Uma Imensa Saudade

Se tocava, era com tal delicadeza, alegria e emoção, que a ninguém passava outro sentido que não fosse harmonia, intimidade, carinho e interação.

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Por Mácleim Carneiro

Beto Batera.

 

No dia 11 de maio de 2010, aos 60 anos, um dos personagens mais marcantes e inesquecíveis da música alagoana disse adeus e modulou para outra partitura, uma linha a mais no pentagrama, sempre em tom maior. Porém, antes disso, viveu intensamente, não usou pausas, estava sempre em play, em fusas e semínimas. Deu à vida o mesmo ritmo de felicidade com o qual, magistral e talentosamente, dominava seu instrumento de trabalho e emoção. Nele, exerceu toda a dinâmica que a vida lhe ofertou. Neles, o instrumento e a vida, os contratempos tinham a precisão de suas baquetas.

Habita um paradoxo no instrumento que ele amava: é do gênero feminino (embora instrumento) e fragmentado em peças bem distintas. Para alguns, é preciso bater, golpear para obter respostas. Para outros, as partes nunca formam um todo. Para ele, Beto Batera, não era assim! Se tocava, era com tal delicadeza, alegria e emoção, que a ninguém passava outro sentido que não fosse harmonia, intimidade, carinho e interação. Ele e ela eram um todo, onde o amalgama tornava-os células rítmicas vivas e pulsantes. Assim, conduziam-se por caminhos, por artérias que só eles sabiam aonde chegar. Assim, hipnotizavam os demais, como o flautista e sua flauta mágica.

BBC de Londres

Certa vez, há 200 anos, fui visitá-lo em um hospital, após ele ter se arrebentado todo, em mais um dos seus vários acidentes de moto. Ao encontrá-lo todo engessado e com uma das pernas içada por uma espécie de guincho, cheia de ferros, parecendo uma antena de TV, daquelas que habitavam os telhados das casas, tentei demonstrar minha consternação pelo seu estado. Não tive tempo, ele foi logo dizendo: “Maquilem (ele me chamava assim), agora tô pegando até a BBC de Londres!”

Lembrei desse episódio em seu sepultamento, onde grande parte dos músicos, aqui do aquário, estiveram lá para prestar a última homenagem ao mestre e ícone da música alagoana. Pois bem, percebi que não caberia amargura. Não, sendo o Beto quem foi: um ser humano fantástico, que o tempo todo nos ensinava que a vida deve ser vivida intensamente, e que ser feliz, cada um ao seu modo, é o que importa. Saudade, sim! Uma imensa saudade! Replico o que escreveu a minha amiga Mavi: se não bate o coração, que batam outros sons onde ele possa brilhar. E mais, afinando o escrito como quem afina um instrumento, “que o Beto descanse em jazz”, como escreveu a minha miga Cidinha.

No +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!!!

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