2 de janeiro de 2026 8:47 por Da Redação
Por Geraldo de Majella*
Hoje, 2 de janeiro, completo 65 anos. A lataria segue em boas condições, sem necessidade aparente, embora alguns ruídos mecânicos insistam em aparecer — como observa um amigo, sempre disposto a sacanear quem chega à idade oficialmente protegida pelo Estatuto do Idoso. A brincadeira tem fundamento jurídico: a Lei nº 10.741/2003 garante direitos e prioridades a quem alcança os 60 anos ou mais, não para nos transformar em relíquias, mas para assegurar respeito, dignidade e a manutenção da marcha da vida — ainda que com revisões periódicas e um pouco mais de cuidado na estrada.
A idade que vivi — e a que ainda espero viver — me oferece certo conforto e uma paz interior: houve lutas, e as conquistas não caíram do céu, muito menos chegaram como doações misericordiosas. O Estatuto do Idoso — como lembrou o amigo, em tom de gozação —, assim como o da Criança e do Adolescente e o Estatuto da Cidade, não nasceram da benevolência do poder, mas dos empurrões persistentes da sociedade civil organizada. São leis marcadas por suor e lágrimas, por disputa, esperança e, muitas vezes, sangue derramado, lembrando que direitos não são gentilezas: são vitórias conquistadas, linha por linha, no curso da história.
A participação política — seja como militante partidário, condição que vivi por décadas, seja como me encontro hoje, na posição de observador ativo — leva-me a me autodenominar, sem constrangimento, um “comunista autônomo”. Vendo em perspectiva, convenço-me de que o país superou a condição do subdesenvolvimento, mas carrega uma desigualdade social de contornos pornográficos, de tão cruel. Essa constatação não funciona como freio de contenção; ao contrário, é um estímulo para não esmorecer, para não aceitar que pobreza e desigualdade sejam uma condenação perpétua imposta pelas elites políticas e econômicas.

Quando fixo o olhar e penso em Alagoas, me ocorre a frase lapidar e cortante do historiador e mestre Dirceu Lindoso — dessas que condensam uma história inteira: “Alagoas é o que se ama e dói”. Para quem nasceu em Alagoas, ou para quem escolheu o estado para morar, se há consciência política ou sensibilidade social, momentos de angústia são inevitáveis diante dos fossos abertos — e cada vez mais largos — entre os muito ricos, uma ínfima minoria, a classe média quantitativamente reduzida e a imensa maioria de pobres e miseráveis.
Mas, como disse o poeta Jorge de Lima, “minhas Alagoas são outras”. São as Alagoas povoadas por gente trabalhadora e talentosa, que luta em meio à terrível adversidade. Quem enxerga a sociedade sob o prisma da luta de classes sabe que terá uma vida inteira dedicada a combater as desigualdades, os privilégios, a opulência econômica da classe dominante e a crueldade — quase generalizada — de setores da “classe política” que, cada vez mais, se apropriam do dinheiro público.
Dezenas de milhares de hectares de terra foram conquistados por trabalhadores e trabalhadoras sem-terra organizados em movimentos sociais. Braços e mãos dessa gente brava hoje plantam e produzem alimentos por meio do Programa Nacional de Reforma Agrária (PNRA) em Alagoas. Trata-se de uma política pública histórica e visceralmente combatida pela grande mídia, pelos proprietários rurais e por políticos conservadores.
Avanços e recuos fazem parte da luta. Passados 45 anos da retomada do movimento pela reforma agrária, há muito a comemorar, a celebrar e também a rememorar, para que não sejam esquecidos os mártires da luta pela terra no Brasil. Essas lembranças permanecem vivas na minha memória.
O marco histórico de ter assistido, pela televisão, à condenação de um ex-presidente da República, de generais e militares das Forças Armadas de diferentes patentes, além de policiais federais e de alguns funcionários do alto escalão da Presidência da República, por tentativa de golpe de Estado. Essa página da história brasileira merece ser registrada e comemorada. Posso dizer, sem exagero: meninos, eu vi!

O fascismo é o ovo da serpente que voltou a ascender no mundo e que, no Brasil, ganhou dimensão inusitada. O ano de 2026 se anuncia como o mais decisivo desde o fim da ditadura militar. A eleição de Lula, assim como a formação de bancadas comprometidas com a defesa e a manutenção do Estado Democrático de Direito no Senado e na Câmara, assume importância essencial para o futuro da democracia brasileira.
Minha preocupação política em 2026 é clara, aliás, é a única preocupação: reeleger Lula presidente do Brasil. Democratas e antifascistas não podem nem devem se perder em discussões tangenciais quando têm diante de si candidaturas fascistas de puro-sangue e outras que atuam como linha auxiliar do fascismo, disfarçadas de moderação e apresentadas como palatáveis ao gosto da elite, do mercado financeiro, dos conglomerados de mídia e do agronegócio, bem como de parcelas da classe média intoxicadas pelo veneno do antipetismo.
A nota destoante do ano que passou foi a perda dos fraternos amigos Ambrozio Lisboa (Mano) e Nilson Mendes de Miranda (Nilsinho), gente com quem convivi por mais de quatro décadas, amigos de copo e de cruz.
Amparo-me nos versos de Belchior:
Presentemente, eu posso me
Considerar um sujeito de sorte
Porque apesar de muito moço
Me sinto são, e salvo, e forte.E tenho comigo pensado
Deus é Brasileiro e anda do meu lado
E assim já não posso sofrer
No ano passado.Tenho sangrado demais
Tenho chorado pra cachorro
Ano passado eu morri
Mas esse ano eu não morro.
(*) Historiador e jornalista.







1 Comentário
Muito bom o artigo. Assim como o Majela ,sou um comunista autônomo,porém um observador atento.