quarta-feira 7 de dezembro de 2022

Varrer o fascismo neste domingo!

Por cima de pau e pedra, como se diz, a maioria do povo brasileiro está firmemente decidida a rejeitar Jair Bolsonaro

21 de outubro de 2022 3:48 por Redação

Charge: Nando Motta

Por A. Sergio Barroso*

“[Na Europa] Existe, no entanto, uma grande e perigosa diferença entre hoje e o velho contexto do fascismo tradicional: agora, grupos neofascistas e xenófobos ganham boa parte do próprio consenso eleitoral nas grandes periferias urbanas, nas áreas e nas regiões da crise pós-industrial, entre as massas populares e trabalhadores” (G. FRESU, 2017). (1)

Nessa terça-feira (27), o “agregador de pesquisas eleitorais” do jornal “O Estado de S. Paulo”, baseado nos resultados de 14 institutos diferentes, mostra que Lula aumentou suas intenções de votos válidos (sem os brancos e nulos), e já atingiu, 52% desses válidos, no primeiro turno. (2) O Estadão, como é conhecido, é o jornal mais golpista da história do Brasil; só isto.

Por cima de pau e pedra, como se diz, a maioria do povo brasileiro está firmemente decidida a rejeitar Jair Bolsonaro logo ali, nas eleições no próximo domingo.

Enfrentou-se, durante quatro anos, a escandalosa manipulação de milhares de militares enfiados no governo – cerca de 10 mil, diz-se -, sempre a “espada de Dâmocles” das ameaças golpistas; uma fajutice, ademais. Bolsonaro jogou na sarjeta um longo processo de adaptação à democracia das cúpulas militares, vinda desde 1988, fazendo inclusive a violação sistemática da Constituição e dos regramentos da relação governo e Estado e FFAA. Transformou generais da ativa e da reserva em seus capachos, corrompeu alguns. Forçou a demissão de três comandantes das FFAA brasileiras, por divergências explícitas deles.

O presidente neofascista e seus filhos já vinham praticando vasta corrupção, comprovada e denunciada inúmeras vezes, igualmente alardeada por grande parte da grande mídia. Das “rachadinhas” à compra de dezenas de imóveis com “dinheiro vivo”, Bolsonaro já tivera seu fiel escudeiro, e responsável para abastecer as contas escabrosas de sua esposa, Michele, preso, “escondido” numa residência do advogado presidencial! Vários ministros foram obrigados a se demitir, às claras flagrados em casos escabrosos de roubalheira para seus aliados.

Junto à liberalização criminosa para a venda de armas, sob a anuência do Exército brasileiro, o presidente da República estimulou a violência política generalizada. Assassinatos, gangsterismo e terrorismo: Bolsonaro usou os anos de mandato para disseminar a intimidação e o medo, conduta ideológica visceral típica dos nazistas e fascistas. Sua gangue de milicianos e marginais assalariados remetem ao elogio de Hitler ao seu general plenipotenciário Heinrich Himmer:

“Hitler havia, no entanto, cumprimentado Himmler por ter recrutado delinquentes. Via neles uma força brutal que correspondia à natureza popular do nazismo: [Hitler] ‘A melhor coisa que você fez, Himmler, foi ter transformado o incendiário em bombeiro. Desse modo, o bombeiro vive sob ameaça de ser enforcado se houver um incêndio’”. (3)

Numa cruzada obsessiva contra a universidade, a educação e a cultura nunca vista no Brasil, Bolsonaro papagueou o finado neonazista Olavo de Carvalho e ordenou verdadeira guerra contra o denominado “marxismo cultural”. Eric HOBSBAWM recorda-nos que Hitler e os fascistas denunciavam a emancipação liberal (as mulheres deviam ficar em casa e ter muitos filhos), assim como a influência da cultura moderna, sobretudo as artes modernistas, descritas como “bolchevismo cultural e degeneradas”. (4)

A fome em massa é agora uma realidade indiscutível. As desigualdades econômicas, sociais e regionais, junto ao elevado desemprego, somente aprofundaram problemas estruturais, fazendo o país regredir à fisionomia da República Velha! Notadamente com o avanço da desindustrialização, nos últimos anos, a invasão da chamada “Era digital” confere à nação a alegoria de um estatuto semicolonial, com a entronização do neoliberalismo radical das políticas de Bolsonaro. O Brasil voltou à inflação elevada, à altíssima taxa de juros, passando a adotar a chamada “independência do banco central”.

