quinta-feira 22 de fevereiro de 2024

Hibridismo em Aluê

O álbum Aluê, que podemos dizer ser o primeiro disco brasileiro de Airto Moreira, faz uma releitura de discos importantes de sua carreira.

4 de julho de 2023 4:58 por Mácleim Carneiro

Duvulgação

Se você procurar o significado da palavra ‘aluê’ em dicionários ou no quase infalível Google, no máximo chegará à palavra ‘aluá’, que é uma bebida feita da casca do abacaxi. Se tiver a pachorra de insistir na curiosidade, encontrará aluê como nome próprio de uma personagem indígena do romance Léguas da Descoberta, psicografado por Cláudio Guilhon. Porém, se quiser descobrir musicalmente e da melhor maneira possível ao paladar auditivo, saiba que Aluê é o álbum do percussionista brasileiro Airto Moreira, que durante oito anos consecutivos foi eleito o maior percussionista do mundo!

E foi ele mesmo quem tratou de desvendar o mistério etimológico da palavra aluê, ao afirmar que o nome nasceu de uma “viagem psicodélica”, quando estava em uma praia na Califórnia dos anos 1970. “Para mim, aluê significa bom dia e é como o galo cantando de manhã”. Na verdade, a música-título do nosso álbum em questão, vem dessa época e foi gravada pela primeira vez no primeiro disco solo de Airto, ‘Natural Feelings’ (1970). O álbum Aluê, que podemos dizer ser o primeiro disco brasileiro de Airto Moreira, faz uma releitura de discos importantes de sua carreira, com algumas boas novidades inéditas, como: ‘Rosa Negra’; ‘Não Sei Pra Onde’, ‘Mas Vai’ e ‘Guarany’, que encerra o disco. Todas composi- ções do próprio Airto, bem como ‘Misturada’, ‘I’m Fine’, ‘How Are You?’ e ‘Sea Horse’ (José Neto), que receberam nova roupagem para esse trabalho.

Claro, tem ainda a empolgante ‘Aluê’, uma parce- ria do percussionista com sua esposa Flora Purim, além da interessantíssima ‘Lua Flora’ (Flora Purim e José Neto), cantada por Diana Purim, filha do casal de artistas, que ratifica sua genética musical por herança e tem a participação, no pandeiro, de Krishna Booker, casado com Diana e, portanto, genro de Flora e Airto.

Elo Forte

Mas, por que o álbum de um percussionista conhecido no mundo todo, nascido em Santa Catarina e criado no Paraná, que nos anos 60 atuou ao lado de músicos como Hermeto Pascoal e participou do inesquecível Quarteto Novo e, depois, já nos Estados Unidos, onde está radicado até hoje, Integrou o grupo do trompetista Miles Davis, com quem gravou o álbum ‘Bitches Brew’, e nos anos 70 tocou e gravou com o grupo Return to Forever, de Chick Corea, com quem voltou a atuar novamente em 2007, para lançar o álbum The Boston Three Party, foi escolhido para ser apresentado nesse espaço que, essencialmente, foi pensado para resenhas sobre discos físicos lançados por artista da cena aquariana?

Pois bem, a resposta é que nesse trabalho temos um elo fortíssimo! Forte o bastante para ter dado origem a esse álbum e assinar as baterias (exceto no tema Aluê), a edição de áudio, mixagem e produção. Esse elo tem nome, chama-se Carlos Ezequiel, um músico alagoano, baterista e, como é de praxe em casos umbilicais, ainda pouco conhecido em nosso aquário, como, de resto, são as pérolas da musicalidade caeté. Aliás, o próprio Airto definiu o nosso conterrâneo dessa maneira: “O Carlos Ezequiel conhece minha música a fundo. Além de tocar música brasileira, tem bom conhecimento de jazz.”

Hibridismo

O lançamento de Aluê aconteceu em 2017 e teve a ver com as comemorações dos 50 anos de carreira de Airto Moreira. Trata-se de um disco híbrido por natureza, onde o fruidor vai encontrar desde os temas instrumentais melódicos, passando por outros, onde o canto se faz presente e ecoa letras resumidas e poeticamente precisas, até chegar ao puro experimentalismo, típico dos percussionis- tas criativos, do naipe de Airto Moreira.

Gravado em único take, nos moldes dos discos instrumentais viscerais, Aluê uniu, na mesma intensidade, músicos como o guitarrista José Neto, parceiro há mais de 30 anos do Airto, e outros que foram agregados a esse trabalho, como o grande contrabaixista Sizão Machado, dono de uma imensa versatilidade musical! Outro músico da pesada é o saxofonista e flautista Vitor Alcân- tara, também indicado pelo Carlos Ezequiel, que se encaixou perfeitamente ao som e ao estilo da música de Airto Moreira, além do pianista e tecladista Fábio Leandro, com contribuições de destaque em solos maravilhosos! Evidentemente, tem ainda o nosso Carlos Ezequiel (Carlinhos), que assumiu as baquetas em sete das oito faixas do álbum. E, claro, como cereja do bolo, Diana Purim nos arranjos vocais, cantando com toda a sensibilidade musical que Flora e Airto lhe passa- ram, com uma pitadinha de ajuda dos deuses apolíneos, certamente.

O fato é que o tema ‘Aluê’ (Airto Moreira e Flora Purim) abre o álbum com a força que só um baião tem e define a tônica e o conceito do disco, num prenúncio do que ouviremos em termos de ritmos, instrumentos e vozes. Dá as boas-vindas ao ouvinte sem esconder o jogo, cujo placar se altera a cada compasso, onde Vitor Alcântara mostra suas habilidades no manejo do soprano, no que é seguido, na mesma medida, por Fábio Leandro, nas inúmeras possibilidades pianísticas. Ambos, em solos inspirados, traduzem e apon- tam os caminhos e portais que se abrirão para a riqueza do universo musical de Airto Moreira, ao longo da viagem proposta em Aluê, como o alvore- cer de um novo dia para a música instrumental brasileira.

 

SERVIÇO
Aluê, Airto Moreira
Disco físico: à venda em todas as lojas do SESC e Livraria Cultura
Preço: R$ 19,90
Plataformas digitais: Spotify, Itunes, Deezer, Itunes, Soundcloud, YouTube

 

 

 

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1 Comentário

  • Quem escreveu este belo texto, esta ótima crítica sobre a carreira e o último disco de Airto Moreira? Gostaria de saber.

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