sábado 3 de dezembro de 2022

Sanidade à música brasileira

Fica a certeza de que a arte em seus encantos é plena, emocionalmente cativante, e nos torna mais humanos.

11 de junho de 2022 9:51 por Mácleim Carneiro

Dessa vez, por absoluto acaso, deixei para ouvir o álbum Achados & Perdidos, do compositor Luiz Millan, após fazer uma rápida pesquisa e descobrir um belo vídeo documentário https://www.youtube.com/watch?v=T6YzVPqnI4A, onde diversas personagens falam sobre esse belíssimo trabalho. Lá, encontrei depoimentos que definem, com palavras absolutamente assertivas, essa nova pérola da música brasileira. “Música acolhedora, espiritual e profunda; uma preciosidade de disco, repertório e arranjos; MPB arte; estética da beleza; uma tribo que se preocupa com harmonia, melodia e letras”, são observações pinçadas do documentário, facilmente ratificadas por mim, após a audição de absoluto deleite e algumas surpresas maravilhosas.

Uma delas, foi “reencontrar” a cantora e compositora paulistana Giana Viscardi, como uma das protagonistas desse trabalho, e lembrar que a conheci na Europa, mais precisamente em Lausanne (Atelier Volant) e logo após no Montreux Jazz Festival, onde estávamos em turnê e tive o prazer de assistir aos seus shows, nos mesmos locais em que eu também me apresentaria. A outra boa surpresa foi saber que o documentário foi dirigido e produzido pelos meus queridos amigos Moisés Santana e Beto Previero, respectivamente. Além disso, e que não chega bem a ser uma surpresa, foi constatar que o psiquiatra Luiz Millan entra fácil no rol de talentos da medicina, que tem, por exemplo, Aldir Blanc, Capinam, Dalto, Zé Dantas e, internacionalmente, o uruguaio Jorge Drexler, só para citar alguns.

Protagonismos

O fato é que a magia começa em ‘Morungaba’ (Moacyr Zwarg e Luiz Millan), que abre o álbum de maneira envolvente, a bordo de um samba swingado, com a flauta de Léa Freire guiando os caminhos, para que sigamos hipnotizados até o fim e desembarquemos cientes de que vivenciamos um achado. Logo na primeira, temos a certeza de que estamos diante de algo a ser degustado com envolvimento e nenhuma parcimônia. Fica explícita, também, a perfeita consonância entre os timbres da Giana Viscatdi e Luiz Millan, num duo que será repetido em diversas faixas adiante. ‘Madrugada’ (Luiz Millan e Michel Freidenson) vem em seguida, como um belíssimo tema instrumental, onde o cello de Adriana Holtz e o violão de Camillo Carrara são tão protagonistas quanto a flauta de Léa Freire. Sim, se a música também vale por mil palavras, esse tema descreve, imageticamente, a atmosfera de uma madrugada serena e feita para contemplação.

Giana volta maravilhosa, dizendo que “setembro despertou o azul da manhã”, em ‘Choro Para Lisboa’ (Maurício Detoni e Luiz Millan). Junto com ela, o próprio Detoni divide o protagonismo do canto e mostra que também é “bom de bico”, assoviando como se o assovio fosse parte indissociável do chorinho com um quê de canção. ‘Samba da Pergunta’ (Pigarilho e Marcos Vasconcellos) começa com uma introdução imponente, numa atmosfera de suspense, que chama o fruidor a abstrair-se da contemplação pura e simples e interagir com interrogações e suposições sobre o que virá depois. E o depois nos reserva uma bossa jobiniana deliciosa, que nos conduz magicamente até ao solo inspiradíssimo do violão de Camilo Carrara e, mais além, finda quase que na mesma intenção da atmosfera introdutória.

Apuro Estético

O tema instrumental ‘Achados & Perdidos’ (Luiz Millan e Moacyr Zwarg), que dá título ao álbum, confirma uma das percepções mais interessantes desse trabalho: o amálgama ou a não diferença entre música cantada e música instrumental, quando ambas têm apuro estético em seus fundamentos. Luiz Millan nos revela, indiscutivelmente, essa possibilidade, onde a musicalidade mana intensamente e se estabelece sem a necessidade de hermetismos decifráveis apenas por quem é do métier. Léa Freire (flauta), Bruno Soares (Flugel), Edu Ribeiro (bateria), Sylvinho Mazzucca (baixo), Camilo Carrara (violão), formam um dream team, sob a batuta dos arranjos maravilhosos e o piano airoso e minimalisticamente classudo de Michel Freidenson. Tanta musicalidade e talento juntos, traduzem sofisticação e elegância sonora, para cada faixa desse belíssimo trabalho!

Na sequência, aparece ‘Brazil com S’ (Rita Lee e Roberto de Carvalho), cantada por Giana Viscardi e Luiz Millan, com o sax tenor pra lá de aconchegante do Tato Cunha. É uma das quatro músicas, registradas nesse álbum, que não tem a autoria do compositor paulista, coisa que ele exercita pela primeira vez em um registro fonográfico. As outras, são: ‘Samba da Pergunta’ (Pigarilho e Marcos Vasconcellos), ‘Não Pode Ser’ (Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle) – gravada no segundo álbum do Marcos Valle, O Compositor e Cantor, e aqui respeitada sua essência e o arranjo original de Eumir Deodato –, e ‘Outro Cais’ (Eduardo Gudin e José Costa Neto), uma das mais belas obras do cancioneiro brasileiro e da lavra dessa dupla de compositores fantásticos.

Batuta Sensorial

E o desfile sofisticado de preciosidades prossegue, até nos depararmos com ‘Queimada’ (Plínio Cutait e Luiz Millan), arrebatadoramente amazônica em sua estrutura harmônica e melódica, cujo arranjo é tão surpreendente e fiel ao que os compositores provocam, como seguramente devem ser as surpresas que uma floresta nos reserva, em sua imensidão de vidas pulsantes e altivas. Sem dúvida, um dos pontos altos (e são vários) desse belíssimo álbum! Destaque-se a interpretação dos músicos, a bateria do Edu Ribeiro, como que guiados não por uma partitura, mas por sentimentos regidos pela batuta sensorial da emoção.

O conjunto dessa obra-prima, Achados & Perdidos, é finalizado pela décima quarta faixa, ‘Luzes da Cidade’ (Luiz Millan e Moacyr Zwarg), outro tema instrumental, com sabor de uma breve e suave despedida do inesquecível. Ao final, fica a certeza de que a arte em seus encantos é plena, emocionalmente cativante, e nos torna mais humanos. Daí, não importa se para encontrá-la tenhamos que ter a capacidade de nos perder. Como bem nos diz Luiz Millan e sua obra imprescindível à sanidade da música brasileira.

SERVIÇO
Achados & Perdidos, Luiz Millan

Plataformas digitais: Apple Music, Spotfy, Deezer, YouTube, Tidal, Juno, Amazon Music e Itunes Apple.

Plataforma física: Em CD, pelo site tratore.com.br, Americanas, Submarino e na loja Pop, em São Paulo.

Preço: R$ 29,90

No +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!!!

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