesse período a maré espanta os peixes, as águas crescem em volume e força e não respeitam obstáculos, subjugando tudo que se atreve a barrar-lhe o caminho. É claro que Benga conhecia o fenômeno. A experiência acumulada ao longo dos anos e a sua herança atávica davam-lhe o completo domínio sobre o exercício da atividade, mas em razão do estado emocional em que se encontrava, desconsiderou os fatos, numa demonstração despropositada de que não temia a morte.

A canoa singrou em direção às correntes profundas do Canal Grande que serve de ligação com o mar, em cujo itinerário, principalmente no período invernoso, naus foram tragadas e muitos pereceram. Pela incidência dos naufrágios ocorridos naquela travessia, acreditava-se que fosse amaldiçoada, o que a fez ganhar fama e incutir o medo na população ribeirinha, exigindo redobrada atenção dos timoneiros.

Em pouco tempo desabou o temporal previamente anunciado. Os rios Paraíba e Sumaúma, fiéis tributários da Manguaba, receberam uma quantidade desmedida de águas e, sobrecarregados, transbordaram. O vento soprava impetuoso, vergando coqueiros, agigantando as vagas, mas Benga, fazendo uso de sua destreza, manejava para que a canoa permanecesse à flor das ondas grossas e arredias. Foi impossível manter a posição quando surgiu de forma inesperada um tumultuoso tropel, movendo-se em desordem, e lhe arrebatou o remo das mãos. Benga foi arremessado para longe da canoa, que emborcou e desapareceu. Na condição de náufrago solitário, restou-lhe espernear para se manter vivo.

Para fugir dos redemoinhos que teimavam em arrastá-lo para as profundezas, nadou incansavelmente em direção à terra firme. Depois de muito pelejar, com cãibras a imobilizar-lhe as pernas, sem fôlego nem voz, abraçou-se a um tronco de madeira que lhe serviu de salva-vidas. Aportou na ilha do Frade, uma nesga de pântano de vegetação rasteira, santuário dos crustáceos, onde caiu exausto como se o corpo lhe pesasse uma tonelada. Jazia por terra com os olhos esbugalhados, vomitando o excesso da água que havia engolido. Mas, enfim, estava salvo.

Ao amanhecer, o tempo voltou à bonança e o sol surgiu descortinando a paisagem encharcada pela tromba-d’água. A família estava apreensiva quando Benga, rilhando os dentes de frio, bateu à porta. Foi um alívio. De pouca conversa, dirigiu-se à cozinha, onde tomou posse de uma garrafa de aguardente. Bebeu e foi deitar-se para dormir o sono dos mortos.
Ao acordar, foi indagado pela mulher sobre o seu sumiço na noite chuvosa. Tergiversou, pois não pretendia admitir a imprudência que cometera. Assegurou que tinha atravessado a lagoa, em direção a Taperaguá, rumo à casa do velho Moisés, a fim de acertar um serviço de calafetagem. Por conta do temporal, foi aconselhado pelo mestre a permanecer por lá até que as condições do tempo lhe garantissem o retorno. É claro que Nenen não se deixou enganar, mas deu o caso por encerrado, receando contrariar o marido, que ultimamente andava avoado.

Assim como Raminho o fazia sofrer, sua consciência também era responsável pelo seu padecimento, só que por vieses diferentes. Aquele o hostilizava com ameaças físicas, humilhando-o abertamente; enquanto esta atuava em surdina, chamando-o à responsabilidade pelo descumprimento de obrigações inescusáveis. Admitia, contrariado, que violara preceitos fundamentais, entre os eles o sagrado dever de proteger a família. Na qualidade de irmão mais velho, esposo fiel e pai dedicado, envergonhava-se por não ter tomado providências que pusessem termo ao inaceitável drama.

