quarta-feira 11 de março de 2026

Sanções dos EUA reacendem a questão nacional

Não se trata apenas de uma disputa comercial. É um gesto de força imperial, que combina interesses políticos e econômicos

20 de julho de 2025 9:46 por Da Redação

Foto: Arquivo

 

Por Geraldo de Majella

A tarifa de 50% imposta por Donald Trump sobre exportações brasileiras — como aço, alumínio, aviões e produtos do agronegócio — reacende uma pauta negligenciada nas últimas décadas: a questão nacional. O anúncio veio acompanhado de uma declaração escandalosa de seu ex-estrategista, Steve Bannon: as sanções só seriam suspensas se o processo judicial contra Jair Bolsonaro fosse arquivado. A chantagem, inédita, configura um grave atentado à soberania do Brasil e à independência do seu Judiciário.

Não se trata apenas de uma disputa comercial. É um gesto de força imperial, que combina interesses políticos e econômicos para tentar submeter um país inteiro à lógica de proteção a um aliado — no caso, Bolsonaro. A sanção revela o quanto o presidente dos EUA se julga dono do mundo, mesmo em um cenário internacional cada vez mais multipolar.

Desde os anos 1990, temas como soberania, independência tecnológica, reindustrialização e defesa de setores estratégicos foram marginalizados no debate público brasileiro. O discurso dominante, guiado pela lógica neoliberal, passou a tratar o Estado nacional como entrave e o capital internacional como solução. Em nome da “modernização” e do “livre mercado”, promoveram-se privatizações, o desmonte de cadeias produtivas e a perda de protagonismo geopolítico. A investida contra a soberania energética — com a entrega do pré-sal, das refinarias, da distribuidora de combustíveis e de ativos da Eletrobras — talvez seja a expressão mais clara desse projeto de subordinação ao capital internacional.

Os governos Lula e Dilma representaram, em alguma medida, uma inflexão nesse rumo. Retomaram o papel do Estado como indutor do desenvolvimento, fortaleceram empresas nacionais, ampliaram laços Sul-Sul e reintroduziram a ideia de que o Brasil pode ter um projeto autônomo. Essa visão, porém, foi sistematicamente atacada e, após o golpe de 2016, substituída por uma agenda de regressão nacional.

A investida de Trump contra o Brasil não é um gesto isolado nem acidental. Faz parte de uma tradição de pressão imperial que subestima a capacidade de reação das nações latino-americanas. A resposta brasileira tem sido diplomática — mas sem abrir mão da soberania. O governo deixou claro que o país tem meios legítimos para reagir, entre eles a aplicação da lei da reciprocidade, que permite adotar medidas equivalentes contra interesses norte-americanos caso as sanções sejam mantidas.

Recolocar a questão nacional no centro da política não é apenas necessário — é urgente. Isso implica defender a Amazônia e todos os ecossistemas brasileiros sem se submeter a tutelas internacionais, reconstruir a capacidade produtiva do país, investir em ciência e tecnologia, garantir autonomia energética e tecnológica, e afirmar o direito do povo brasileiro de decidir, livre de pressões externas, os rumos da sua própria democracia.

Mais que um incidente diplomático, o episódio representa um alerta estratégico. Sem soberania, não há projeto nacional. E sem projeto nacional, não há democracia substantiva, nem desenvolvimento com justiça social.

A esquerda brasileira, diante desse novo cenário, precisa revisitar o tema da soberania com coragem. Não apenas como resposta às agressões externas, mas como fundamento de um novo pacto nacional que rompa com a lógica da dependência e reafirme o Brasil como país livre, soberano e solidário.

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