8 de outubro de 2025 9:44 por Da Redação

Carlos Vargas*
Brasil, 1935
Jubiabá, de Jorge Amado (1912-2001), foi publicado pela editora José Olympio, em 1935, quando o autor tinha 23 anos. O romance constitui uma das obras mais emblemáticas do realismo social brasileiro da década de 1930 e reflete o posicionamento político comunista de Amado, então militante do Partido Comunista Brasileiro. A obra inscreve-se num contexto de profundas desigualdades sociais, marcadas pelo início da industrialização, pela crise do modelo agrário e pelas tensões políticas do período pós-Revolução de 1930, a Era Vargas. A narrativa manifesta uma clara intenção de denúncia e de transformação social, revelando a convicção de Jorge Amado de que a literatura poderia funcionar como instrumento de consciência, de mobilização e de emancipação popular, dando voz às classes oprimidas e expondo as contradições estruturais da sociedade brasileira.
A história acompanha a trajetória de Antônio Balduíno, jovem negro e pobre de Salvador, cuja vida enfrenta as múltiplas dimensões da opressão social, racial e económica. Desde a infância marginalizada até à maturidade como trabalhador e militante, Balduíno, o negro Baldo, encarna o homem do povo, que desperta para a consciência política e se integra na luta coletiva. O mundo do trabalho, representado nos cais e nas fábricas, surge como espaço de exploração, mas também de solidariedade e de resistência. Essa dimensão política é atravessada por um discurso de inspiração marxista, em que a luta de classes se apresenta ao leitor como motor da história e como potencial horizonte de libertação.
Paralelamente à crítica social, Jorge Amado compõe um retrato exuberante da cultura popular baiana. A religiosidade afro-brasileira, o sincretismo do candomblé, as festas e a música não são meros elementos folclóricos, mas expressões de resistência e de identidade coletivas. A personagem Jubiabá, pai de santo e guia espiritual, representa a sabedoria ancestral africana e a força das tradições que sustentam o povo na adversidade. A sensualidade, a alegria e a vitalidade do povo negro funcionam como contraponto à miséria e à injustiça, valorizando a sempre renovada capacidade de afirmação da vida mesmo em contextos de extrema violência e de opressão.

Desse modo, Jubiabá, romance que desalinhava do neorrealismo programático, articula dois universos aparentemente opostos – o da luta política e o da celebração popular – num projeto estético que entrelaçava realismo social e lirismo. A denúncia das desigualdades, do conflito racial e da exploração do trabalho convive com a exaltação da cultura mestiça e sincrética, que o autor reconhecia como essência do Brasil. O romance torna-se, assim, um retrato dialético do país: expõe um espaço de dor e de injustiça, mas também de resistência, de esperança e de criação coletiva, sendo o povo apresentado como sujeito histórico e, simultaneamente, como motor da transformação social.

Contudo, o projeto de Jorge Amado apresenta diversas tensões internas e evidentes limites. A idealização do povo – retratado com pureza moral, espontaneidade e heroísmo – reduz a complexidade das contradições internas das classes populares e simplifica as mediações políticas e culturais que estruturam as desigualdades. Por outro lado, a adesão ao ideário comunista dos anos 1930 leva Jorge Amado a construir uma oposição binária entre oprimidos e opressores, por vezes excessivamente esquemática. Por fim, do ponto de vista estético, poderá observar-se um equilíbrio instável entre o impulso didático e militante e a dimensão poética e mítica da narrativa, o que confere à obra uma inevitável oscilação entre a denúncia social e o encantamento cultural.
Ainda assim, Jubiabá mantém grande atualidade e vitalidade. As contradições que o romance denuncia – a marginalização do povo negro, a exploração do trabalho e a exclusão das classes populares – persistem sob novas formas no Brasil contemporâneo. As lutas de Antônio Balduíno ecoam, nomeadamente, nas trajetórias dos jovens das periferias urbanas, vítimas da precariedade e do racismo estrutural. Por outro lado, a vitalidade cultural e o sincretismo religioso continuam a afirmar-se como espaços de resistência e de esperança, revelando que a luta pela justiça social e pela dignidade humana permanece um desafio histórico ainda não completamente superado e consolidado.
Brasil, 2025
Jorge Amado seria eleito para a Academia Brasileira de Letras em Abril de 1961, tornando-se, dessa forma, no quinto ocupante da cadeira número 23, sucedendo ao político e diplomata Otávio Cavalcanti Mangabeira (1886-1960). No discurso de tomada de posse – cuja leitura muito aconselho –, proferido a 17 de Julho de 1961, afirmou o imortal da Bahia: “Minha geração, esses romancistas do ano trinta, chegava a vida e para a criação novelística com o peito oprimido sob a angústia do Brasil e do homem brasileiro, em busca de caminhos para solução dos nossos problemas. Variados foram os caminhos surgidos, mas o ponto de partida era o mesmo: o amor ao Brasil e a seu povo, a necessidade de solidarizar-se com o homem e o seu drama fosse o drama inferior de sua solidão.”