Após a sucessiva injeção bilionária do governo atual, humilhado pela ausência nas quase 700 mil mortes na pandemia do Coronavid19 – sim, espécie de antissemitismo proclamado -, o Brasil deve ter um crescimento médio de 1,1% ao ano nesse período, conforme a FGV Ibre, com dados do Banco Mundial; o crescimento médio global deve ficar em 1,8% ao ano; em 2023, a estimativa é de crescimento de 0,5% aqui, e de 2,3% para o mundo (pesquisa Focus). (5)

Defensor ardoroso da tortura e do estupro, Bolsonaro integra, sim, a revoada global de corvos neonazistas reciclados, também desprendidos da grande crise capitalista iniciada em 2007-8. A desesperança, acicatada pelo desemprego crônico e a miséria humana foram catapultadas na crise da “financeirização” sistêmica do capital. Novamente, a ideia de que a “política” foi capturada pelo establishment contra as massas vingara. Reiterou-se nova virulentas jornadas anticomunista e anti-esquerda patriótica mundo afora. Burgueses e liberais, como historicamente em regra, entregaram-se aos neofascistas aqui e alhures.

O fascismo como espasmos do capitalismo

É preciso sempre assinalar que o nazifascismo aparece como um tipo de deus Janus, bifrontal, no ontem e no hoje. Por isso também, Jean-Louis VULLIERME em seu original e polêmico estudo, considera, ao longo das 240 páginas:

“Espero ter deixado claro que a hipótese de que o nazismo tem sua origem na ideologia ocidental dominante e que cometeu um crime ainda maior que o extermínio de judeus não é sem fundamento”. (grifos nossos) (6)

Longe de ser um fenômeno nacional, o resultado recentíssimo das eleições francesas (abril de 2022, Marine Le Pen 41,6%) e italianas (setembro de 2022) de vitória do neofascismo, a exemplo, demonstram cabalmente que estamos ainda no curso de outra onda ultra-reacionária. Aliás, retrocessos a surfarem noutra grande crise que se confunde com a consolidada transição tempestuosa no sistema de relações internacionais. A questão nodal da afirmação de um mundo multipolar vem determinando todas as outras.

Assim, conforme o experiente jornalista e escritor norte-americano John Pilger alertou-nos há algumas horas, a falência da grande burguesia liberal dominante significa que aqueles desacreditantes “da loucura da guerra permanente e da expansão da OTAN”, dos acordos mercenários de comércio, da exploração dos trabalhadores através da globalização, da austeridade e do neoliberalismo têm origem cada vez mais na extrema direita. Escreveu, emblematicamente ele:

“Esta fúria contra a extrema direita, travestida nos EUA como o fascismo cristão, já obteve enormes ganhos na Hungria, na Polônia, na Suécia, na Itália, na Bulgária e na França e pode tomar o poder na República Tcheca, onde a inflação e os crescentes custos de energia têm dobrado o número de tchecos abaixo da linha de pobreza”. (7)

Quase no mesmo passo, o professor Gabriel Cohn assim desfecha seu consistente e certeiro artigo sobre as características do novo-fascismo brasileiro, encabeçado pelo miliciano eleito somente após a “facada” e a “prisão’ fraudulenta de Lula:

“Nunca mais Auschwitz, nunca mais campos de extermínio, propunha como lema um intelectual fortemente engajado naquele esforço. Talvez aqui logo possamos vir a dizer, contra formas políticas análogas às fascistas ou piores, nunca mais Jair Bolsonaro, com tudo que essa figura, tanto mais danosa como mais ínfima, representa de explicitação do tão persistente lado sombrio de nossa sociedade”. (8)

Epitáfio de um covarde

O fascismo entre nós, que já aparece com a “Associação Integralista Brasileira” (1932), fundada (9) principalmente por Plinio Salgado, foi influenciado diretamente pelas ideias Benito Mussolini, inicialmente para “combater a burguesia e os comunistas”. E, notemos, é essencialmente essa a propaganda central de Giorgia Meloni, agora eleita (com folga) primeira-ministra italiana: dissertar sobre “elites globais niilistas impulsionadas pelas finanças internacionais” – e dizer-se declaradamente fã de Mussolini.

