sábado 18 de maio de 2024

Overturismo: quando o turismo é ruim para as cidades

Preços altos, trânsito, muitas pessoas. O turismo em excesso, ou overturismo, acontece quando a prática não traz benefícios para a cidade.
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Por Habitability

Nem sempre o turismo faz bem para as cidades. No mundo, cresce o turismo em excesso, ou overturismo. O fenômeno ocorre quando o excesso de visitantes torna insustentável a vida local, degradando o meio ambiente e minando a cidade.

A palavra vem do inglês “overtourism“, que não é nada nova. Em 2018, o termo foi escolhido como uma das palavras do ano pelo Oxford English Dictionary. “O sucesso de um destino turístico traz consequências positivas e negativas. As positivas são bem conhecidas; as negativas só temos sua dimensão quando vivenciadas”, resumiu Susana Gastal, professora do Programa de Pós-Graduação em Turismo e Hospitalidade da Universidade de Caxias do Sul (PPGTURH-UCS), em entrevista para o UOL.

Quais as consequências do overturismo?

  • Perturbação e afastamento de moradores;
  • Aumento dos preços da região;
  • Interrupções no trânsito;
  • Degradação de patrimônios históricos;
  • Degradação do meio ambiente;
  • Produção de lixo e esgoto em excesso.

Saiam da minha cidade, turistas!

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A Organização das Nações Unidas (ONU) prevê que, até 2030, o número de turistas internacionais vai chegar a 2 bilhões. Muitas das cidades do mundo não conseguem absorver esse montante de pessoas.

De acordo com pesquisa feita pela Deutsche Welle, reproduzida pela Forbes, cidades como Atenas tem oito turistas por habitante. Já Veneza tem 21 turistas por habitante. O número se reverte em falta de domicílios para os moradores de Veneza. Pesquisas mostram que há quase tantos leitos para turistas quanto para habitantes da cidade. O departamento de turismo da cidade italiana passou a barrar a entrada de grandes cruzeiros no canal turístico.

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Já Roma, no mesmo país, teve que criar multas de até 450 euros para taxar aqueles que sentam na escadaria da Praça da Espanha. O ponto turístico sofre com danos por ser um lugar extremamente popular entre turistas: os lugares são descoloridas pela poluição e também manchadas de comida, vinho e café.

Machu Picchu, no Peru, já chegou a ser destino de 1,4 milhão de turistas por ano. Até 2017, era possível caminhar por todo o lugar, que é um patrimônio histórico e arqueológico. O problema é que as pessoas estavam deteriorando as trilhas e as ruínas, colocando em sério risco as pesquisas e a preservação do local. Para evitar, o governo peruano passou a limitar a entrada de pessoas ali.

No Brasil, lugares de natureza como Fernando de Noronha, no Pernambuco; e cidades como Gramado passam pelos desafios do excesso de turistas. No caso da cidade do Rio Grande do Sul, que tem menos de 40 mil moradores, a expectativa é receber 8,3 milhões de pessoas em 2023. Embora o turismo seja fonte de renda importante para os moradores, há reclamação frequente de falta de água e alta nos preços de alimentos.

Overturismo cultural

Cena do filme “Joker” (Foto: Reprodução/Warner Bros Studios)

As razões que levam multidões aos mesmos lugares são variadas. Uma delas resulta no “overturismo cultural”, que é o excesso de visitantes estimulados por obras de ficção. Em alguns casos, basta um filme de sucesso, como ocorreu com as escadarias do Bronx, em Nova Iorque. O espaço ganhou notoriedade com as cenas do blockbuster “Joker”. São os degraus onde o ator Joaquim Phoenix, na pele do supervilão do Batman, dança em uma dos ápices do filme. O resultado foram que milhares de pessoas passaram a ir para os degraus, que, na realidade, ficam entre dois blocos de prédios residenciais.

Maya Bay, na ilha de Phi-Phi-Leh

A praia tailandesa de Phi-Phi-Leh, onde foram gravadas cenas de “A Praia” passou a receber 5 mil visitantes diariamente na alta temporada desde o lançamento do filme. Os danos para a biosfera foram irreparáveis: cerca de 77% dos corais de Maya Bay estão em risco de desaparecer por conta das âncoras de grandes barcos turísticos. O overturismo fez com que governo da Tailândia simplesmente fechasse o local em 2018 para evitar que a biodiversidade marinha fosse completamente destruída.

Já a cidade croata de Dubrovonik, na Croácia, foi ainda mais radical: proibiu novos restaurantes de explorar o centro antigo da capital e de colocar mesas do lado de fora da calçada. O local, que foi cenário da série Game of Thrones, recebe cerca de 1,5 milhão de turistas por ano, impulsionados pelo fervor dos fãs. Por falta de infraestrutura e excesso de pessoas, o governo local resolveu pedir para restaurantes e cafés deixarem o fenômeno da HBO de lado.

Turismo em casas, o overturismo privado

Não é incomum que lugares privados virem zonas de turismo, o que, inevitavelmente resulta no overturismo. É o caso de uma das fachadas de casas que deu lar ao personagem principal de Breaking Bad, em Albuquerque, nos Estados Unidos. A onda de visitantes foi tanta que os donos do lugar – e os moradores do bairro – tiveram que instalar muros em volta para reduzir a chateação.

Em São Paulo, uma casa do bairro de Higienópolis se tornou centro das atenções de uma série de podcasts lançados no ano passado. O programa contava a história de uma acusação de crime à atual moradora do espaço. Em poucas semanas, ouvintes e curiosos se acumularam na frente do imóvel, tirando fotos e fazendo filmagens. Logo, a quantidade de pessoas se tornou tanta que a rua foi tomada e obrigou ações da companhia de trânsito.

Instagram pode ser um problema

As redes sociais também incentivam turistas e, de certa forma, ajudam a colocar destinos no mapa de muita gente. A ida de influenciadores para um cenário ou, até mesmo, as fotos divulgadas em páginas de destinos remotos divulgam os espaços, mas também criam expectativas irreais sobre os lugares.

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O site Embarque na Viagem conta que a cidade de Portofino, na Riviera Italiana, com apenas 400 habitantes (mas também inundada por milhares de visitantes), estabeleceu “zonas para não ficar parado” para impedir que os turistas parem para fazer selfies. Qualquer pessoa flagrada no cais por muito tempo entre as 10h30 e às 18h corre o risco de pagar uma multa de cerca de € 270 (cerca de R$ 1,4 mil).

A pequena vila de Hallstat, na Áustria, foi um pouco menos compreensiva: colocou muros de madeira para tampar o principal ponto de parada de fotógrafos “de smartphone“.

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