sábado 20 de abril de 2024

Riscos e Financiamento à Inovação

Reynaldo Rubem Ferreira Jr (Professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade - FEAC – da UFAL)

22 de maio de 2023 10:04 por Redação

O financiamento à inovação é um elemento crucial para impulsionar o progresso tecnológico e o desenvolvimento econômico. No entanto, apesar de sua importância, esse tema ainda é relativamente pouco explorado e compreendido. A capacidade das empresas, em particular das pequenas e médias empresas (PMEs), de obterem financiamento adequado para apoiar suas iniciativas de inovação é frequentemente desafiadora e limitada, visto que a inovação não é um processo linear e pode ocorrer em diferentes graus de complexidade tecnológica. Neste artigo, no qual abordo de forma sucinta os resultados incipientes de parte da minha agenda de pesquisa de pós-doutorado, sob a orientação do professor Joaquim Ramos Silva do Instituto Superior de Economia e Gestão em Lisboa (ISEG), além de delinear introdutoriamente os arranjos de financiamento à inovação propostos no nosso modelo descrito no esquema abaixo, iremos explorar os diferentes graus de complexidade tecnológica, como inovação radical, arquitetônica, modular e incremental. Discutiremos como esses graus de complexidade tecnológica afetam a estratégia de financiamento, o problema do funding-gap e o gradiente de riscos, além de destacar a relevância das pequenas e médias empresas (PMEs) nesse contexto e do desenvolvimento institucional do país.
O primeiro arranjo propõe um modelo de financiamento predominantemente público, no qual o setor público desempenha um papel central na disponibilização de recursos financeiros para empresas inovadoras, incluindo as PMEs. Esse arranjo é particularmente relevante quando se trata de inovação radical, que envolve a criação de tecnologias totalmente novas e disruptivas. A inovação radical geralmente exige investimentos de longo prazo e alto risco, tornando difícil para as PMEs obterem financiamento no mercado privado. O financiamento público nesse arranjo pode fornecer subsídios, bolsas e financiamento direto de projetos por meio de programas governamentais específicos voltados para o apoio à inovação radical.

O segundo arranjo envolve uma combinação de financiamento público e privado, reconhecendo a importância dos dois na promoção da inovação. Nesse caso, as diferentes complexidades tecnológicas são abordadas de maneiras distintas. Para a inovação arquitetônica, que se concentra na reconfiguração e recombinação de componentes existentes, o financiamento público e privado pode ser direcionado para apoiar a pesquisa e desenvolvimento de tecnologias específicas e facilitar a colaboração entre empresas e instituições de pesquisa. Já para a inovação modular, que envolve a criação de módulos ou componentes intercambiáveis, o financiamento pode ser orientado para promover a padronização e interoperabilidade dos módulos, facilitando a adoção e implementação em larga escala. Em ambos os casos, a combinação de recursos públicos e privados permite abordar a complexidade tecnológica de forma mais abrangente e eficaz. No entanto, é importante considerar o gradiente de riscos ao combinar financiamento público e privado, pois os investidores privados podem ser mais avessos a riscos exigindo um papel maior para os recursos públicos na partilha de riscos.

O terceiro arranjo concentra-se principalmente no financiamento privado, onde os investidores privados desempenham um papel central na provisão de capital para empresas inovadoras, incluindo as PMEs. Esse arranjo é especialmente adequado para a inovação incremental, que envolve melhorias graduais e contínuas em produtos, processos ou serviços existentes. A inovação incremental normalmente requer menor investimento e é considerada de menor risco em comparação com outros graus de complexidade tecnológica. Portanto, é mais adequada para o financiamento privado, pois os investidores privados tendem a buscar retornos financeiros mais imediatos e previsíveis. Nesse arranjo, as PMEs podem buscar financiamento por meio de investidores de capital de risco, fundos de investimento privados e redes de investidores anjo. Para as PMEs envolvidas em inovação incremental, é essencial estabelecer parcerias com investidores e aproveitar as oportunidades de financiamento privado para impulsionar seu crescimento e desenvolvimento contínuo.

Em todos os arranjos de financiamento, a relevância das PMEs é evidente. As PMEs desempenham um papel crucial na economia, impulsionando a criação de empregos, a inovação disruptiva e a diversificação do tecido empresarial. No entanto, muitas vezes enfrentam dificuldades para obter financiamento devido a restrições de crédito e acesso limitado aos mercados de capitais. Os arranjos de financiamento discutidos neste artigo visam reduzir as barreiras financeiras para as PMEs e fornecer-lhes as oportunidades necessárias para explorar os diferentes graus de complexidade tecnológica. Por meio de parcerias público-privadas, programas governamentais específicos e acesso a investidores privados, as PMEs podem receber o apoio financeiro necessário para impulsionar sua inovação e contribuir para o crescimento econômico e social.

