quinta-feira 23 de maio de 2024

SONHOS SOTERRADOS, ou, uma micro narrativa sobre um desastre

25 de julho de 2022 3:35 por Edson Bezerra

 

 

 

 

 

 

Em 2022, completa quatro anos da tragédia provocada pela Braskem, empresa que em seu nascedouro, já embrionária enquanto Salgema, há cinquenta anos iniciava o seu roteiro de destruição da cidade de Maceió.

A devastação iniciou-se pelos bairros do Pontal da Barra e do Trapiche da Barra na década de 70. Mas foi a partir de 2019 que a famigerada indústria mostrou toda sua truculência. Isso se deu quando da sua irresponsável e criminosa exploração das minas de salgema, culminado com o falecimento dos históricos bairros do Bom Parto, Mutange, Bebedouro e Pinheiro, soterrando-se, deste modo, pelas bandas de Bebedouro, as memórias de Major Bonifácio e de suas centenárias festas, e, dentre tantas outras primitividades, também condenadas ao desaparecimento, a secular trajetória dos trens. E do somatório destas destruições, todo o património histórico e cultural daquelas paisagens, transformados agora em alegorias do passado.

E foi sob o impacto de todo esse cenário desolador que o compositor Chico Elpídio, filho de um nativo dali, Manoel Elpídio, morador da secular Ladeira do Calmon, deixando de lado as suas canções de amor se aventurou na composição de uma narrativa de protesto, na qual, ao invés do romantismo do tipo:

Solidão
“O que fazer com tanto amor,
O que fazer pra aliviar a dor da tua ausência.”

De resto, tão comuns em tantas de suas composições, em “SONHOS SOTERRADOS”, ele deixou de lado as suas narrativas amorosas para protestar contra o desastre:

“Era um lamento só,
Era o caos, não o cais.
Foi enfim a vida que parou”

Eis que, hoje, dia cinco de junho completa um ano que ele, um compositor que por mais de cinco décadas vem se compondo e recompondo na cena musical da cidade (fundador do Grupo Terra na década de oitenta e autor de dezenas de peças musicais sendo muitas delas gravadas ou interpretadas por Leureny, Orquestra Gafieira Caprichosa, Dulce Miranda, Nara Cordeiro, Eliezer Setton, Wilma Miranda, Wilma Araújo, Lara Melo e Dydha Lyra), ampliando o seu estilo de melodias alinhadas nos marcos tradicionais da MPB ( do samba à bossa nova e boleros).

Em 2021, na tentativa de registrar todo o lastro das tragédias provocadas pela Braskem, compôs o RAP (Sonhos Soterrados) em uma interpretação hip-hop caeté das Alagoas, o Toninho ZS do Tequila Bomb, filmado por dentre os escombros das casas da Ladeira do Calmom, uma das alternativas de fuga em caso de desastre, Sonhos Soterrados é uma narrativa do desastre:

SONHOS SOTERRADOS

Era um lamento só,
Era o caos, não o cais.
Foi enfim a vida que parou

Os moradores da ladeira do Calmon, em Bebedouro.
De repente sentiu o mundo desabar sob os seus pés
Foi tudo tão de repente feito um bote de serpente
Intenso feito um raio, um pensamento, enfim.
Era um lamento só, era o caos, não o cais.
A vida desandou, desandou.

Os moradores do Bom Parto, do Pinheiro e do Mutange.
Dizimados pela ganância insaciável do Poder
Famílias despejadas, ruínas de um sonho.
Retrato do descaso, cicatrizes tão profundas.
Era um lamento só, era o caos, não o cais.
Foi enfim a vida que parou, que parou – Uô uô

Quem há de falar do desespero?
Quem há de lembrar-se da aflição?
Quem há de falar do sofrimento?
Me diz quem dará a solução?
Quem há de falar do desalento?
Dos sonhos soterrados nesse chão.

Todavia, há que se pensar que no fundo ainda se passarão muitas décadas para que as Alagoas em geral e a cidade de Maceió em particular, possam assimilar os marcos e os efeitos de todas as tragédias a que dezenas de milhares de pessoas foram submetidas. E foi justamente isto que a narrativa de Sonhos Soterrados, em meio a uma mistura híbrida de Rap com fragmentos de samba, revela-se enquanto um grito de dor, na verdade um registro de lamento cantado na tentativa de sublimar toda tragédia a que estamos submetidos e subjugados no amplo lastro do desastre. Um pesadelo no qual todos nós estamos envolvidos, afinal:

Quem há de falar do desespero?
Quem há de lembrar-se da aflição?
Quem há de falar do sofrimento?
Me diz quem dará…

Sim, o que há de falar?
No mais, é ouvir e ver (assista ao vídeo abaixo)

 

 

 

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