O episódio da fatídica travessia, que quase lhe ceifou a vida, incutiu-lhe a certeza de que era um homem corajoso. Afinal, quem, se não ele, desafiaria a Manguaba na ressaca, açulada por São Pedro, durante uma tempestade extraordinária? Quem seria capaz de cruzar seu leito no breu e no braço, no auge da sua cólera, com o céu trovejando e cuspindo raios? Remoendo essas questões durante os momentos de insônia, convenceu-se, aos poucos, da ideia de vingança. Desse dia em diante Benga negou-se a viver encerrado em casa e abdicou da clausura, mas sabendo que ficaria exposto às intenções homicidas do inimigo manifesto.

Não demorou muito para que ocorresse um novo encontro. E como era de se esperar, Raminho invectivou-o. Era domingo, dia em que a feira é lucrativa e o apurado possibilita a quem mercadeja uma folga no orçamento. Mas Benga deliberou fechar seu negócio antes da hora e foi para casa bufando com a desdita que Raminho lhe jogou na cara. Naquela altura, ninguém dissuadia Benga da ideia de liquidar o seu oponente. Nem o choro da mulher e dos filhos, ao vê-lo amolar a foice, confessando o que tinha em mente, vergou seu ânimo. Saiu à cata do inimigo, acumulando forças que lhe eram desconhecidas, mas necessárias para levar a cabo sua incumbência. Encontrou Raminho bebendo junto a alguns amigos, num boteco de pouca freguesia.

Ao entrar no recinto, foi interpelado por conciliadores que perceberam o significado de sua presença. Benga não lhes deu ouvidos. Seu semblante era tão assustador quanto a lâmina que portava ostensivamente. Ao vê-lo, Raminho, diferentemente de outras vezes, sentiu o medo manietar-lhe os músculos e talhar seu sangue. Agora ele era o alvo, a presa encurralada que tinha diante de si um canídeo sedento de suas vísceras. Pálido e sem viço, impossibilitado de opor resistência, não ousou sacar de seu punhal até porque não haveria tempo. Nem sequer conseguia articular um discurso, tal a inércia de que fora acometido. Instalou-se um silêncio de instantes que lhe pareceu uma eternidade. Pronunciou palavras vazias, disparatadas, que tinham o claro objetivo de procrastinar a execução. Esperou, debalde, surgir a oportunidade de pular o balcão e fugir pela porta dos fundos. Mas Benga mantinha-se vigilante como se lhe lesse o pensamento. Encerrado num canto de parede e sob o cerco de um alucinado, Raminho percorria o recinto com os olhos suplicantes à procura de alguém que pudesse interceder e lhe salvar a vida. Mas todos os que se faziam presentes, ao perceberem o propósito da invasão, evacuaram antes de ter início o acerto de contas. Sua vida estava por um triz, e a morte a dois passos de distância.

Recebeu a primeira cutilada na altura do pescoço, que o levou ao chão. O agressor deu continuidade ao espetáculo deplorável, aplicando-lhe uma sucessão rápida de golpes por todo o corpo, que foi esquartejado.
Muita gente, ao ouvir a gritaria, acorreu ao local e formou em volta da cena sanguinolenta um círculo atento e silencioso. A notícia do crime espalhou-se rapidamente por toda a cidade, atraindo curiosos e desocupados. O corpo do moribundo jazia estirado no chão; escorria, em direção à sarjeta, grande quantidade de sangue.

Benga retirou-se sem que ninguém o incomodasse. Cruzou a área do mercado público que estava lotado naquela hora, numa movimentação desordenada de pessoas que entraram em pânico. Mas Benga reagiu com indiferença ao tumulto e continuou caminhando em direção à delegacia, que funcionava num prédio antigo na parte alta da cidade. Entrou segurando pelos cabelos a cabeça decapitada que balançava como um pêndulo, e de onde gotejava sangue. A guarnição plantonista jogava dominó, e ao vê-lo aproximar-se, quedou-se estupefata. Julgaram, a princípio, tratar-se de uma brincadeira, mas diante da realidade inquestionável e inusitada, deram-lhe voz de prisão. Recolheram-no ao xadrez e meses depois foi julgado. Absolveram-no por unanimidade, sob a alegação de que agiu em legítima defesa.

Adelmo Marques Luz é contista e funcionário Público

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