Ao abordar os diferentes graus de complexidade tecnológica, todavia, um desafio comum é o problema do funding-gap. Esse problema ocorre quando há uma lacuna entre a disponibilidade de financiamento e as necessidades de investimento para impulsionar a inovação. O funding-gap é mais pronunciado em inovações radicais, onde os requisitos de investimento são altos e os riscos são maiores. As PMEs muitas vezes enfrentam dificuldades para preencher essa lacuna de financiamento devido à falta de histórico comprovado, garantias tangíveis e acesso limitado a fontes de financiamento. Para mitigá-lo, é necessário estabelecer mecanismos de financiamento adequados, como fundos de capital de risco, programas de apoio governamental e parcerias estratégicas entre setores público e privado, como os arranjos acima propostos. Ademais, é essencial considerar as características e as demandas específicas de cada empresa e do setor em que estão inseridas. Arranjos financeiros como financiamento público, capital de risco, fundos de investimento, empréstimos bancários e parcerias estratégicas oferecem diferentes vantagens e desafios, e sua aplicação eficaz depende do ambiente em que as PMEs operam.

Por esta razão, o desenvolvimento de um país desempenha um papel fundamental na disponibilidade e acessibilidade dos recursos financeiros necessários para impulsionar a inovação. Países com economias mais desenvolvidas geralmente possuem mercados de capitais robustos, que oferecem uma variedade de opções de financiamento, como ações, títulos e inovações financeiras, como crowdifunding. Esses mercados fornecem um ambiente propício para empresas inovadoras, incluindo PMEs, acessarem capital para investimentos em pesquisa e desenvolvimento, escalabilidade e expansão de seus negócios.

Além disso, o sistema de inovação de um país desempenha um papel crucial na promoção e no suporte à inovação. Um sistema de inovação forte envolve a interação de diversos atores, como empresas, universidades, centros de pesquisa, agências governamentais e instituições financeiras. Essa colaboração entre os diferentes agentes do sistema de inovação cria um ambiente favorável ao financiamento da inovação, permitindo a conexão entre os recursos financeiros disponíveis e as necessidades das PMEs inovadoras.

Assim, um país com um mercado de capitais desenvolvido e um sistema de inovação robusto tende a oferecer uma gama mais ampla de opções de financiamento, proporcionando às PMEs maior flexibilidade na escolha dos arranjos financeiros mais adequados às suas necessidades. Além disso, um sistema de inovação bem estruturado pode fornecer suporte adicional às PMEs, como programas de incubação, mentoria, acesso a redes de contatos e assistência técnica, que complementam os recursos financeiros disponíveis.

Os arranjos aqui propostos também podem ter um papel relevante na estruturação e do financiamento das PMEs inovativas nos países em desenvolvimento, visto que elas enfrentam desafios únicos para acessar os recursos financeiros necessários para impulsionar suas iniciativas inovadoras. Ou seja, podem ser adaptados às características e necessidades específicas dessas economias, proporcionando suporte financeiro adequado e estimulando a colaboração entre diferentes atores do ecossistema de inovação.

Além disso, os arranjos financeiros propostos têm o potencial de fortalecer o sistema de inovação como um todo. Ao atrair investimentos e recursos financeiros, esses arranjos estimulam a colaboração entre empresas, instituições de pesquisa, universidades e governo, criando um ambiente propício para o intercâmbio de conhecimento, transferência de tecnologia e desenvolvimento de parcerias estratégicas. Essa interação entre os diferentes atores do sistema de inovação impulsiona o desenvolvimento de clusters de inovação e estimula o surgimento de ecossistemas empreendedores dinâmicos.

Notadamente, no contexto dos países em desenvolvimento, a adoção dos arranjos financeiros propostos pode ser um elemento catalisador para impulsionar a inovação, superar desafios estruturais e promover o desenvolvimento econômico sustentável. Ao orientar, sem disconsiderar os sinais e tendências de mercado, a política de financiamento à inovação, esses arranjos podem direcionar os recursos financeiros de forma estratégica, apoiar a pesquisa e desenvolvimento, incentivar a adoção de tecnologias avançadas e melhorar a competitividade das PMEs.

Em suma, os arranjos financeiros propostos neste artigo desempenham um papel crucial na orientação da política de inovação, especialmente em países em desenvolvimento. Ao fornecer diretrizes claras e práticas para o financiamento à inovação, esses arranjos podem superar as limitações financeiras das PMEs, impulsionar o crescimento econômico e promover a criação de um ambiente propício para a inovação. É essencial que os formuladores de políticas, governos e outros atores relevantes considerem esses arranjos financeiros como parte integrante de suas estratégias de desenvolvimento e inovação.

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