quinta-feira 12 de fevereiro de 2026

Especialistas divergem sobre afundamento do solo na Ponta Verde

Urbanista da Ufal explica que fenômeno é antigo, localizado e distinto do caso Braskem

12 de janeiro de 2026 2:25 por Da Redação

Foto: Ascom DMTT

A entrevista concedida pelo engenheiro civil Marcos Carnaúba na última semana acendeu um sinal de alerta e gerou apreensão entre moradores da Ponta Verde, um dos bairros mais valorizados e verticalizados de Maceió. Veterano da engenharia alagoana, ex-presidente do Instituto do Meio Ambiente de Alagoas (IMA) e ex-coordenador do DNOCS, Carnaúba afirmou que problemas de afundamento do solo na capital podem não se restringir aos bairros oficialmente reconhecidos como afetados pela mineração da Braskem, levantando a hipótese de um “risco silencioso” também na orla marítima.

As declarações foram feitas durante participação no podcast Estruturando Soluções, apresentado pelo engenheiro e mestre em engenharia sísmica Paulo Miranda. Aos 83 anos, Carnaúba defendeu que indícios preliminares de subsidência – termo técnico para o rebaixamento gradual do solo – merecem maior atenção do poder público e da comunidade técnica, especialmente em áreas densamente ocupadas.

O engenheiro Marcos Carnaúba | Reprodução

Diante da repercussão, o arquiteto urbanista Dilson Ferreira, professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), veio a público para contextualizar o fenômeno e diferenciar situações que, segundo ele, vêm sendo indevidamente comparadas.

Um processo histórico, não uma tragédia iminente

De acordo com Dilson Ferreira, o que se observa em trechos da Ponta Verde e da Jatiúca não tem relação com a tragédia geológica provocada pela extração de sal-gema em bairros como Pinheiro e Mutange. “O afundamento do solo nessa região não é recente e está ligado às características naturais do terreno e ao processo histórico de urbanização”, explica.

A área onde hoje estão bairros nobres da capital foi, no passado, composta por cordões arenosos, restinga, manguezais, lagoas, áreas alagadas e pequenos córregos. Grande parte desses ambientes naturais foi aterrada ao longo das décadas para viabilizar loteamentos e grandes obras urbanas, como viadutos, centros comerciais e empreendimentos hoteleiros.

Esse histórico de ocupação sobre solos frágeis, aliado a intervenções como a alteração da drenagem natural, canalização de cursos d’água, impermeabilização do solo e intensa verticalização – mais recente, concentrada sobretudo nos últimos 25 anos – favorece processos de acomodação do terreno.

Segundo o urbanista, há registros de subsidência na infraestrutura urbana da Avenida Amélia Rosa e de áreas próximas há décadas. O fenômeno se manifesta principalmente em redes subterrâneas, como tubulações de esgoto, que sofrem deslocamentos, rompimentos e vazamentos frequentes. “Não é à toa que surgem tantos episódios de esgoto estourado na Ponta Verde e, principalmente, na Jatiúca”, observa.

O arquiteto urbanista Dilson Ferreira | Divulgação

Dilson destaca, no entanto, um ponto central para tranquilizar a população: não há, até o momento, evidências de danos estruturais em edificações. Os prédios seguem estáveis, e o processo identificado é lento, localizado e conhecido pelos especialistas em geotecnia e urbanismo.

Enquanto o caso Braskem envolve colapso do subsolo por atividade minerária, o cenário da Ponta Verde estaria relacionado à dinâmica natural de solos arenosos e às escolhas urbanísticas feitas ao longo do tempo.

Para especialistas, o episódio evidencia a urgência de planejamento urbano mais atento às limitações ambientais, além de investimentos contínuos em monitoramento, manutenção da infraestrutura e atualização dos estudos geotécnicos. Informação qualificada, nesse contexto, é essencial para evitar pânico – e, ao mesmo tempo, não negligenciar riscos reais.

Entre alertas e esclarecimentos, o consenso técnico aponta para a cautela: compreender o solo sobre o qual a cidade foi construída é tão importante quanto decidir como ela continuará a crescer.

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