Em 2025, 90 anos depois da publicação de Jubiabá, a Academia, fundada há 130 anos, elegeu na sua história a primeira mulher negra. Trata-se da escritora Ana Maria Gonçalves (Ibiá, Minas Gerais, n.1970), autora do incontornável romance histórico Um defeito de cor. Eleita a 10 de Julho deste ano, passará a ser a sexta ocupante da cadeira número 33, após o desaparecimento do filólogo Evanildo Cavalcante Bechara (1928-2025).
Um defeito de cor, publicado pela Record em 2006, – logo há 19 anos –, centra-se em temáticas que exploram o racismo estrutural e as suas implicações na sociedade brasileira contemporânea. Através da história da heroína negra Kehinde/ Luiza Mahin, a autora evidencia as desigualdades históricas que moldam as relações entre brancos e negros, denunciando o preconceito e a exclusão social. Paralelamente, destaca-se no romance a busca pela identidade e pela ancestralidade, através da reconstrução da memória e da valorização das raízes africanas como formas de resistência e de afirmação cultural e identitária.
A narrativa explora ainda as convergências entre racismo e machismo, dando voz a mulheres negras, que enfrentam múltiplas opressões e que, pela sua força e autonomia, redefinem o lugar que ocupam no mundo. O amor e o desejo surgem como forças de libertação e de reconstrução, devolvendo-lhes a dignidade, a esperança e um profundo sentido de humanidade.

Em entrevista recente à revista Veja (5 de Setembro de 2025), a mineira Ana Maria Gonçalves afirmou: “Eu ter sido eleita é um aceno da Academia a se enxergar e a entender que seu quadro de escritores imortais ainda não espelha a cultura e a sociedade brasileiras.”
Quando questionada se o Brasil, nas décadas recentes conseguiu avançar na questão racial, a autora afirmou (cito na íntegra a sua resposta): “Acredito que sim, porque agora pelo menos conseguimos falar em público sobre essas pautas, seja para o bem, seja para o mal. Pois por muito tempo essa pauta foi proibida, principalmente na ditadura militar brasileira, que queria consolidar a ideia de democracia racial. Por muito tempo, a sociedade nacional silenciou sobre esse assunto. Nos anos 2000, época em que comecei a escrever o livro [Um defeito de cor], houve um avanço na discussão sobre cotas graças a um longo trabalho dos movimentos negros de reivindicar direitos, debatendo o assunto dentro das universidades e, mais para a frente, em órgãos públicos. Era algo que estava sendo há muito tempo conversado, mas que não encontrava um eco na sociedade. E a discussão sobre cotas rompeu esta barreira.”
O Brasil contemporâneo enfrenta seguramente um quadro de tensões persistentes em torno das questões raciais, da cultura negra e das desigualdades estruturais que moldam o seu tecido social. Apesar dos avanços evidentes nas políticas afirmativas, na visibilidade das vozes negras e no reconhecimento da diversidade cultural, o racismo ainda persiste, em muitas circunstâncias e em múltiplas geografias, enraizado nas instituições, nas práticas quotidianas e nas representações simbólicas do país.
A emergência de discursos revisionistas e o recrudescimento da intolerância revelam, inevitavelmente, a fragilidade das conquistas até agora alcançadas. Perante este contexto, impõe-se uma reflexão inevitável: será possível manter um olhar otimista? A literatura de autores como Jorge Amado e Ana Maria Gonçalves demonstra que sim, ao inscrever nas suas narrativas a persistência da esperança, a memória das injustiças e a força da resistência popular. A luta pela igualdade poderá continuar a articular o dever da memória com a capacidade democrática de reinvenção coletiva, reafirmando, desse modo, o poder transformador da cultura e da palavra escrita.
Devo a Maria Lúcia Torres Lepecki (Araxá, Minas Gerais, 1940 – Lisboa, 2011), professora catedrática de literatura portuguesa contemporânea da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, a descoberta contagiante da literatura brasileira. Gostaria de dedicar esta crônica à memória de Maria Lúcia Lepecki, intelectual e mestra inesquecível.
Lisboa, 5 de Outubro de 2025
(*) Doutor em Ciência Política
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.