Bolsonaro, um neofascista inculto e abjeto, além do dito, traiu vergonhosamente seus seguidores supostamente “anti-establishment”, anti-corrupção, tementes a Deus, ademais de ficar de quatro para as tais “elites” donas das finanças do país. Recheado de estupidez, tentou em quatro anos devastar a economia nacional, mas não conseguiu. Isolou-se de amplos setores sociais, em nome da amamentação diária de sua base fundamentalista.

Covardemente, o “mau militar” – lhe definiu o ditador Ernesto Geisel – anunciou golpes aos balaios. Blefe, no sentido Houaissiano de “embuste”, “simulação” ou “estratagema”. O “golpe” já havia sido dado na honrada presidenta Dilma Rousseff; e complementado na prisão farsesca de Lula.

O que queria Bolsonaro? Enlamear as duras conquistas históricas democráticas e sociais do nosso povo, fraturar e humilhar a nação brasileira. Mas vencerá a sábia tática política de Frente Ampla convictamente defendida (e praticada) pelo PCdoB. Equação esta que terá que ter continuidade nas duras condições de desafios em que o novo governo Lula assumirá.

Desmoralizado, Bolsonaro será varrido da presidência da República no domingo próximo. Terá que pagar pelos seus crimes.

Notas:

  1. FRESU argumenta que, a base “essencial” do fascismo europeu, como ontem, são a pequena e a média burguesia. Ver: “Nas trincheiras do ocidente. Lições sobre fascismo e antifascismo”, p. 231, Ponta Grossa, Editora UEPG, 2017, de Gianni Fresu. Entretanto, HOBSBAWM afirma ser consensual entre os historiadores, inclusive “revisionistas”, que a mobilização de massas “em toda era da ascensão do fascismo” tinha como alicerce as camadas da classe média e média baixa, sempre incluindo operários; e exemplifica: em 1932, “dos nacional-socialistas” eleitos conselheiros distritais em Viena, eram autônomos (18%), trabalhadores de escritório e funcionários públicos (56%), sendo os operários 14%. Em: “A era dos extremos. O breve século XX (1914-1991)”, p. 125, Companhia das Letras, 2012, 2ª edição. E, antes: “A grande diferença entre a direita fascista e não fascista era que o fascismo existia mobilizando massas de baixo para cima” (idem, p. 121). Wilhelm RIECH, em seu célebre “Psicologia de massa do fascismo” (1933), embora enfatizando que a base social do nacional-socialismo é um movimento “pequeno burguês”, argumenta que “O fascismo penetra nos trabalhadores por duas vias: por intermédio do chamado Lumpenproletariat…graças a uma corrupção diretamente material, e por intermédio da ‘aristocracia operária, tanto por meio da corrupção material quanto da influência ideológica” (Escorpião,1974, pp. 41 e 64-65).
  2. O jornal já havia feito o mesmo, registrando ter sido obtido o resultado “pela primeira vez”, no estudo estatístico do sábado, dia 24.
  3. Registro de J-L VULLIERME, em: “Espelho do Ocidente. O nazismo e a civilização ocidental”, p.245, DIFEL, 2019.
  4. Ver: “A era dos extremos. O breve século XX 1914-1992”, p. 121.
  5. Ver: “Espelho do ocidente. O nazismo e a civilização ocidental”, J-L VULLIERME, DIFEL, 2019, p. 240.
  6. Ver o texto completo de Pilger aqui: https://www.brasil247.com/blog/o-retorno-do-fascismo
  7. Ver o contundente artigo de Cohn aqui: https://www.brasil247.com/blog/o-fascismo-latente
  8. Conta o mestre Edgar Carone que a AIB se expandiu nacionalmente, de modo a que de 1934 a 1936 cresceu de 200 mil a mais de 1 milhão de filiados. Em: “A República Nova (1930-1937)”, DIFE, 1976, p. 206, 2ª edição.

*Para o portal Vermelho

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