30 de agosto de 2025 10:18 por Da Redação

Por Geraldo de Majella*
Luis Fernando Verissimo (1936-2025) sempre escreveu como quem conversa — leve, irônico, capaz de arrancar um riso mesmo quando o tema era sério. Esse tom acompanhou não só suas crônicas sobre política, amor, cotidiano e música, mas também seu jeito de falar de uma paixão antiga: o futebol. E, dentro dele, a devoção incontida pelo Internacional de Porto Alegre, o Colorado.
Filho de Mafalda e Érico Verissimo, ele cresceu cercado por livros e literatura, mas também pelos gritos de arquibancada do Beira-Rio e, antes dele, do estádio dos Eucaliptos. Se a música — sobretudo o jazz, que tocava no saxofone — lhe deu ritmo, foi o futebol que lhe deu metáforas. Verissimo enxergava o jogo como teatro popular, um palco de drama e humor onde cabiam heróis, vilões, ironias do destino e vitórias improváveis.
Nas suas crônicas esportivas, não havia espaço para o fanatismo cego: ele fazia do futebol um espelho do Brasil, com toda sua criatividade, caos e contradições. Escrevia sobre partidas memoráveis do Inter, sobre a rivalidade com o Grêmio e, principalmente, sobre o lado humano do torcedor — a esperança que renasce a cada domingo, a raiva contra a arbitragem, a alegria que explode em gol.

O Internacional, conhecido pelos gaúchos como Colorado, foi para ele mais do que um clube: era a extensão de sua identidade. Verissimo acompanhou e registrou algumas das maiores glórias do time. O tricampeonato brasileiro nos anos 1970, a conquista da Libertadores de 2006 e o título mundial contra o Barcelona foram momentos que ele não apenas narrou, mas viveu como experiências emocionais coletivas. Além disso, o Inter construiu ao longo da história um currículo invejável: duas Copas Libertadores da América, um Mundial de Clubes da FIFA, uma Copa Sul-Americana, duas Recopas Sul-Americanas, além de ser o maior vencedor do Campeonato Gaúcho, com 46 títulos registrados, e de ter conquistado o Campeonato Brasileiro três vezes entre as décadas de 1970 e 1980.
Entre todos esses feitos, nenhum talvez tenha sido tão marcante quanto a final do Mundial de Clubes de 2006, no Japão. Contra o poderoso Barcelona de Ronaldinho Gaúcho, o Inter venceu por 1 a 0 com gol do alagoano Adriano Gabiru, o improvável herói que entrou para a eternidade colorada. Verissimo, como tantos outros torcedores, celebrou aquele momento como o maior título da história do clube — uma vitória épica que sintetizava a beleza do futebol: a capacidade de surpreender e de transformar em lenda quem menos se espera.
Para Verissimo, o futebol era também literatura: cada jogo era um conto aberto, cheio de suspense e finais surpreendentes. Ele costumava brincar que o torcedor é um otimista incurável, e talvez essa definição resuma seu amor pelo Inter. Mesmo diante das derrotas mais doloridas, sempre acreditava que o próximo jogo traria redenção. Essa esperança sem fim, que só o futebol alimenta, atravessou toda a sua vida.
Luis Fernando Verissimo partiu, mas deixou uma herança dupla: a de cronista que transformou o cotidiano em literatura, e a de torcedor colorado que ensinou que o futebol pode ser lido, escrito e sentido como poesia.
(*) Historiador e jornalista.





